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Bill Murray

por cincodiasuteis, em 01.08.14

Um taxista português é o pela melancolia e pela capacidade de sugar toda a atenção de quem o rodeia. Uns absorvem toda a tua fala, outros toda a tua alegria e por absorverem tantas vidas são uma vida só, cheia de histórias.

          

O táxi das três e meia vinha vazio, com a luzinha apagada e uma sombra a conduzi-lo. Abrimos a porta do cubículo amarelo e da frente virou-se uma cara de bigode grisalho, olhos fartos desta vida e de careca generosa a percorrer apenas o centro da cabeça. Olhou mirone do seu próprio território, farejou a companhia com o seu sorriso convidativo e deixou que nos acomodássemos. Pedimos, sem urgência, que nos levasse à pousada, mas pedir a um taxista pouca urgência é não lhe dar razões para viver. Bailou as ruas sem abrandar, não pestanejou, não saiu do trilho; nós no banco, lá atrás, vimos-lhe a atenção presa à estrada e uma boca dividida em hemisférios: de um lado sorria, do outro chorava. Não disse nem uma palavra.

 

Verde, amarelo, vermelho. Pousou-se ali, absorto e descomprometido, para que os outros lhe pudessem atravessar à frente. Aproveitámos nós a deixa, lá atrás, para descobrirmos as razões daquele sorriso do tamanho da melancolia. Primeiro pensei no que lhe havia de perguntar, depois surgiu-me uma ideia que se me varreu da cabeça com o retomar da condução.  Não deixei que a coragem se descolasse de mim e num ímpeto de curiosidade perguntei-lhe porquê tanta comédia naqueles olhos de drama! Aterrou em mim os olhos como quem crava unhas na pele, mas para o taxista a boca foi mordaça dos olhos; deixou o sorriso falar num remate seco:   

 

“Ofereceram-me um papagaio.”

 

Fiquei aturdido, parco em palavras e sem pio. Mas porquê?, perguntei-lhe no fundo da minha surpresa. Porque é que isso o deixa assim, entre o rir e o chorar?, fui repetindo exclamações até ele me calar com uma lágrima afiada:   

 

“Porque agora tenho quem me leia poesia.”

 

O táxi seguiu até à pousada transvestido de moral.

                                    

Pedro Ramalhete

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