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Homem do Lixo

por cincodiasuteis, em 24.07.14

Não se parece importar. Olham-no de baixo a cima, dizem-lhe coisas irreproduzíveis, enxotam-no como um animal. A vida que lhe negaram fê-lo ter o nome que tem, mas agora não é menos feliz por isso. Não traz amigos, nem vem de camião verde e é, nos dias que correm, o mais legítimo homem do lixo.

 

O coro das velhotas, ao vê-lo passar, diz que foi a crise que o tirou do caminho.

 

As mães preocupadas culpam as drogas.

 

Na verdade, o Homem do Lixo é assim por idolatrar pequenas transcendências; enfeita-se com os nossos desperdícios e enamora a surpresa que lhe é um saco de plástico cheio. Porém, não se pense que come o que lá deixas, nem que veste o que já não te serve. O Homem do Lixo alimenta-se da caridade, portanto o que o faz andar de caixote em caixote é a estética – também ele procura um entretém fácil. Geralmente, quando o oiço a passar também eu me perco naquela busca: “será que vai mexer no saco que lá deixei? E se mexer o que é que há no meu desperdício que o possa fazer feliz?” Eu não sei, mas ele costuma encontrar. Há sempre algo que o prende e não desilude. E era bom que maior parte da vida das pessoas fosse assim, mas há sempre uma desilusão, uma pequena falha que seja e nós esmorecemos. É aí que ele se distingue de nós: não se agarra a males maiores porque vê o lado bom das coisas pequenas e aceita o mais acessório e descartável, e nesta trascendência esquece-se de que à sua volta há uma sociedade triste.

 

São cada vez mais: de todas as idades, géneros e humores. Durante muito tempo pensei que eram drogados, desistentes ou párias deste portugal. Agora gosto de acreditar que são pessoas de outra fibra. Que não é uma fibra normal, nem anormal: é uma fibra vadia. Amanhã vai chegar a hora da recolha e o  Homem do Lixo - venham-me com as desculpas que quiserem - vai continuar a ser último herói urbano.

 

Pedro Ramalhete

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