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Man on The Moon

por cincodiasuteis, em 08.08.14

Fico quase sempre sem saber o que dizer quando me perguntam qual é o filme da minha vida. Qual é? Sei lá. Posso dizer um, dois ou mil que as respostas, muito provavelmente, mudam amanhã,  já para não falar dos filmes que possa dizer e me despertam um arrependimento instantâneo. Mas hoje vou arriscar:  se me perguntarem agora escolho - pela a contenção de um genial Jim Carrey e pelo sentimento de “a comédia comeu a vida” - o filme Man on The Moon do Milos Forman.

 

Este filme sai em 1999 - naquela altura em que o Jim Carrey abandonava, da forma mais genial, o estatuto de palhacito sempre em overacting – pelas mãos do checo Milos Forman (Amadeus, One Flew Over The Cuckoo’s Nest) e foi de alguma forma um filme confortável para a minha personalidade. Para quem não sabe este filme é baseado, muito livremente, na vida do comediante/wrestler/actor Andy Kaufman, o homem que desafiou o conceito de entretenimento e puxou todas as fronteiras do aceitável para si. Forman pega nesta personagem e com a ajuda do colosso Jim Carrey põe em constante conflito realidade e ficção, e cria o seu próprio “contado ninguém acredita.” Pode-se dizer que este filme é uma farsa constante, um ultraje e por isso torna-se numa comédia, mas tal como um filme sobre o racismo não é necessariamente racista, este filme é uma comédia sem ser necessariamente engraçada. A graça (no sentido espiritual aqui) deste filme está na forma como aquele homem criou uma noção de espectáculo, ancorada na surpresa e no choque, e a partir daí deixou-se viver segundo essa noção, para virar toda a atenção do mundo para si e ser a super-estrela que sempre quis ser. Tudo tinha de ser fulgor, tudo tinha de ser muito maior do a sua existência. O público dele não podia ir preparado para o que ele ia dizer senão ele aborrecia-se. O filme conta essa história: do homem aborrecido com a vida que se deixou absorver pelos seus sonhos e ambições e que um dia decidiu ler, noite fora, O Grande Gatsby para um auditório que esperava um show de stand up normal. Digam-me lá se isto não merecia uma canção dos R.E.M?

 

Hey Andy did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey, Andy are you goofing on Elvis? Hey, baby. Are you having fun?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon.
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool.”

 

É de facto um filme de uma vida seja para o espectador, seja para quem participou nele. O que me fascina mais no filme não é o facto de ser um biopic sobre uma figura que admiro, mas sim por desafiar o próprio conceito de biopic e arriscar ser uma fantasia em modo matrioshka - mito dentro de mito, dentro de mito –, que  coabita exemplarmente com a vida de um homem vulgar, com problemas normais e ambições maiores do que uma vida. Fica para a posterioridade a última cena, onde aquela pinguinha de ironia (a morte por fraude depois de uma vida a ser a própria fraude) vai desaguar num dos finais mais comoventes do cinema: aquele belo funeral:  

 

“Now everybody sing: 'The world is such a wonderful place to wander through...'"

 

Se calhar vou apagar este texto, afinal o filme da minha vida é o Velvet Goldmine

 

Pedro Ramalhete

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