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“Vira à esquerda… A outra esquerda!”

por cincodiasuteis, em 22.07.14

Há um discurso muito popular e fácil que é o de criticar os Governos que se sucedem em Portugal. Eu consigo compreendê-lo. Não me recordo de nenhum que tenha feito um trabalho brilhante recentemente. No entanto, há coisas que é preciso analisar mais profundamente. Mais do que a qualidade escassa dos Governos, preocupa-me a qualidade escassa das oposições. A razão é simples: o futuro Governo está na oposição, por um lado. Por outro lado, é preciso uma boa oposição face a Governos maus. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a abstenção é um castigo maior para a oposição do que para o Governo. Preferir não votar a votar em alguém da oposição significa uma de duas coisas: ou as pessoas não acreditam que a oposição valha os votos, ou são completamente indiferentes à política, o que, a meu ver, é responsabilidade maior de quem está na oposição do que quem está no Governo (ainda mais quando os Governos são maus e, desta forma, a tarefa está bastante facilitada).

 

O maior problema da oposição em Portugal é a divisão constante a que frequentemente se sujeita. O caso mais recente é o da guerra interna pela liderança do PS. Com a lavagem de roupa suja que vai dentro do partido, quando for escolhido o líder, como esperam que as pessoas olhem para ele? Quantos inimigos vai ter logo à nascença? É como demolir uma casa aos poucos no Verão e esperar que não chova no interior da habitação durante o Inverno. Dir-me-ão que a isto se chama política. Pois bem, é óbvio que a política traz sempre a luta do poder consigo agarrada, mas não deveria passar a ideia de fragmentação para fora. É a diferença entre ter classe ou não ter. É como arranjar rixas na rua e achar que é um general de guerra. Não é a guerra do PS- é a rixa do Partido Socialista.

 

Mais à esquerda, há as mil e uma zangas, fragmentações e desuniões que fazem com que a esquerda portuguesa seja a coisa mais esquizofrénica que existe. Por um lado, não tem estabilidade existencial. Por outro lado, empurra com a barriga a responsabilidade de assumir qualquer responsabilidade. No fundo, são como aqueles treinadores de bancada que dizem como é que a equipa devia estar a jogar, chamam nomes ao árbitro e no final ainda se chateiam com o vizinho do lado mesmo que seja da mesma equipa.

 

É este o cenário que, apesar de ir votar sempre, me faz nunca saber em quem votar. Não há ninguém que verdadeiramente me agrade tirando o branco (com minúscula para não haver confusões). Pode ser que um dia a esquerda aspire a mais do que aspira hoje em dia. Não é difícil. Basta aspirar a alguma coisa. Pode ser que um dia não haja aquela sensação de falar na esquerda portuguesa como uma pessoa pouco lúcida a dar indicações a um taxista: “Vire à esquerda. Não…Não é essa esquerda. A outra esquerda!”.  

 

Francisco Mendes

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