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Do latim genius

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Para já, nesta primeira crónica, uma pequena1 ficção: 


Camões inventou uma etimologia para a palavra génio, só porque lhe dava jeito para um poema. Os sábios que o leram, percebendo que a origem da palavra fora sabotada, chamaram muitos nomes ao poeta, todos eles acompanhados pela devida etimologia – “seu parvo, que vem do latim parvulu, isto é, insignificante!". E que classe! Nem a impetuosidade do discurso feriu cada origem etimológica! É curioso verificar, contudo, que nenhum deles lhe chamou “génio”, e não porque não soubessem que vem do latim genius.
O resto da história já se sabe: é a História a favorecer os intrujões.

Esta ficção é pequena por ter poucas linhas. Também há ficções que são pequenas por serem más - “não é lá grande ficção” - ou por serem mais factuais do que outras. Nos meus textos podem esperar estas três manifestações de pequenez; aliás, se toda a minha vida tem sido rica em pequenez, porque não partilhar isso com os outros? (Uma resposta possível: prometi não abusar do meu humor auto-depreciativo; cheguei à triste conclusão de que se trata de um mau humor auto-depreciativo.)
 
Pensando melhor (pensando melhor é dispensável escrever "pensando melhor" se aquilo que estou a fazer é escrever; na minha experiência escrever é pensar melhor), não me agrada a ideia de uma gota de ficção que torne o líquido factual que temos no recipiente-texto logo todo outra coisa, logo todo ficção, como se “ficção” pudesse ser definida como “o que não é 100% realidade”, “o que não é 100% líquido A” - devido ao seu grande potencial para contaminar, bastaria uma gota de B num copo de A para que aquele líquido deixasse de ser A e passasse a ser B; e, atenção, também vice-versa.a 

Quero antes ter a arte de descobrir, e de vos fazer descobrir, um terceiro líquido que se forma dessa mistura, um líquido C; e, no caminho, talvez até chegue à conclusão de que é o único ao meu alcance. 

Ainda não sei bem como vou escrever neste espaço. 

              
Apesar de não ser lá grande coisa, o que define a pequenez desta ficção é mesmo o número de palavras, e a prova disso é a necessidade desta longa nota de rodapé, que vos mostra uma cabeça pouca certa do que é uma crónica – e o desafio aqui é escrever crónicas.                

      a Como aconteceu com outras escritas, também comecei a perceber melhor a escrita jornalística com a ajuda destes líquidos e recipientes. Penso muitas vezes assim, como se estivesse numa lição de ciências de um programa infantil - não passa de um mero exercício mental, como é evidente.

(Lembrei-me agora de uma técnica de jornalismo televisivo, que me foi ensinada pela senhora professora premiada, a técnica do pirex com água, onde as fotos flutuam bem, elegantes e chocantes, bonitas e perturbantes, principalmente se se tratarem das fotos do filho falecido da pessoa A, que, por estar na televisão, tem pelo menos uma gota de B, ou seja, talvez até 
já se tenha tornado na pessoa C - e isso não nos leva a perguntar de que forma C sofre com a morte do filho de A, mas deveria levar, pois seria uma pergunta interessante.) 

Tente agora ensinar estes meus aparentes delírios ao seu filho e vai ver que ele ganhará logo o gosto pela escrita (ou então, mais provável, revelará alguma sensatez e afogará alguns dos seus melhores livros num balde com água - não vão eles abrir-lhe os olhos!) 

António Trindade Vieira

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