Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


António José Seguro

por cincodiasuteis, em 11.08.14

Quando o Carlos era solteiro a sua expectativa matrimonial desenhava-se assim: o noticiário televisivo preencheria o tempo de espera até ao jantar, depois de um banho lento, que, combinado com o cansaço do dia de trabalho, entorpeceria muito bem o corpo, logo vestido com uma roupa cómoda, sim, mas não menos signo do que o fato e a gravata despidos pouco antes – seria aquele fato-de-treino da adolescência a tornar o seu conforto mais evidente para uma visita que entretanto chegasse.
Assim seria o casamento, mais os gozos de uma paixão acessível.
E era mesmo nesses momentos, quando a mulher andava de um lado para o outro a fazer sobressair o seu ócio (estava convencido de que o seu amor se alimentava desses pequenos contrastes), era aí que se sentia melhor casado. Depois do banho, em frente à televisão, enchia-se de uma estranha exaltação doméstica, tão forte que nenhuma notícia, fosse ela qual fosse, perturbava esse sentimento – ouvia-as, sequer? Provavelmente não, mas que ninguém duvide da importância das notícias nesse quadro doméstico em que Carlos se sentia aconchegado; as notícias não precisavam de ser ouvidas, de ter a atenção dele, para desempenhar uma função ali.            

Naquele dia viu um pouco além dessa redoma de conforto: uma notícia fê-lo mesmo pensar durante uns minutos! Tratava-se da campanha eleitoral de um candidato a líder do país, com uma grande incapacidade política, talvez a maior incapacidade política: despertava indiferença como ninguém. Para o Carlos era evidente que há pessoas às quais falta energia, mesmo tendo aparentes boas intenções (ou, mais importante, nenhuma má intenção aparente), e há outras, com mais energia, nas quais nos custa depositar confiança, talvez porque nos pareça difícil que essa energia se transforme toda em boas obras, afinal trata-se de uma energia humana.
Ainda não sabia em quem votar, mas tendia para o candidato que lhe despertava indiferença; essa tendência podia justificar-se (como todo o raciocínio anterior) pelos recentes escândalos de corrupção, pela crescente consciência de que a crise económica também se devia a essa corrupção.

– Começa a ser difícil confiar em quem é fácil votar, o que até pode ser bom. 

Pensou na mulher que nunca dá uma oportunidade ao homem bem-intencionado que a persegue, porque a este falta-lhe uma certa energia.

– A nossa tendência de voto não é assim tão diferente da escolha de um parceiro sexual – esta ideia entusiasmou-o ao ponto de pressionar, sem querer, o comando da televisão, mudando de canal, sem se aperceber.

A esse político que despertava indiferença talvez não faltasse energia no sentido de diligência, mas apenas imagem, um certo apelo, o que não era pouco em política, ele bem sabia, mas as coisas mudam sempre, novas imagens se criam, e seria assim tão impossível convencer as pessoas de que aquela fraca imagem era afinal a nova imagem de confiança? Bastava ter os media do lado do político que despertava indiferença – e de novo, sem se aperceber, mudou de canal.     
Mas se, passado um tempo, também o político que despertava indiferença se revelasse um corrupto? Os problemas sairiam duplicados - ou não? Doía-lhe a cabeça, sentia-se cansado, e, naquele momento, até se esquecia de que vestia o fato-de-treino de adolescência – uma vez por outra a exaltação doméstica também podia vir daí, de ser um marido com um espaço e um tempo (domésticos) para ter uma opinião, mas não podia exagerar.  
            
– Querida, queres ajuda para jantar? O que vais fazer?                              


A mulher, na cozinha, de costas para a sala, de costas para a televisão, não respondeu. Ela pensava naquele homem mais enérgico do seu passado, com quem as suas expectativas matrimoniais se desenhavam de forma bem diferente desta realidade que agora vivia. 

 

António Trindade Vieira

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt