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Sempre bom é o novo, o eterno e o chato

por cincodiasuteis, em 22.07.14

Oiço Kate Tempest com a certeza de que chegámos à nova grande cena: poesia a um ritmo torrencial embebida por um hip-hop onde a letra se sobrepõe ao beat, o que acaba por ser um sentimento transversal a todo o circuito urbano – parece-me a mim que já não existe beat sem o dom da palavra. Tempest tem nas letras a sua existência, a arma de arremesso contra a apatia de uma geração dominada pela máquina e contra a inquietude do coração. Luta tanto contra esta apatia como quem fuzila; as palavras vão e vêm tão indiscriminadamente que as personagens acontecem à velocidade da luz, acontecem até não serem mais do que perguntas. E é isso que me interessa num álbum de hip-hop moderno; interessa-me um Pete, uma Becky ou um Marshall como pontos de interrogação - mais do que como estandartes de uma intervenção ou de uma revolução por vir -, num cenário de constante mudança onde a pergunta é mais definadora do que a resposta. O álbum não se chama Everybody Down à toa; o título sugere decisões, indecisões, inconstâncias, ansiedades e nós ficamos neste tão irónico impasse: ou nos baixamos ou erguemos os braços para apanhar as balas. É assim, com a Kate, que se começam a construir os arquétipos do que somos hoje em dia.

Do outro lado da nova grande cena existe o bigger than life ou, se quiserem, aquilo que está em nós e para além de nós, ao que parece desde sempre: Arcade Fire. Esses oiço com a certeza de que são a minha melhor banda, o meu melhor concerto, a minha melhor música. É presunção dizer que o que eles fazem é da família do que eu penso, mas dá-me algum conforto que assim seja. Não há melhor afirmação de uma obra musical pop como Reflektor, o maior álbum deles – se é o melhor ou não isso fica para outra discussão. Dividido em duas partes: uma primeira abstracta e dançante onde vamos tacteando um universo que urge em existir e uma segunda parte que faz amor romântico com o épico – a tal parte onde encontramos esse colosso Afterlife. Em concerto personificam o seu próprio universo: tudo é épico e tudo é cor; o trabalho cénico, a encenação e o Win a cantar para a Régine é só a maneira de eles serem.

Às vezes sinto necessidade de pedir desculpa ao mundo por não ter paciência para o Eddie Vedder nem para o que ele diz, nem muito menos para as bandas sonoras banais que ele faz para filmes menores. Seria um pedido de desculpa que absolvia o hater que há em mim, mas de falta de absolvição está o mundo cheio. Prefiro a redenção por caminhos mais electrizantes, menos concretos e que transcendam o simples comentário político. O fixe na música não é sermos a pomba da paz ou a incoveniência que agrada aos não-abnegados. O fixe na música é podermos dançar o que somos com total noção do mundo. O fixe na música, verdade seja dita, é podermos todos gostar do que quisermos, mas para mim Pearl Jam e isso? Uma seca!

Perdoem-me, mas eu sou assim: prefiro a sugestão à intervenção.

 

Pedro Ramalhete

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