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Isto é (a nossa) Água

por cincodiasuteis, em 11.08.14

No meu país é a cerveja que descola as cabeças da sonolência

 

- Se a casa cair, deixa que caia. 

 

Mais uma e já lhe perdeu a conta; isto não é água, é cerveja a um euro. Passam os anos espalhados pela região ou pela tasca da aldeia a falar da bola e da gaja da Playboy e no verão vêm colmatar o vazio com a barriga cheia. Mais uma e agora não sabem quantas é que desceram, mas o que interessa? Vai subir ao palco a banda principal e o bailarico não aquece de outra forma. Ainda falta aquecer os foguetes por vir e um pão com chouriço para almofadar mais uma loira. A tasca, para o bem do homem, faz fronteira com a igreja

 

- Até o padre ajudou.

 

e pela apoteose embebem-se nas questões fundamentais para o próximo gole

 

- Mas quem será? Mas quem será?

 

Os passinhos tortos vêm responder às perguntas: "não estamos preparados para estas danças em cadeia que não acolhem boas ideias." Quando faltam boas ideias olha-se o céu. O fogo parte-se lá em cima para ligar os homens da aldeia, que dormem na festa, de volta ao amanhã de levantar cedo para comprar o pão. Estão a pensar voltar a casa

 

- Ouvi um passarinho às quatro da madrugada.

 

porque ouvem aquela voz que pede aconchego. Levam um último copo à alma para sentir o toque divino e assim são grandes, os melhores

 

- Quem é o gostosão daqui?

 

Ninguém o é. Todos queriam que a barriga não fosse a vida, mas ela carrega os problemas - é o reflexo do portador. A festa só se apaga porque lhe viram as costas num corpo em queixume

 

- Ai é amor....

 

Num momento, prestes a serem longe, os homens sentem a falta de algo: mais uma cerveja. É só um euro. O corpo deixa-se ir na sonolência do dia de amanhã. Agora é só acordar e deixar que seja água.

 

Pedro Ramalhete

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