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O dom de ser Dom

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Confesso que acho bastante piada à forma como a Monarquia é tratada em Portugal. Quer pela ilusão dos monárquicos – quase como se vivessem numa bolha de actimel-, quer pelo olhar arcaico com que é olhada pelos republicanos – como se não houvesse muitas Monarquias em países considerados desenvolvidos ou como se o projecto republicano em Portugal fosse ou tivesse sido alguma vez um sucesso. Não me entendam mal. Não sou republicano, nem tenho pilosidade suficiente no bigode que me permita rodar as pontas para cima. Acho graça é às pessoas que têm a maior das descrenças quando se fala na República isoladamente, mas depois soltam uma gargalhada de desprezo assim que se fala na Monarquia como se a alternativa fosse outra.

A parte de que eu mais gosto é de ainda se falar de Monarquia em Portugal e lermos e ouvirmos expressões como “a casa real portuguesa”. Podia ser um mero exercício estilístico, mas não é. O Duque de Bragança (do famoso Ducado brigantino) faz uma tradicional mensagem de Natal aos seus súbditos (provavelmente chamam-se Tico e Teco), a “casa real portuguesa” ofende-se quando não é convidada para os casamentos reais (daquelas casas reais que existem mesmo) e chega a haver disputas em relação ao trono (não estou a falar de nenhuma sanita) como em qualquer boa monarquia: afinal de contas, quem é o verdadeiro sucessor ao trono da Monarquia portuguesa: D.Duarte de Bragança ou D. Nuno da Câmara Pereira?

A verdadeira ironia está no facto de haver um Príncipe em Portugal. Falo-vos do Príncipe do Ilhéu da Pontinha – um Principado situado a 70 metros do Funchal com 178 metros quadrados de área. Também ele é ridículo. Ainda assim, está mais perto de ser rei do que qualquer um dos outros.

A gota de água foi a recente visita dos novos Reis de Espanha a Portugal. D. Felipe VI (V de Portugal) e a sua mulher visitaram o nosso país e foram levados para o Palácio de Queluz pelo nosso Presidente da República, D. Cavaco Silva de Boliqueime. A justificação era a de que este era um local importante na História da Monarquia portuguesa. Se calhar, sou eu o único que acha ridículo que um republicano assumido receba um monárquico assumido num sítio importante para os monárquicos de um país republicano. Quase que dá a ideia de que está com nostalgia. Tendo em conta que o Cavaco Silva só é Presidente da República porque deitaram abaixo a Monarquia antes, isto foi algo como um amante ser apanhado pelo marido da mulher com quem estava e pararem para falar da mobília. Sem ressentimentos. Talvez da próxima vez, a visita de Felipe VI (V de Portugal) inclua uma paragem no Terreiro do Paço. Fica a ideia. 

 

Francisco Mendes

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