Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Caixa Alfama

por cincodiasuteis, em 29.09.14
  1. O Festival Caixa Alfama aconteceu no fim-de-semana passado, dia 19 e 20 de Setembro. 

    Ha os concertos, sim, mas há um pouco mais: este Festival é um meio de conhecer a cidade pela atmosfera. Algumas coisas ficam de fora, mas há suficiente Lisboa no ar para que se fique com uma ideia. 

  2. Numa rua, a cima das nossas cabeças, conversas entre janelas:

    - Esta gente vai aonde?
    - Acho que é para ver aquela Gisela. Está ali no Magalhães Lima.

    E valeu a pena (Maria da Fé, exactamente) ouvir a Gisela João. A par de todas as euforias há quem desconfie, e muito, de Gisela João; para esses, proponho que façam o seguinte teste: enquanto ela canta fechem os olhos e tentem responder à pergunta: neste momento lembro-me mais do que vai acontecendo no meu peito ou daquilo que sobre ela se diz na imprensa? Não vale tapar os ouvidos, claro. 

  3. Ricardo Ribeiro, o meu fadista preferido da nova geração, surpreendeu o público com imitações mais do que competentes de alguns fadistas: Tony de Matos, João Braga, Rodrigo, até António Zambujo, que se lhe seguia no palco... Foi engraçado, muito divertido, sim, mas para mim foi mais do isso, para mim aquele momento de imitações foi mais uma prova de amor ao fado dada por Ricardo Ribeiro, e provas de amor com bom humor emocionam-me quase sempre; assim, quando toda a gente se ria, eu também me ria ao mesmo tempo que me esforçava para não me comover.

  4. Só comecei a gostar dos fadistas de que mais gosto depois de algum tempo, depois de um período de resistência em que chegava mesmo a dizer que eles me irritavam. Depois, por algum motivo, a música certa no momento certo, uma actuação ao vivo, acabou por acontecer fado no meu ouvido - por vezes o nosso ouvido é incapaz; como num bom livro, lembrando-me daquilo que Lobo Antunes diz, temos de entrar com a chave do fado e não com a nossa. Aconteceu com Ricardo Ribeiro, por exemplo, e voltou a acontecer agora com Carminho.

    O que foi aquilo? A certa altura já nem nos lembrávamos da tal atmosfera de Lisboa; era tudo a voz de Carminho, imensa, ressonante, superior...
    (Algumas pessoas dizem "eu nem sou de me comover assim, não sou de chorar"; eu, que sou de me comover, digo que nem sou de adjectivos, mas...)

    Olhem para o pescoço dela enquanto canta: sob a pele de Carminho correm os seus glóbulos feitos minúsculos portugueses inquietos.  

    Há um ano achava que Carminho era só uma beta que cantava bem o fado. Hoje digo a mim próprio: da próxima vez que pensares assim experimenta abrir a boca e deitar cá para fora aquela quantidade de alma. Mete-te no lugar, Toni.   

    Esperemos pelo seu próximo disco, quase, quase a sair, sabendo que Carminho é a voz feminina mais forte do fado. 

    Gosto de escrever o nome completo dos grandes.
    Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade. 
    Carminho é grande.

António Trindade Vieira

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt