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"Três Cores: Azul", Krzysztof Kieślowski

por cincodiasuteis, em 12.08.14

O quarto do Tomás tinha um nome: não era, portanto, "o quarto do Tomás".

As quatro paredes, mas também o papel que forrava os móveis, as pedras do candeeiro, o cortinado semitransparente, o peluche dominante, uma pintura de uma criança um pouco distante, de costas, sentada num baloiço (um quadro adulto) - tudo isto tinha apenas uma cor.

Numa viagem de carro Tomás e os seus pais viram um arco-íris.

- É fácil ver o arco-íris nesta estrada, porque não há nada aqui que nos impeça de o ver.

O pai de Tomás, obcecado pela ideia de que acontecem coisas atrás dos edifícios, esquecera-se de explicar ao filho que um arco-íris é um fenómeno pouco comum.


Aquele arco-íris entusiasmara o Tomás, mas também os seus pais, que o incentivaram a escrever num papel as sete cores - crescer num quarto monocromático em nada havia perturbado a sua aprendizagem das cores.

Pelo caminho deixavam um risco que enegrecia mais o asfalto. 

Os pais soletravam cada uma; ele já tinha escrito seis - vermelho, laranja, anil (esta ocupou um bom tempo de viagem), amarelo, verde e violeta.

Passaram ao lado de um celeiro que interrompeu o descampado e lembrou-os da cor que faltava, mas Tomás já não teve tempo para a escrever. Pouco mais à frente o carro despistou-se, indo contra uma árvore de outra cor - uma árvore que, aparentemente, nem impedia o pai do Tomás de ver coisas. 


O novo quarto de Tomás, que se assemelhava ao arco-íris que vira com os pais, era antes habitado por uma família de ratos, o que obrigou um adulto, na altura ainda um estranho, a deixar um pó azul perto de um buraco na parede, junto ao chão.
Nunca uma cor causara a Tomás uma impressão tão forte como a daquele veneno.


Passados uns anos, Tomás, já adulto, teve uma crise de nervos.
Na clínica onde recuperou ouvia-se sempre a mesma música, ininterruptamente - era esse, aliás, o segredo da terapia. 

 

António Trindade Vieira

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