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Ó Elvas, ó Elvas! Badajoz à Vista

por cincodiasuteis, em 13.08.14

Em Portugal, há dois tipos de patriotismo. O patriotismo normal – aquele em que tudo é motivo para soltar um urro forte em homenagem à pátria – e um fenómeno a que eu decidi chamar “neo-patriotismo”. O neo-patriotismo é o patriotismo daqueles que passam a vida a queixar-se de Portugal e dos portugueses, mas que têm imenso orgulho em ser portugueses quando há uma alma lusitana bem-sucedida lá fora.

 

Eu não sou nenhuma das duas. Não me interpretem mal: não sou antipatriota. Não gosto de que o nosso país seja enxovalhado. Mesmo que seja em futebol. Pela Alemanha, pelos Estados Unidos ou pelo Ruanda. Simplesmente, não fico extremamente feliz por um português conseguir este ou aquele feito. Nem uso a nacionalidade, em caso de empate, para decidir quem tem mais mérito em determinada área. Também não gostei de Os Lusíadas (e até acho um crime que se desconheça o Camões lírico em comparação com este livro).

 

O neo-patriota não gosta de determinado jogador ou treinador, porque joga na equipa rival à sua. No dia em que é transferido para uma equipa do estrangeiro, o neo-patriota afina a garganta e entoa cânticos ao seu novo herói. Da mesma forma que ouve toda a música portuguesa que teve algum destaque de alguma entidade estrangeira. Se houver neo-patriotas na Coreia do Sul, ainda hoje ouvem o Gangnam Style em loop.

Recentemente, no caso do BES, a preocupação do neo-patriota é a imagem que o país passa lá para fora. Não vale a pena pensar em quem vai pagar. É mais importante magicar sobre o que é que os iluminados estrangeiros pensam sobre Portugal.

 

O caso que mais estranheza me causou aconteceu quando o Governo aconselhou os jovens portugueses a emigrar. Os neo-patriotas viram isso como um atentado à pátria e um reflexo do estado decadente do país. Se eu fosse neo-patriota, veria isso como a auto-estrada sem portagem para cair no goto dos restantes neo-patriotas.

 

Posto isto, informo todos aqueles que se identificaram como neo-patriotas que escrevi este texto em Badajoz, enquanto esperava por caramelos, portanto calma com as críticas que isto está bom. Agora já se faz tarde. Vou fazer a mala e voltar para Elvas. Até já!

 

Francisco Mendes

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