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O País está Mal

por cincodiasuteis, em 05.08.14

Um banco entra em colapso numa era de empreendedores, que construem um futuro preguiçoso com os olhos no passado. O retro é chique, o novo pouco ou nada existe; fazem-se empresas de cestas de verga para piqueniques e de toucas para a praia. Isto é tão pouco futuro e tão bem enfeitado, que só através de um banco cheio de crápulas é que o povo conhece a descrença.

 

O Vicente veio à rua ver se a manifestação já tinha acalmado; não via a hora de ver as ruas, largas e iluminadas, desabitadas de qualquer pestanejar de uma multidão, que não conhece a sua própria revolta. Diz-se muito, grita-se o dobro; uns correm para um lado, outros pontapeiam caixotes de lixo. Com tanta gente a dizer tanta coisa como é que a multidão pode ser só uma?

 

“A crise! A crise! Um banco de banqueiros coxos e uma sociedade que transforma tudo em sal porque só sabe olhar para trás. O Horror!”

 

Pensou muito se este era o seu lugar, o seu país. Preferia se calhar viver numa faixa de dois países, em guerra milenar, onde o conflito e as causas são a sério. Mas as causas devem ser sempre sérias seja num país destruído, seja num país à beira de tal. Nesta terra à beira-mar plantada nada se destrói e nada – embora se diga que sim - se empreende; está tudo na ruína de ideias e o Vicente com os bolsos rotos de dinheiro. Inquieto e sem ter onde cair morto, Vicente ficou-se a adivinhar um retrato de uma rua vazia, cheia de pessoas a jantar nas suas casas. Cada casa com o seu eco, cada pessoa com o seu problema: “nunca havemos de chegar a lado de nenhum porque ninguém percebe porra nenhuma do que estou a dizer.” As ruas vazias servem para a ressaca da multidão, assim nascem os gritos solenes que ninguém leva a sério. Estas ruas vazias pertencem a muitos ouvidos moucos que dramatizam o passado e se revoltam porque nunca tiveram a vida que queriam. Fecham-se assim, os que se revoltam e os que mandam, num egoísmo atroz que faz mal à nação do Vicente - até ele próprio se torna egoísta por perder tempo a pensar se este país é mesmo dele.

 

Mandam-no emigrar pelo trilho da calçada, naquela rua vazia. O futuro não existe ou parece projecção do passado, o presente sem imagens bonitas é um trilho ardiloso. Por decidir, Vicente ficou prostrado ali, a descobrir para que lado deve andar um país.  

 

Pedro Ramalhete

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