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O véu dos livros

por cincodiasuteis, em 10.09.14

Parece-me que as pessoas mais preocupadas em deixar os seus livros impecáveis são aquelas que menos os amam.

 

No outro dia falava com alguém que desgostava o próprio pai por pouco desfrutar da extensa biblioteca que o velho havia feito crescer durante toda a vida com a confiança de que fosse essa a grande herança que cá deixaria aos filhos. Dizia ele, enquanto eu o ouvia com toda a temperança (coisa nova para mim!), que os livros do pai não tinham graça, eram pálidos, talvez anémicos... 

Um dos livros mais pálidos da minha estante é o vigoroso "Guerra e Paz". Os livros com má cara têm muito potencial - livros com olheiras, lábios ressequidos ou faces magras, e, quem diria?, lá dentro a vida toda.  


Assim fiquei a saber que para ele o primeiro critério de escolha de um livro é a beleza das capas. Além de repudiar o critério dele, como é óbvio, também discordei quanto à beleza das edições. Ele mostrou preferência  pelas capas berrantes - não no nobre sentido em que, na voz de Luís Piçarra, as camisolas do Sport Lisboa e Benfica são berrantes... - de um Luís Miguel Rocha, por exemplo. 

No outro dia vi um livro adornado com um véu de noiva... Que beleza! Se depender de mim ficará eternamente à espera no altar - e a verdade é que em muitas livrarias estes livros aparecem numa espécie de altar...

Escusado será dizer que esta pessoa não escreve nos livros, não os abre demasiado, não lhes permite rugas... 
(Não é escusado dizer que esta pessoa é uma das boas pessoas que conheci nos últimos tempos - esta é uma informação relevante.)

 

Na minha experiência as pessoas que estão mais preocupadas em deixar os seus livros impecáveis são aquelas que menos os amam.

 

Eu vou para a cama com os meus, leio-os enquanto me abrigo da chuva a pouco centímetros da chuva, ouço-os brigar uns com os outros na minha mochila sempre que corro para apanhar o comboio, risco-os, naturalmente, escrevo neles... 

 

Cada vez mais me apercebo de que as minhas melhores leituras são com um lápis na mão, a riscar, a sublinhar...

O Gonçalo M. Tavares disse numa entrevista: "Costumo dizer, a brincar, que sou alfabetizado pelo lápis." Identifico-me com essa necessidade do lápis. Ele até fala dos livros como animais de barriga aberta, pronto a serem dissecados por nós e pelos nossos bisturis - coisas violentas que, compreendam, não se fazem a uma bela noiva...

 

António Trindade Vieira

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