Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A Melga

por cincodiasuteis, em 07.08.14

Agora é só um ponto vermelho ao lado da minha cama. Um ponto sozinho, feio, frio e sem graça nenhuma, que nem em vida era apetecível ou gracioso. Pelo muito barulho que fazia não a queria perto, não a queria em cima de mim. Mas é inevitável, num dia de verão, não ouvir um zumbido que quando ataca deixa sequelas. Hoje, mesmo picado, acordei com um sorriso de vitória: “devo tê-la morto sem saber como fiz.“

 

A melga, nós ainda não percebemos, mas é o nosso verdadeiro inimigo, a grande besta. Vem sem avisar e voa baixo e de mansinho para não alertar o nosso radar. É pequena e matreira, o que lhe dá facilidade nas investidas silenciosas, e pior do que tudo: deixa uma comichão exagerada, daquelas que nos faz perder o controlo sobre nós mesmos – coça, coça, coça até sangrar. Não mete medo, não enoja, mas pelo nome percebemos logo que só serve para ser uma sarna e estragar uma noite de bom sono. Podemos até empestar a casa de Dum Dum e besuntarmos o corpo de repelente que elas aparecem na mesma, não dão sossego. Às vezes estou em crer que existe um exército infindável delas atrás dos meus moveis, mas isso deve ser superstição, porque pragas destas são incomodativas e eternas, ao contrário de uma chuva de sapos. É um bicho sem razão de ser, que se enche de sangue noite fora e quanto mais adormecidos estamos mais gorda ela fica - para além de chato é um bicho cobarde. Acabemos pois com este bicho insuportável em cinco passos: 

 

  1. Abram as janelas. 
  2. Baixem os estores. 
  3. Perfumem a casa com Dum Dum q.b.
  4. Reduzam a iluminação ao mínimo.
  5. Rezem para que resulte.

 

Se a vítima for corajosa o suficiente nem precisa desta receita, basta esborrachá-la contra a parede com a força de um polegar - como eu fiz esta noite. Hoje dorme, junto a mim, esse troféu ou cadáver de insecto para que se recorde - sempre que por ali passar uma melga - que quem se mete com os seres humanos está tramado - não é verdade, Anne Frank?

 

 

Pedro Ramalhete 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt