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Ciúme

por cincodiasuteis, em 14.08.14

Imagino-te com outro num café.

Tu e ele, muito nervosos, a medirem-se, a fingirem um charme, a construírem um trincheira contra o desencanto.

Qualquer palavra, um dedo encostado aos lábios.
Qualquer palavra, um puxão para baixo naquela camisola macia de que tanto gosto.

Até a última migalha húmida desfazer-se, as boquinhas sempre fechadas, com uma mão à frente - a tensão dos dedos disfarçada por uma pose de meio mortos. O pensamento nestes gestos calculados e os olhos numa atenção sem ouvidos. Antes disto, até, os pedidos; atenção à gula e à grosseria! Só bolos a combinar com o casaco e a saia.

Nada pode falhar: as melhores piadas, os melhores comentários, as melhores referências...

No fim, já visivelmente cansados, dirigem-se ao carro dele. Sentas-te com uma coluna de co-piloto e uma cara que desencorajaria qualquer piloto.

Ele liga o rádio.
Na rádio, eu - a ler esta história.

Tu sais do carro à pressa, vens ter comigo e cais nos meus braços. Sinto-me aliviado porque a tua boca só sabe a trança.

 

António Trindade Vieira

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