Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Salvem o Arroz de Pato

por cincodiasuteis, em 02.10.14

Entrou ontem em vigor a lei que criminaliza os maus-tratos aos animais de companhia. É uma medida que, à partida, não me parece passível de qualquer contestação e saúda-se que finalmente isso aconteça. Ainda assim, aprofundando um pouco mais o assunto, há muito espaço para interpretações diversas.

 

Afinal de contas, o que são maus-tratos a animais? Se é indiscutível que dar um tiro num cão sem mais nem menos é maltratá-lo, há outras situações em que não é bem assim. Para mim, por exemplo, sair à rua com os cães vestidos com camisolas é maltratar o animal. Aliás, para mim, tudo o que seja humanizar a vida dos animais é maltratá-los. No caso das camisolas até por uma evidência bastante clara: faz-lhes cair o pêlo.

 

O diploma diz, por exemplo, que pode dar pena de prisão a quem “infligir dor” ou “sofrimento” a um animal de companhia. Sair com um cão pela trela, por exemplo, inflige sofrimento. A menos que o legislador seja feliz em situações de asfixia. Não estou, com isto, obviamente, a dizer que os cães não deviam sair à rua pela trela. E também sei que, nos exemplos que dei, estou a levar as coisas ao extremo. Mas a verdade é que a sensibilidade das pessoas para estas questões é variável e faz falta que se defina de modo claro e simples o que são maus-tratos aos animais de companhia. É pena que seja o bom senso a dizer que aqueles exemplos são o extremo e não a lei.

 

Há grupos que pretendem que se alargue o diploma a todo o tipo de animais. À primeira vista também faz todo o sentido. Porque é que maltratar um cão há-de ser mais grave do que maltratar um saguim? No entanto, não é assim tão simples, novamente. Se os maus-tratos aos animais se generalizarem para lá dos animais de companhia e com o diploma como está, há pessoas que podem ir presas por comer arroz de pato. Quer pelo arroz, quer pelo chouriço ou linguiça.

 

Que se defendam os animais, tudo bem. Que se goste de animais, melhor ainda! Que se deixe a interpretação das leis à sensibilidade de cada um, moderados e radicais, oponho-me veementemente. Até porque eu gosto de arroz de pato.

 

Francisco Mendes

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt