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A Sociedade Actimel

por cincodiasuteis, em 05.09.14

As redes sociais são muito efervescentes com algumas notícias que saem na imprensa. A notícia de que os brasões coloniais da praça do Império em Lisboa iriam ser eliminados foi como uma aspirina que acaba de cair num copo de água.

 

Depois do acidente da Sónia Brazão, já era de esperar que houvesse mais brasões a ir ao ar no nosso país. Ainda assim, esta é uma daquelas coisas com a qual eu não posso concordar. Do ponto de vista económico, a manutenção dos brasões implica uma quantia quase irrisória tendo em conta o que é uma Câmara como a de Lisboa. Prova disso é o facto de ter resistido às sucessivas crises do pós-25 de Abril e ninguém se lembrou de os eliminar.

 

Apesar disto, aquilo que mais me incomoda é a mentalidade de alguns portugueses que querem eliminar os brasões porque foram feitos no Estado Novo e remetem para as políticas coloniais com as quais a maioria agora não concorda. É a mesma mentalidade que mudou para Ponte 25 de Abril a outrora chamada Ponte Salazar. O que está por trás destes raciocínios é a vergonha do passado que efectivamente existiu. Eu não tenho orgulho no Estado Novo, pelo contrário. Defendo é que as coisas más devem ser recordadas para que não se voltem a repetir.

 

A ideia de que os monumentos têm que ser bonitos ou uma homenagem aos heróis e não há espaço para mais nada parece-me errada. Aprende-se História para que se saiba como chegámos até aqui e para que não se repitam os erros do passado. Daqui a umas gerações já ninguém vai ter contacto com pessoas que viveram o Estado Novo e as colónias. Uma das formas de perceberem o quão errado foram é através do Património.

 

É claro que, à primeira vista, toda a gente apoia que os brasões desapareçam. Engraçado é ver depois as pessoas viajar até aos campos de concentração de Auschwitz ou até à casa de Anne Frank, por exemplo. Há muitos anos os romanos escravizaram povos e formavam gladiadores e muitos dos Coliseus romanos continuam de pé. Já alguém parou para pensar porque é que essas coisas existem?

 

Este é um daqueles comportamentos que revelam uma das coisas que mais me incomoda na sociedade actual. As pessoas são cada vez mais melindrosas. Já não se melindram só com as coisas que acontecem. Melindram-se só com pensamentos. Ao ponto de preferirem negar que algumas coisas aconteceram. Vivemos numa sociedade fechada sobre si mesma; vivemos numa sociedade que vive dentro de uma bolha; vivemos na sociedade Actimel.

 

Francisco Mendes

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