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Às vezes danço a Obra-Prima

por cincodiasuteis, em 31.07.14

Não é do perfeccionista a perfeição. Ele não sabe nada como todos nós, que falamos e gesticulamos com a vida encostada à sonolência. O perfeccionista apaga o dobro das frases que escreveu, sublinha as melhores frases dos outros e quando tem um texto que pensa acabado lê-o até à exaustão – nunca atinge a perfeição. O perfeccionista não evita os tropeções no moralismo e quando tenta a esquiva foge para a abstracção, o momento mais digno para a perdição. Agora é só um amontoado de divagações e problemas sem fim; e assim não chega lá, ao sublime,  onde para estar tem de dissecar o nevoeiro, a matéria que faz o génio. Um perfeccionista não é a luz de um farol, não invade o que não se vê; é só um homem banal que confunde um moleskine novinho em folha com a Biblioteca do Borges. Na cabeça do perfeccionista não falta medo de errar nem sede de triunfar, e entre a mortalidade do seu saber e a perfeição que quer alcançar, esconde a admiração assustadora pelas letras d’ Os Pontos Negros.

 

“Levantou-se o nevoeiro

E todos ainda discutem

Quem deixou de ver primeiro.”

 

O perfeccionista fica à deriva na palavra domínio, que lhe parece extraterrestre e fora do seu alcance; tem tanto receio de se afirmar que acaba por fazer poesia de alto mar. 

 

- Todos os sítios onde estou não são meus. Sou um estrangeiro à procura de um longo caminho onde ficar, sou um génio por domar, um nevoeiro que fica por dissipar.

 

 

O perfeccionista desloca-se, sem saber, na sua perfeição e só lhe falta entender que para ter o génio na mão terá de ser o nevoeiro que mais ninguém consegue domar: - É que eu às vezes danço a obra-prima.

 

Pedro Ramalhete

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