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Prometo Falhar

por cincodiasuteis, em 29.10.14

Regra geral, as coisas repetitivas são cansativas. Não sei bem que vírus se espalhou por aí (só sei que não é Ébola) que, sobretudo pessoas do sexo feminino, começaram a partilhar massivamente citações do Pedro Chagas Freitas nas redes sociais. Nunca li nada do senhor para além das citações às quais não há fuga possível. Aquilo que se vai seguir é a minha descodificação de um pot-pourri das melhores.

 

“Uma mulher sincera é a coisa mais excitante do Mundo”. Principalmente se disser ao homem o quão mau ele é.

“Há um equilíbrio ténue entre o que te faz andar e o que te faz parar; muitas vezes, é o que te faz parar que te faz andar”. O que é um equilíbrio ténue? O equilíbrio tem graus? É como a gravidez? “Amiga, estás tão grávida!”. Há coisas absolutas. Ou está grávida ou não está. Ou há equilíbrio ou não há.

“O orgasmo deveria ser considerado serviço público e as prostitutas deveriam receber louvores e reconhecimentos – não conheço nada que faça tão bem ao stress”. Eu bem me parecia que a CMTV andava a roubar o serviço público à RTP à noite.

“Amas por exclusão de partes. Amas até a tua parte ser a excluída”. Como assim amas por exclusão de partes? São todos tão maus que ficamos com o menos mau?

“Quando acordares, acorda-me para te ver acordar, sim?”. Isto é a coisa menos romântica que ele já escreveu. No fundo, um dos apaixonados vai apenas meter o despertador antes do outro só para ver as olheiras, as ramelas e o mau hálito matinal. É um pouco como aquele pensamento: “estás apaixonado e queres deixar de estar? Imagina a outra pessoa na sanita”.

 

Pronto, acho que já se percebeu mais ou menos a ideia. Admito que grande parte das citações possam estar descontextualizadas e assim não façam sentido. Mas é precisamente assim que elas são partilhadas com aqueles grandes fundos das imagens de capa do Facebook. Não é nada contra o escritor ou contra este tipo de livros, apesar de não fazerem o meu tipo. É mesmo contra a praga de frases sem sentido e que são partilhadas. Se ofendi alguém, peço desculpa. Não era a minha intenção. Ainda assim, já sabem, prometo falhar.

 

Francisco Mendes

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Parabéns, ESCS FM!

por cincodiasuteis, em 28.10.14

A crónica de hoje é uma memória. A memória do projecto da minha vida. Suspendam-se as opiniões sobre a crise, o Governo, a sociedade ou o que for. Para mim, só isto importa hoje. A ESCS FM faz hoje 4 anos.

 

A ESCS FM foi aquilo que mais fez valer a pena estar na ESCS. Fazer só o curso não fazia sentido para mim. As aulas são importantes, mas é a via para sairmos mais depressa da Faculdade. A ESCS FM, sendo uma escola dentro da escola, foi aquilo que me fez querer não sair. Ainda hoje, se pudesse, por lá andaria. Fiz muito, mas ficam sempre coisas por fazer. Ficou por fazer tudo aquilo que não fiz e isso é a maioria das coisas. No entanto, não posso ser injusto. A ESCS FM, embora tenha sido parte de mim e ainda o seja, nunca foi minha e muito menos agora o seria. Ela serve para que outros percorram os caminhos que eu percorri e daqui a uns anos continuem a sentir a necessidade de escrever sobre ela no dia 28 de Outubro.

 

Foi a ESCS FM também que me fez provar doces venenos. Começo, desde logo, pela rádio. Foi a ESCS FM que me fez dizer “é isto que eu quero fazer o resto da minha vida” mesmo sabendo que as probabilidades estão altamente contra isso. A prova disso é que continuo a querer e o cenário continua bastante improvável, mas não trocava o doce desse veneno por nada. Mesmo que nunca mais faça rádio na minha vida fui feliz a fazer durante aqueles dois anos e meio. Continua a ser um doce veneno. Por um lado, o doce das memórias. Por outro, o veneno de querer uma coisa que parece cada vez mais distante.

 

A ESCS FM foi a minha prioridade. Fiz tudo aquilo que podia por ela (possivelmente nem tudo bem). Eu pensava no curso nos intervalos da ESCS FM. Sei que, pelo facto de ter assumido cargos de responsabilidade, esta era a minha função. Não quero que pensem que estou a dizer que fui um bom samaritano. Pelo contrário. A ESCS FM deu-me muita coisa. A ESCS FM fez de mim uma pessoa muito melhor. Fez de mim um líder, uma pessoa mais confiante. Fez-me sentir o que era ser admirado (outro doce veneno). Fez-me também sentir o que era ser criticado e detestado (como é natural em relação às pessoas que assumem algum cargo de relevo). Até disso e dessas pessoas tenho saudades. Gostava dessa adrenalina. Provavelmente, se passasse por elas hoje na rua, ia cumprimentá-las e esboçar um sorriso. Elas também me fizeram crescer e fizeram de mim uma pessoa muito melhor. Confiante, mas humilde. Com opiniões e convicções fortes, mas com a capacidade de ouvir e perceber que os outros também têm razão.

 

Por fim, a ESCS FM ensinou-me mais sobre pessoas. Ensinou-me a ser político, a ser diplomata, a ser negociador, a ser gestor de conflitos, a ser guia, a ser referência, a ser responsável e a responsabilizar. Tudo isto não seria possível sem outras pessoas que viveram a ESCS FM da mesma forma que eu e que, hoje em dia, são quase todos os meus melhores amigos. A eles deixo também o meu obrigado: ao meu “professor” David, à Joana Monteiro, à Joana Santos, à Raquel, à Catarina, ao Diogo, à Rute, à Joana de Sales, ao Tiago, à Inês Lopes, ao Gonçalo Saraiva, ao Miguel Abrantes, à Cátia Rocha, à Daniela Portugal, à Marta Ventura, ao António, ao Pedro, ao André e a outras pessoas, que, eventualmente, eu me possa ter esquecido, mas que de certeza sabem o quão importantes foram para mim na ESCS FM e para a ESCS FM.

 

Eu disse que a ESCS FM tinha sido uma escola. Desenganem-se aqueles que pensem que foi apenas uma escola de rádio. Foi uma escola de vida. Foram apenas dois anos e meio, mas que vou guardar comigo durante toda a minha vida. Não apenas na minha memória. Também naquilo que eu sou e que para mim é o mais importante. Parabéns, ESCS FM.

 

Francisco Mendes

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Daltonismo Masculino

por cincodiasuteis, em 27.10.14

Tudo aquilo que não compreendo fascina-me. O mundo das mulheres é uma dessas coisas. Desde logo a começar pelos saltos altos e pelo esforço que fazem em andar em cima de uma superfície tão instável e que põe o tendão de Aquiles em maior perigo do que o do próprio Aquiles. Já para não falar da maquilhagem e de todo o esforço que têm que fazer para não desmanchar nada. Há ainda a questão das saias compridas e a obrigação que têm de as segurarem para que, quando sobem escadas, não dêem um trambolhão enquanto o Diabo esfrega um olho.

 

Aquilo que mais me diverte é ver os nomes das cores das tintas para o cabelo e dos vernizes para as unhas. Só não vêem um rapaz tão entusiasmado quanto algumas mulheres junto às prateleiras dos produtos cosméticos a ler as embalagens de tinta porque tenho alguma vergonha.

 

A minha incompreensão reside no facto de, para mim, existirem apenas 3 tons para cada cor: claro, escuro e normal. No fundo, é um pouco como o bife: bem passado, mal passado ou médio. Mas as mulheres não poderiam ser tão primárias quanto eu. As mulheres são sofisticadas pelo que os nomes das cores das tintas são tão complexos como a rosa-dos-ventos. Não basta o norte e oeste, por exemplo. É preciso o noroeste. E ainda o nor-noroeste para se ser mais preciso.

 

Quem quer pintar o cabelo de castanho não pinta de castanho e já está. Pode pintar de chocolate, chocolate noite, chocolate puro, chocolate dourado, chocolate quente ou bica e jornal (vá, as últimas duas são a brincar), por exemplo.

 

Quando passamos para os vernizes, os nomes adquirem uma conotação a puxar mais o lado sensual da mulher. Vão desde o “Sexy Candy” ao “I’m Elegant”, do “Passion Fruit” ao “Irresistible” passando pelo “Sexy In The Rain” e pelo “Burning Passion”. Se houvesse o equivalente mas para os homens, chamar-se-iam “executivo”, “bombeiro”, “canalizador” ou “marinheiro”. Era uma espécie de Kidzania.

 

Isto tudo para pedir um pouco de compreensão ao sexo feminino quando mudam alguma coisa no seu visual e nós não reparamos. Não se trata de não repararmos em vocês. Apenas não conseguimos ter a precisão do vosso olho de falcão, capaz de detectar toda e qualquer diferença cromática. É uma fraqueza, é certo, mas a sofisticação não está ao alcance de todos.

 

Francisco Mendes

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No outro dia vi um post no Facebook a propósito da greve do metro em que o autor defendia que não era uma greve eficaz, pois já tinham feito outras tantas da mesma forma e nada tinha mudado. No fundo, ele estava a sugerir que lutassem pelos seus direitos, mas de forma diferente para tentarem obter resultados diferentes. É impressionante a quantidade de pessoas que caiu em cima do rapaz a dizer que ele devia respeitar mais os direitos conquistados com o 25 de Abril e, de certa forma, a sugerir que ele era contra a greve.

 

O facto de se ser a favor do direito à greve não implica que se concorde com todas as greves. Em primeiro lugar, porque se pode achar que os motivos que levam a que se faça greve não são justos. E depois porque pode ser uma forma ineficaz de luta. Eu concordo com o autor do texto no caso dos transportes. Eles estão a lutar para que as empresas não sejam privatizadas, mas se paralisarem tantas vezes (como tem acontecido) é menos dinheiro que entra, logo há maior probabilidade de serem privatizadas. É tudo uma questão de lógica.

 

Aquilo que eu não consigo entender é que as pessoas comecem logo a discutir com as veias do pescoço salientes assim que ouvem a palavra greve (ou a palavra praxe). Os trabalhadores têm direitos, mas não têm sempre razão. Isso faz de mim fascista?

 

Eu já disse várias vezes que odeio extremismos. Compreendo perfeitamente que as pessoas estejam revoltadas com a situação geral do nosso país e também que, por isso mesmo, às vezes digam coisas menos razoáveis e que não diriam se estivessem satisfeitas, mas não é a entrar em conflito com pessoas que sofrem tanto com o país que temos que vão conseguir mudar alguma coisa. Da mesma forma que a greve foi um direito conquistado durante o 25 de Abril, também a liberdade de expressão foi. Se se dizem tão respeitadores da revolução, façam o favor de respeitar as outras pessoas (podendo discordar, mas sempre respeitando os outros).

 

Se os sindicatos propusessem uma greve geral de um ano civil inteiro, aposto que estas pessoas iam festejar. Desculpem. Respeito muito o direito à greve, mas a greve, apesar de causar transtorno e ser essa a alavanca da acção, existe para tentar que as coisas melhorem, nem que seja a médio ou longo prazo. Sempre que servir para afundar ainda mais as coisas, reservo-me ao direito de discordar.

 

Às vezes dou por mim a imaginar um sindicalista fervoroso em casa com os filhos pequenos. Gosto de pensar nas crianças a seguir o exemplo:

 

“- Luisinho, vai fazer os trabalhos de casa!

- Não posso, pai. Hoje estou de greve. E nem venhas com coisas. É um direito conquistado com o 25 de Abril”.

 

Ou então pior:

 

“- Teresinha, já te disse que não te vou comprar mais doces!

- Está bem. Vou parar de respirar até mudares de opinião. O direito ao protesto é uma conquista do 25 de Abril”.

 

Gostava de dar um final à história, mas ainda não cheguei lá. Talvez um dia. Espero só que o pai ou mãe sindicalista não deixem que a Teresinha comece a ficar roxa e acabe por morrer. Ela é o futuro.

 

Francisco Mendes

 

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Palas Verde e Brancas

por cincodiasuteis, em 23.10.14

Para mim, é ponto assente que Bruno de Carvalho é populista e demagogo. Ele vem das claques do Sporting e fala para aqueles sportinguistas com palas verde e brancas nos olhos. É por isso que diz coisas como “devia tirar-se o vermelho da bandeira” ou “o Sporting é o único clube que representa Portugal. Depois há um clube regional e um clube de bairro”. É o que diria um sportinguista qualquer a um amigo benfiquista ou portista. A diferença é que a Bruno de Carvalho ninguém responde. Estrebucha sozinho.

 

Na senda do populismo e da demagogia, o Sporting apelou a que os adeptos fossem esperar a equipa a Alvalade depois da derrota com o Schalke, na Alemanha. Não se trata sequer de estarem a festejar uma derrota. Isso foi o que alguns sportinguistas disseram dos aplausos no estádio da Luz no jogo em que o Benfica perdeu com o Zenit e não é isso que acontece nestes momentos. Trata-se do ridículo que é fazer-se um pedido destes aos adeptos. É como estar a dizer-lhes que eles não dão o real valor à equipa e tem que ser a estrutura a fazê-lo. Por outro lado, o Sporting tem cada vez mais o tique do culto da personalidade. Este comportamento, uma vez mais, revela isso mesmo. A direcção do Sporting acha-se no direito de mandar nos próprios adeptos. Na terça-feira mandaram-nos aplaudir. Quando houver um desaire humilhante (toca a todos), vão mandar também na reacção?

 

Há uma necessidade qualquer de festejar qualquer coisa e, como os títulos estão escassos para os lados de Alvalade, apela-se a este tipo de movimentos que já aconteceram recentemente noutros clubes, mas de forma espontânea. É um bocado como alguém se convidar para a festa de aniversário de alguém. Mas tudo bem às claras. De megafone na mão.

 

Outra coisa curiosa é ver o que as redes sociais oficiais do Sporting disseram dos adeptos que esperavam a equipa. Quando vemos o vídeo, calculamos que estariam umas 30 pessoas no máximo. Eles dizem que estiveram uma centena de pessoas a receber a equipa. Não sei bem como é que falharam tanto os números. Provavelmente, o ábaco em Alvalade é um bocado estranho e enganam-se a contar. Faz lembrar um bocado da clássica disputa entre sindicatos e Governo em dia de greve. Ou nos palpites dos diferentes jornais em relação ao número de pessoas em manifestações.

 

Quanto ao jogo, é verdade que o Sporting foi prejudicado. O golo em fora-de-jogo é um lance mal ajuízado, mas que já aconteceu muitas vezes e não vai ser a última vez que acontece. O penálti marcado nos descontos contra o Sporting é completamente incompreensível. Tão incompreensível quanto o protesto do Sporting que pede a repetição do jogo ou o dinheiro do empate (o resultado que aconteceria, muito provavelmente, se o penalti não tivesse sido marcado). No fundo, é como um contrato que diz “queremos verdade desportiva” e depois em letras mais pequenas diz: “ou então calem-nos com dinheiro”.

 

Estou em crer que nada vai acontecer. O Sporting tem o jogo perdido e vai ficar a ver navios. Mas a jogada já foi feita e foi para aqueles com palas verde e brancas nos olhos.

 

Francisco Mendes

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A Gorda Anorética Com a Cara Em Obras

por cincodiasuteis, em 22.10.14

Há uma semana toda a gente andava a defender a Jessica Athayde por lhe terem chamado gorda. Esta semana, toda a gente está escandalizada com a Reneé Zellweger e com a aparência da cara dela depois das plásticas.

 

As pessoas acham que há uma diferença nos dois casos e por isso sentem-se livres para comentar. De facto, é difícil para a maioria das pessoas achar a Jessica Athayde gorda. Pelo contrário, toda a gente acha que as plásticas destruíram a cara da Reneé Zellweger, ou seja, as pessoas não defenderam o facto de a imagem não ser importante ao ponto de ser uma razão para insultar alguém. As pessoas defenderam uma ideia com a qual não concordavam: a de que a Jessica Athayde não era gorda. Se assim não fosse, passado uma semana não iam partilhar e comentar tanto a cara da Reneé Zellweger.

 

Faz-me sempre imensa confusão quando há algum escândalo à volta da imagem de alguém por duas razões:

 

  • A maioria das pessoas comenta a imagem das outras pessoas e toda a gente faz troça com as características físicas de outras pessoas. Se não é porque se é gordo, é porque se é magro. Se não é porque se usa óculos, é porque se é ruivo. Se não é porque se usa piercings, é porque se tem tatuagens. Condenar os outros depois é apenas um acto de hipocrisia;
  • Se a imagem não é um factor determinante, porque é que ficamos tão ofendidos com os comentários sobre a imagem? Porque é que partilhamos tantas vezes a fotografia da Jessica Athayde e filosofamos tanto sobre a ditadura da imagem em vez de desvalorizarmos?

 

É verdade que a imagem é importante e deve ser. Todos os seres humanos têm automaticamente impressões sobre outra pessoa através do que vêem. Contudo, isto não significa que seja ao nível do gordo/magro ou feio/bonito. Apenas quer dizer que obtemos informação (às vezes estamos errados) através da imagem. É diferente, até para a mais inocente das pessoas, aquilo que se sente ao ver uma pessoa sair de um Ferrari ou de um Fiat 200.

 

Quanto aos comentários mais agressivos, já se sabe que vai haver sempre uma Margarida Rebelo Pinto para sinalizar gordinhas e uma gorda para chamar anorética à Sara Sampaio.

 

Francisco Mendes

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Meritocracia

por cincodiasuteis, em 21.10.14

A busca de emprego é das coisas mais fascinantes que alguma vez já fiz na minha vida. Ainda estou à procura do meu primeiro emprego e, se soubesse, tinha começado logo quando o Google demorava tanto tempo a carregar que dava para irmos almoçar. Por um lado, talvez agora já tivesse arranjado alguma coisa. Por outro, há anúncios extremamente hilariantes.

 

Lembro-me de ver um anúncio muito engraçado em que pediam alguém de raça negra e que não tivesse os dentes da frente. Esta semana também já vi um em que pediam “ex-famosos”- aquelas pessoas que apareciam em revistas do social e entretanto desapareceram. O mais curioso é que nem sequer era nada relacionado.

 

Depois há uma imensa lista de profissões, normalmente com os nomes em inglês, em que é quase preciso tirar um curso superior só para saber o que é a profissão. Nomes que nunca tinha ouvido na vida. Há até casos de anúncios para a mesma empresa e cuja função é igual, mas designam o cargo de modos diferentes.

 

Aquilo que entristece verdadeiramente é ver a grande lista de trabalhos em que nada oferecem para além de bom ambiente de trabalho. Eu não sou contra estágios não-remunerados. Acho que podem ser úteis para mostrar trabalho. Sou contra o abuso dos estágios não-remunerados. Quer pelos estagiários, quer (e sobretudo) pelas empresas.

 

Esta é uma situação que só acontece porque a área do emprego carece de legislação apertada. Como é possível que haja empresas que todos os meses integrem estagiários e não paguem um cêntimo a nenhum nunca?

 

Outro exemplo muito claro para mim é o dos professores. Há, obviamente, excesso de professores no nosso país. Com tanto professor no desemprego, certamente que estarão alguns em actividade menos competentes. Para mim, é simples: as áreas com maior desemprego deviam ser filtradas pela competência. Se há gente a mais, que fiquem os melhores.

 

Eu gostava de viver num país onde a meritocracia imperasse. Quer na manutenção dos empregos, quer no acesso aos mesmos. A única razão que me faz não sentir revoltado quando não fico numa entrevista é não ser o melhor. Apenas porque é justo. Pode ser que um dia todos pensemos assim. Até lá, meritocracia é a minha palavra preferida.

 

Francisco Mendes

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B e K.
Revi-as no metro.
Abordaram um rapaz, pedindo licença para se sentarem perto dele. Reconheci logo aquela abordagem.

Ele deixou-as à vontade, claro; com um sorriso pouco sóbrio, pareceu-me surpreendido com tanta sorte, e a partir daí foi só sorrisos a avisar-me de que a sua imaginação seguiu sem rédeas. E como não? K tem uma daquelas caras que estão mesmo a pedir maus poemas, cheios de trigo, sol e mar; e B lembra-me uma actriz de um filme pornográfico que vi na adolescência, com uma testa ligeiramente alta, sinal de perversidade (talvez tenha lido isto num livro; não sei).

K é muito mais bonita que B, mas é B tem daqueles sorrisos que parece que ascendem aos lábios (de onde? Não sei, nem devo perguntar à minha imaginação, como talvez o rapaz do metro tenha feito).

Não sei porquê, mas K passava por hospedeira; tem uma expressão menos tensa, e a certa altura, também não sabemos porquê, ficamos à espera que ela que nos sirva um chá.

Reconheci logo a abordagem. Primeiro perguntam se se podem sentar ali, depois apresentam-se, e não demoram muito até que digam: segue-nos! Não sei quanto ao rapaz do metro, mas eu, jovem comprometido, fiel e crente, agarrei-me ao banco do comboio. Fiz-me da cor da roupa que não via. Temi a Deus.

Mas entretanto vim à tona para ouvir melhor.
Li nas camisolas Sister K e Sister B.
As nossas amigas são missionárias mórmon.

 António Trindade Vieira

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Não levem a mal, mas mais algumas notas

por cincodiasuteis, em 20.10.14
  1. Preocupo-me cada vez mais com uma espécie de verdade que deve emergir dos textos.
    Lido bem com a Margarida Rebelo Pinto, ainda que não seja seu leitor, pois não duvido de que ela faça as coisas de acordo com a sua verdade, com uma necessidade genuína de escrever.

    E falar desta verdade não é vir com mais relativismo, é uma tentativa de nos aproximarmos daquilo que vem realmente do coração literário dos outros.

    CAMPEONATO NACIONAL DE ESCRITA CRIATIVA: ÚLTIMA CHAMADA Sim: Chegou a hora de escreVIVER.

    Quando nos deparamos com coisas como esta percebemos porque é que ainda faz sentido falar dessa verdade, ou, pelo menos, falar de uma verdade mínima. Há tanta tralha em torno daquilo que algumas pessoa andam a escrever... Esta verdade tem que ver com a pergunta: afinal escrevo porquê? Prefiro não ouvir certas respostas. 

    Talvez precisemos de voltar aos diários antes de escrever alguma coisa para os outros. 

  2. Sinto-me escritor, mas posso sentir-me escritor sem o ser. 

    Sim, há Lobos Antunes e há delírios.

  3. Sinto-me deste tempo, do século XXI, quando me preocupo com o meu início de calvície ao mesmo tempo que me preocupo com o excesso de pêlos que tenho no resto do corpo. 

 António Trindade Vieira

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Olha o preconceitozinho!

por cincodiasuteis, em 20.10.14

Ando desde há uns tempos para falar de preconceito. Tinha já o texto mais ou menos idealizado na minha cabeça até que, ontem, aconteceu uma situação que veio mesmo a propósito e exemplifica tudo aquilo que eu queria dizer.

 

Vinha do Alentejo e era hora de jantar, então decidi parar em Vendas Novas para comer bifanas (já lá vi o Mário Nogueira com o bigode cheio de mostarda, mas isso fica para outra ocasião). O café estava com imensa gente. Ao ponto de haver mais de 10 pessoas de pé à espera de que houvesse mesa para se poderem sentar. É um espaço grande. Deve ter capacidade para umas 60 ou 70 pessoas. Eu estava na esplanada e cá fora, entre outras pessoas, estava uma família de etnia cigana.  Aparentemente, estavam fartos de esperar e reclamaram com um dos empregados. Para além disso, não sabiam a diferença entre um prego e uma bifana e a mulher começou a discutir com o empregado aos berros. Nisto, mete-se o marido (suponho eu) e começa a dizer que é capaz de bater no rapaz que o está a atender e que faz e acontece. Passado um bocado, passa por eles outro empregado mais encorpado (com cabedal, como se costuma dizer) e o homem continuou aos berros até que o empregado lhe perguntou porque lhe estava a levantar a voz se, até ali, não tinha falado com ele e baixou automaticamente o tom. Quando o primeiro empregado voltou à esplanada, retomaram a gritaria e, lá dentro, havia mais ciganos que continuaram pelo menos caminho. Parecia que naquele café estavam a matar os porcos que metiam nas bifanas. Até que há um momento em que a mulher cá de fora diz “isto é racismo!” (sim, esta explicação toda foi para chegar aqui).

 

Há uma determinada tendência para que algumas pessoas de minorias achem que quando algo não lhes corre bem na vida é preconceito. Acredito piamente que passem por situações dessas, mas, se levarem com um raio em cima, é racismo do S. Pedro? Eu já fui mal atendido em alguns sítios. Decerto que não era preconceito contra os alentejanos, os magrinhos ou os caixas de óculos. Achar que se pode estar aos berros no meio de um café a ameaçar as pessoas e a incomodar toda a gente que está à volta e que também paga para estar ali só porque se é de uma minoria é ser-se preconceituoso consigo próprio e não perceber que são muito mais do que o preconceito e, portanto, não se devem respaldar nisso na forma como levam a vida.

 

Uma situação idêntica e a que já assisti com frequência é ver homossexuais fazerem piadas sobre a homossexualidade descontraidamente até que alguém heterossexual faz o mesmo e essa pessoa fica ofendida. Naturalmente que há a linha do respeito. Refiro-me a piadas sobre homossexualidade e não sobre homossexuais. Porque é que pertencer ou não à minoria afecta o nosso julgamento em relação ao preconceito? O conteúdo não é o mesmo? Nestes casos, porque é que importa mais o emissor do que o conteúdo?

 

Aposto que há pessoas que vão ler este texto e vão achar que é preconceituoso em relação aos ciganos e aos homossexuais (agora imaginem os homossexuais ciganos. Ficam na lama). Em lado nenhum eu disse que se comportam todos como nos exemplos que eu dei. A mensagem do texto é outra. Para quem vir preconceito nas minhas palavras só tenho a dizer: “olha o preconceitozinho!”.

 

Francisco Mendes

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