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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013. 

 

[Aqui estava um título]

Umas vezes a pergunta choraste muito? Choraste muito, mãe? Sei lá eu, Catarina. Sabes, sim. Deixa-me perguntar-te; é que eu não sei como é ela vem, não sei nada sobre ela... Outras vezes a sensação de um cortejo de viúvas sobre o peito, mulheres de preto a pisarem-lhe um chão de flores com veios de asfalto, o reverso da sua pele branca e tenra de menina de nove anos.         
  
Se um homem pensa no pai enquanto bate na mulher é um bruto; se pensa na mãe é um doente: perdeu a mão que tinha na testa – isso é uma enfermidade. Aconselho à mulher que se separe dele; não pode é contrariar que aquela testa parece um molde de dedos; e de certeza que passados uns anos: ele escolheu-me; não fales assim do teu avô porque ele escolheu-me e amou-me à maneira dele. Este senhor, ao atirar-se da ponte, contraria a leveza da morte que aí se aponta ao chão; contorce-se todo para encontrar por ali um olhar de comiseração, o alívio que já só consegue encontrar naquela queda. Mas ele bateu-te, avó! E tu, mãe, choraste muito quando ele morreu? Sei lá… Só me lembro que estava num exame e todos levantaram a cabeça. Quando ouvi o meu nome uma vaidade habitou-me os músculos, fui dominada pela fantasia: imagens agradáveis que me isolavam; a contornar as carteiras com folhas demasiado indiferentes umas às outras do que seria desejável, apáticas diante da angústia dos meus colegas, que era como um lençol branco á frente dos olhos de todos, o lençol branco da cama onde o meu pai estava. Quando saí da sala lembrei-me dele no hospital. Enquanto atravessava um corredor vi os cacifos com chaves partidas nos cadeados, todo o frenesim de borbulhas trancado lá dentro e todo o silêncio a provocar-me; eu sem saia, nem calças apertadas, sem perceber nada, mas a sentir-me provocada e incomodada com essa provocação, o que nunca acontecia. Alegrei-me outra vez: poderia também ser: “a mãe viu bem como a tua cabeça baloiçava ontem sobre o livro; chega para ti – vem para casa”. O telefone, escoltado por três adultos – naquele momento voltei a pensar “adultos”-, falou-me acerca de um movimento de olhos: o último.         


Invejava aquela história; também queria ter dentro de si um pai dentro de uma caixa de madeira a acomodar-se num berço de terra adornado de flores. Choraste muito ou não? Pai e morte – queria saber mais.        
           
As roupas do defunto não devem ocupar um guarda-fato; as recordações não devem ficar numa pequena arca debaixo da cama. Dê-lhes ar – sinistro não é a camisa do seu homem agora compor o tronco de um neto; cuidado é com a multiplicação dos caixões dentro de casa.   
  

a) De vez em quando acordava com a casa toda debruçada sobre si, a examinar-lhe o corpo.

b) Lá no norte afundava as mãos na terra e ficava assim durante horas, à espera de sentir um bocado de alma.

c) Convencia-se de que certa porção de ar era a morte; aproximava-se com cuidado para não a afugentar e com um livro aberto entre um bater de palmas, aprisionava-a nas páginas como se se tratasse de um insecto; nunca mais abria o livro. Assim o “Amor de Perdição” lá de casa está por ler: cheio de mortes.

             
Também sabia pouco sobre pais. A partir de desenhos com uma gema no alto do papel, um triangulo a encimar um quadrado, um pau de gelado espetado numa nuvem e famílias de micado a levitar, desconfia-se de como estas crianças sofrem na escola. As batas brancas deviam saber que os miúdos têm menos pais na cabeça que fisgas nos bolsos; no recreio não há conversas intimidantes sobre divórcios ou orfandade, não há filas de homens de meia-idade com braçadeiras, prontos a mergulhar na poça de água à boca do escorrega; o leite anémico cujo pacote tem um recreio desenhado sabe mal em todas as bocas – o paladar não depende dos beijinhos que cada uma delas deu de manhã. Em casa é que de vez em quando um pai ou lá o que era aquilo: a surpresa da cara esfolada com carinho; em cima da mesa das revistas e do comando da televisão apareciam chaves, uma carteira sisuda – afinal o gado não tem mau cheiro, mami – e uma coisa que se parecia com o invólucro de um baralho de cartas a acolher umas guloseimas para adultos que se esfumavam nuns lábios sempre que os lábios da mãe não estavam ocupados; e também a presença de uns braços que davam para pentear com as escovas das bonecas oferecidas por umas mãos que às vezes também davam para pentear. O pai era um fenómeno sazonal – nem tanto.

Guardava as roupas dele numa pequena arca, que não era um caixão de lembranças: nenhum outro peluche ficava bem naquelas roupas; ainda tentou vesti-los: resultou uma savana de colcha onde todos os bichos estavam aconchegados com casaquinhos de malha; um hipopótamo humilhado numas calças à boca-de-sino, um urso travestido por uma aba de grilo e um nenuco com umas calças de mulher na orelha – a Barbie ficava debaixo da almofada, a esconder a sua nudez. Nenhuma das peças de roupa, agora na pequena arca, assentava mal ao seu cãozinho de orelhas pretas, um peluche elegante, que andava para todo o lado a baloiçar na sua mão – a vigiar-lhe a curiosidade do tacto. Leu que não devia acumular caixões dentro de casa, mas esperava ainda pela certidão de óbito do seu cãozinho de orelhas pretas para dar futuro ao guarda-roupa. Assustava-se com a ideia de ele estar numa cave: ele e outros peluches, enfileirados pelo raptor numa prateleira de refugo, a esforçaram-se para conservar uma azeitona entre as pálpebras, a temer que uma navalha lhes provocasse uma hemorragia de esponja.

 

António Trindade Vieira

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