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No outro dia vi um post no Facebook a propósito da greve do metro em que o autor defendia que não era uma greve eficaz, pois já tinham feito outras tantas da mesma forma e nada tinha mudado. No fundo, ele estava a sugerir que lutassem pelos seus direitos, mas de forma diferente para tentarem obter resultados diferentes. É impressionante a quantidade de pessoas que caiu em cima do rapaz a dizer que ele devia respeitar mais os direitos conquistados com o 25 de Abril e, de certa forma, a sugerir que ele era contra a greve.

 

O facto de se ser a favor do direito à greve não implica que se concorde com todas as greves. Em primeiro lugar, porque se pode achar que os motivos que levam a que se faça greve não são justos. E depois porque pode ser uma forma ineficaz de luta. Eu concordo com o autor do texto no caso dos transportes. Eles estão a lutar para que as empresas não sejam privatizadas, mas se paralisarem tantas vezes (como tem acontecido) é menos dinheiro que entra, logo há maior probabilidade de serem privatizadas. É tudo uma questão de lógica.

 

Aquilo que eu não consigo entender é que as pessoas comecem logo a discutir com as veias do pescoço salientes assim que ouvem a palavra greve (ou a palavra praxe). Os trabalhadores têm direitos, mas não têm sempre razão. Isso faz de mim fascista?

 

Eu já disse várias vezes que odeio extremismos. Compreendo perfeitamente que as pessoas estejam revoltadas com a situação geral do nosso país e também que, por isso mesmo, às vezes digam coisas menos razoáveis e que não diriam se estivessem satisfeitas, mas não é a entrar em conflito com pessoas que sofrem tanto com o país que temos que vão conseguir mudar alguma coisa. Da mesma forma que a greve foi um direito conquistado durante o 25 de Abril, também a liberdade de expressão foi. Se se dizem tão respeitadores da revolução, façam o favor de respeitar as outras pessoas (podendo discordar, mas sempre respeitando os outros).

 

Se os sindicatos propusessem uma greve geral de um ano civil inteiro, aposto que estas pessoas iam festejar. Desculpem. Respeito muito o direito à greve, mas a greve, apesar de causar transtorno e ser essa a alavanca da acção, existe para tentar que as coisas melhorem, nem que seja a médio ou longo prazo. Sempre que servir para afundar ainda mais as coisas, reservo-me ao direito de discordar.

 

Às vezes dou por mim a imaginar um sindicalista fervoroso em casa com os filhos pequenos. Gosto de pensar nas crianças a seguir o exemplo:

 

“- Luisinho, vai fazer os trabalhos de casa!

- Não posso, pai. Hoje estou de greve. E nem venhas com coisas. É um direito conquistado com o 25 de Abril”.

 

Ou então pior:

 

“- Teresinha, já te disse que não te vou comprar mais doces!

- Está bem. Vou parar de respirar até mudares de opinião. O direito ao protesto é uma conquista do 25 de Abril”.

 

Gostava de dar um final à história, mas ainda não cheguei lá. Talvez um dia. Espero só que o pai ou mãe sindicalista não deixem que a Teresinha comece a ficar roxa e acabe por morrer. Ela é o futuro.

 

Francisco Mendes

 

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