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Ficções

por cincodiasuteis, em 28.07.14

Li num sítio qualquer que correr mata mais do que ser sedentário; são estudos que se fazem e não servem para nada. O que mata realmente é não fazer e por isso corro. Correr é um templo do pensamento onde trespassas a vida das pessoas com a tua imaginação – escutas, observas, absorves. Quando corro torno-me meticuloso: escolho os melhores alvos para a minha imaginação e quando os alcanço retenho-me nas palavras que dizem. Então debruço o pensamento sobre um casal jovem que jura e promete amor, numa ponte: “Mas eu de ti gosto por amor.” O meu corpo segue apressado com essas palavras na cabeça. O resto corre com a imaginação:

 

Aqueles putos são um mundo a passar.

 

Estão ali no embalo do primeiro beijo a encontrarem um sítio para acontecer. Abraçam-se apoiados na margem do alcatrão de carros a passar, que lhes dá a banda sonora. Sabem tudo sobre a poesia, a natureza e a sociedade, sabem o que é o bem e o mal, e as palavras - parece-me – são deles e só deles. Sabem tudo e por isso são uma espécie em vias de extinção: sabem tudo até morrerem de não saber nada. Mas isso não é pensamento deles; por enquanto dão beijinhos e soletram palavras pegajosas que se desfazem em longos:"ohhhh, tão romântico." Dizem tudo de peito cheio; um para o outro são assim

 

- Se te amo?

 

- Sim, se me amas...

 

- Porque é que perguntas isso?

 

- Porque gostas de mim por amor, mas gostas de outras.

 

- Sim, mas por amizade. Qual é o stress?

 

- O stress é que gostas de outras e não devias.

 

- Nem por amizade posso gostar?

 

- Não, nem por amizade nem por ódio.

 

- Então só posso ter sentimentos por ti?

 

- Sim.

 

- Está bem.

 

Prendem os sentimentos com correntes apalavradas, mas o que é que eles sabem? Sabem que nesta ponte há um berço de pequenas certezas, sabem que para sempre é mais bonito do que dia sim, dia não. Não sentem o peso das palavras e isso torna-os queridos, adoráveis. Ficam adoráveis naquela ponte onde um carro passa, um homem corre e um miúdo pequeno anda de bicicleta com rodinhas; e eles no "amo-te, amo-te, amo-te". Aquele casal de putos pára aos beijos, pára nas palavras, pára na paixão, sem saberem que são anteriores ao amor. Param queridos naquilo que amanhã é um beijo, depois de amanhã um soluço e no ano seguinte uma recordação. O mundo passa por eles a cada beijo, a cada jura, "a cada trago teu" e eles tornam-se queridos a proteger o seu amor. Mas depois disso tudo vem a parte chata: a parte que a paixão não acompanha, aquela parte que o homem que corre já não apanha.  

 

Pedro Ramalhete

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