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iQue Dor

por cincodiasuteis, em 15.09.14

Já aqui vos dei a minha opinião sobre as imiscuições da publicidade no jornalismo. O lançamento do iPhone 6 foi mais um desses exemplos, para mim óbvio, e que me conseguem fazer baixar uns furos a minha consideração por determinados órgãos de comunicação social.

 

Como também já aqui disse a propósito deste tipo de assuntos, nada é “inoticiável” à partida. Há, no entanto, abordagens de o fazer. Acompanhar o lançamento ao minuto de um telefone ou de outra tecnologia qualquer parece-me, claramente, ultrapassar a barreira do bom senso e do jornalismo. Mais! Outros lançamentos do mesmo género, mas de outras marcas, não tiveram praticamente eco na comunicação social.

 

Eu acho bem que se diga que já estão à venda telemóveis com a capacidade de fazer o pino, carros que produzem gasolina ou foguetões que

trazem a lua até nós, mas não é preciso entrar em exageros. A histeria que existe à volta dos produtos da Apple na maioria da sociedade que acompanha as tecnologias não obriga a que nenhum jornal tenha que tweetar ao minuto o que acontece no lançamento do produto. Se não concordam comigo, pergunto: a parte onde é explicada as características dos produtos em lojas como a Worten é jornalismo?

 

Uma vez, numa aula da Faculdade, uma professora perguntou-me se a mala que ela tinha em cima da mesa era ideologia. Eu respondi que sim e adivinhem: a resposta estava correcta. Claro que se tratava de ideologia no sentido mais académico do termo, mas mesmo no sentido informal se pode constatar. Um comunista que tenha um Ferrari rapidamente vai ser acusado de estar a cair em hipocrisia e demagogia, certo? No caso do lançamento do iPhone passa-se rigorosamente o mesmo. De que forma é que um meio de comunicação social faz uma cobertura exaustiva deste evento pode afirmar não ser capitalista, por exemplo?

 

Por outro lado, tendo em conta o papel cívico que eu gosto de atribuir ao jornalismo, não me parece, de todo, que esteja entre as funções do jornalismo promover o consumismo. E claro que há uma diferença entre consumo e consumismo. Comprar pão, gel de banho ou um jornal é consumo. Comprar um iPhone, um Porsche ou um anel de diamantes é consumismo.

 

Depois de assistirmos ao roubo das fotos e vídeos de famosas nas suas iClouds, eis que nos entra pelos olhos e ouvidos o iPhone. No primeiro caso, pensei: iQue Pena. No segundo, já foi: iQue Dor.

 

Francisco Mendes

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