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“Amu-te Há Farta”

por cincodiasuteis, em 11.09.14

Desde sempre o Homem teve tendência para fazer declarações públicas de amor. Acharão alguns que têm mais valor do que se forem feitas em privado. Ao longo dos tempos, foram diversos os métodos utilizados: pinturas, poemas, canções ou o simples ramo de flores antecedido de o ajoelhar em público. Os tempos mudam, mas não mudam as vontades. As manifestações é que se alteram.

 

Depois de Vendas Novas, a caminho de Montemor-o-Novo, há umas quantas placas e sinais na estrada com a frase “amu-te há farta” pintada. Eu tentei tirar uma fotografia que o comprovasse, mas os meus dotes de fotógrafo não são os melhores e o carro em movimento também não ajudou. Assim sendo, terão que o comprovar com os vossos próprios olhos ou contentar-se com a minha palavra.

 

Esta é uma declaração de que eu gosto particularmente. Não sou um daqueles românticos incuráveis, mas acredito que o amor pode ultrapassar qualquer barreira. É o caso. Doze letras é quantidade suficiente para ultrapassar três barreiras:

 

- A barreira da lei. Pintar placas e sinais da estrada é proibido até para aqueles que possuem um coração que assobia melodiosamente ao compasso do amor;

 

- A barreira do bom gosto. Ninguém consegue imaginar outra pessoa dizer que ama alguém “à farta” ao som de uma harpa ou de um piano. Quando muito, é possível imaginar uma voz tolhida por torresmos de rissol que enchem a boca do amante na mesma proporção com que ama a outra pessoa e o vinho tinto;

 

- A barreira do (bom) português. É verdade que escrever sobre sentimentos é uma tarefa hercúlea. É comum ouvir-se que não há palavras que descrevam aquilo que as pessoas sentem. No entanto, isso não é pretexto para inventar palavras novas. Que o facto de estar comprometido apenas com uma pessoa não faça ninguém divorciar-se da língua portuguesa.

 

Portugal é um país de poetas. Talvez, por isso, a natalidade esteja em baixo. Quando se ama em Portugal, corre-se a escrever um poema. Reconheçamos, no entanto, que a poesia não é um estilo fácil. Não sei se é amor, mas gosto muito da língua portuguesa. Permitam-me que teste aqui o meu talento. Com a devida autorização de Camões, aqui vai:

 

Dar erros é um fogo que arde e que se vê;

É ferida que dói e se sente;

É merecer um chuto no órgão pendente;

É não pôr um “m” antes do “p” ou do “b”.

 

É um não querer mais do que mal escrever;

É um andar sozinho entre a gente;

É um não perceber mesmo que se tente;

É um deixar a gramática adoecer.

 

É razão para acabar amizades;

É o drama, a tragédia, o horror;

É abrir a boca e vociferar um “hádes”.

 

Mas como alguém falar saberá,

Se depois de tantos anos de escola,

Não sabe quando uma palavra começa com “h”?

 

Francisco Mendes

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