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nem parece, mas dois sms para Alda

por cincodiasuteis, em 03.10.14
  1. Esquecendo por instantes os limites lógicos que o axioma "tudo tem a mão de Deus" nos impõe, uma hipótese: tudo aquilo que o Homem criou tem já um correspondente na obra de Deus; as criações humanas são apenas réplicas mais ou menos boas de algo maior. Os próprios homens são também uma criação de Deus; assim a melhor arte é quando o homem cria correspondentes de si próprio. Talvez soframos de uma irresolúvel "angústia da influência" em relação a Ele. Antes de me deitar nesta cama, que, para mobília, até está cheia de qualidades - meu berço, também areia onde nos amamos -, já a tua boca era no tempo, estava gravada, mais perfeita do que isto; é esse conhecimento, contudo, que me deixa bem aqui deitado: os meus lábios conheceram esse modelo, essa criação divina, isto é, estiveram colados aos teus (sim, colados - o decoro fica-nos bem!), e agora ensinam o resto do meu corpo a sentir melhor a suavidade dos lençóis, a sua ambígua temperatura. Para mim a tua boca é o modelo da cama.


  2. Quando eu morrer vai ao funeral calada. Se te perguntarem algo, responde curto. Não chores; não te mostres afectada. Tenta ser a sombra vertical do meu silêncio. Se alguém atirar uma flor, imagina como ficaria orgulhoso por saber o nome dela. "Sei porque o meu pai plantava orquídeas lá na quinta, e gladíolos, dálias, petúnias... Estás a ouvir-me, meu amor?" Sê das primeiras a sair do cemitério; apanha um táxi. Fixa a nossa senhora, abstrai-te da nossa Cyndi Lauper, imagina o som que faz a minha pedra na primavera - só aí, provavelmente, ganharei jeito para a música. Quando chegares a casa reza-me um beijo com temor a Deus.

António Trindade Vieira

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