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Estrela, 8 de Janeiro de 1996

por cincodiasuteis, em 15.08.14

A água ferve à hora do nosso chá.

A rolha de plástico do saco de água quente lembra-me a chupeta do nosso bebé, ainda que maior e mais tosca, ideal para a boca dele agora, boca de onde ouvi que dispensava o luto por ti, nem ao menos um castanho ou um verdinho escuro. 

A rolha é de um plástico que apetece morder como o tapete da banheira; só a coloco no saco de água quente depois de entrar no quarto - antes fico no corredor a olhar para a tua fotografia até o vidro da moldura ficar todo embaciado.

 

Debaixo da malha sinto o relevo das flores na borracha, flores parecidas com as que ontem te deixei, com pena minha também de plástico, mas, como tu bem sabes, sofro muito das pernas para andar constantemente a caminho do cemitério.

Este casaquinho que fiz ao saco de água quente lembra-me aquele da nossa bebé, mas sem mangas e em castanho e verdinho escuro, ideal para o tronco dela agora, que está todo escanelado, em vez daquele vermelho desrespeitoso para com a tua memória.

Mesmo que o saco de água quente tenha agora um casaquinho mais novo que o teu pijama roto e de infante, preferia quando os meus pés frios se aqueciam com o frio dos teus.

Amanhã conto-te outro ritual de viuvez: o tapete cheio de boquinhas de plástico alinhadas, prontas a gritar de saudade, caladas pela porcelana escorregadia, esse tapete sempre na banheira desde o dia em que te desgraçaste todo, meu teimoso.


Este é um diário de viuvez aconselhado pelo Senhor Doutor. Foi escrito no bloco da coruja que tu trouxeste lá da fábrica. Nem sei quem escreveu; a certa altura a caneta por sua conta.


Alice

 

António Trindade Vieira

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