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Breves (e simples) notas sobre a praia

por cincodiasuteis, em 04.08.14
  1. As crianças gostam de correr atrás das gaivotas quando estas acabam de chegar e os pais começam a dizer que se aproxima a hora de ir para casa. 

    (Eu sei que as crianças só não correm atrás das gaivotas mais cedo porque antes das sete não há gaivotas a sobrevoar a praia; isto é só uma imagem, não é uma ideia engraçada - hoje, para muitos, ler uma crónica é, entre outras noções erradas, procurar a ideia engraçada.)

  2. Avaliamos a imagem dos outros; avaliamo-nos a partir daí, inevitavelmente - e as distorções abundam, claro. Isso também acontece nos transportes públicos, no trabalho, numa qualquer fila de espera, quando vemos televisão (ainda que essa experiência seja um pouco diferente: há a dúvida sobre a verdade daquelas pessoas) e em tantas outras situações... Duvido, ainda assim, que nesses espaços se tirem medidas tão intensivamente como na praia. A praia, por muito que se inventem actividades, é o espaço de ócio por excelência, sobrelotado – esta praia é assim –, onde as pessoas estão seminuas; os olhos não param e, claro, tiranizam (vendo bem, tiranizam-nos sempre; isto é, vendo mal, tiranizam-nos sempre). 

    Ele sente-se bem por ver alguém imediatamente mais gordo; alguém muito mais gordo (alguém doente) já não empolga – a diferença é tão grande que a comparação perde força. Um pensamento terrível. A praia, na minha experiência, atiça a culpa e a vergonha.

    À noite, nas ruas, fazem-se caricaturas em cinco minutos.

  3. É um mercado do corpo, claro. Outros espaços também o são, e a praia até será menos do que uma discoteca, por exemplo, porque na praia estamos mais nus. Mas na praia, ao contrário do que acontece na discoteca, há crianças a brincar e velhotas entusiasmadas com o que há de terapêutico naquela água fria e salgada. 
    A praia é um lugar estranho, já se sabe. 

  4. Sacudir os pés à saída da praia não deve ser muito diferente de dar festinhas ao asfalto. 

  5. Algumas notas mais pessoais (logo ainda mais simples; não garanto que sejam mais breves): 

    a. Quando entro na água, este ano mais fria, não tenho conseguido fazê-lo sem elevar os braços - daquele modo que antecede um salto olímpico para a água - encolher a barriga e inspirar pela boca de uma forma tão vigorosa que chega a produzir, sem eu saber bem como, um som meio hitchcockiano. Olho em redor, preocupado com os olhos postos em mim. Esses gestos, que agora me mostram ridículo, deveriam mostrar-me feminino em primeiro lugar; depois, quando acrescentasse que antes corro até á água do jeito mais viril que consigo, aí, sim, o leitor imaginar-me-ia ridículo (como se fosse preciso isto tudo).
    Tanto faz, deve estar a pensar, e muito bem. 

    b. Este ano tem sido um mergulho por cada conto da Alice Munro, o que não dá muitos mergulhos. O que importa é a qualidade. E, quando corro daquele jeito viril até a água, grito as palavras de Jonathan Franzen: “Leiam Munro! Leiam Munro!” Na minha cabeça é assim, pelo menos. 

    c. Quase a apontar o dedo, ele vira-se na minha direcção, como uma minhoca petulante: uns óculos de padrão tigresa, uma pulseira de elásticos entrelaçados, uma playlist de Verão onde há desde “Peacebone” dos Animal Collective até “Anita” do Marco Paulo. 
    Também eu monto um cenário; e sobre isso ainda não sei bem, não tenho pensado senão devagar.

 

Eu gosto de praia. Peço desculpa.

António Trindade Vieira

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