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Há dias um fiador ameaçou empurrá-lo para um abismo; ele temeu apenas uma certa inversão do espaço. O Eduardo, no fundo, vê o céu como um grande buraco.

Desde miúdo invejava a coragem dos pássaros, não tanto a aderência da aranha que, no tecto do seu quarto, coçava o pêlo nas pequenas protuberâncias do reboco. Ela bem que o fitava, empenhada em causar-lhe inveja – há animal mais petulante? –, mas ele reduzia a vaidade da aranha a uma questão de perspectiva (ainda não podia compreender que a perspectiva é tudo); também não lhe invejava os muitos olhos, que a multiplicar por muitas dioptrias, exigiriam aos seus pais uns óculos bem caros, acima das possibilidades; uns óculos semelhantes às janelas redondas de um avião, ligadas por um arame.

O avião, um veículo perigoso, que se move em profundidade - nenhum transporte, para o Eduardo, podia competir com o metropolitano, onde há uma infraestrutura mínima que deveria abrigar toda a mobilidade humana: um chão e um tecto. “Primeiro o Homem teve de desbastar mato e planear o território, depois precisou de construir os carris... O que teve de fazer no céu para lá andar?” Colava a bochecha ao vidro, consciente de que a boca entreaberta dar-lhe-ia um quadro de água, e escrevia Laura até que aquela tela improvisada ficasse suja de hálito. Um véu semitransparente, com o nome dela recortado, tapava a sua cara, quando a escuridão dos túneis lhe dava um espelho. Passava por todas as estações, viajava em todas as linhas, precisamente por não ter de ir a lugar algum. Nunca se sentia tão no mundo como durante aquelas viagens; caso contrário, poder-se-ia dizer que se sentia em casa - havia naquele périplo um propósito religioso.

Desmaia sempre em igrejas; as abóbadas altas das catedrais como que lhe esvaziam a cabeça, com uma dor nas têmporas; e o céu numa planície leva-o mesmo ao vómito – a mãe impedira-o de vomitar com os olhos postos no azul; a mão na testa do pequeno Eduardo tentou lembrar-lhe de que não existe um esgoto celeste (pelo menos fora do domínio da teologia).

Como não cresceu muito na adolescência, assim de um dia para o outro, não chegou a temer não caber em casa – esse medo (ou uma sesta à sombra de uma macieira) poderia ter resolvido o problema. Em criança, evitava a rua, embora se sentisse bem, aliviado até, quando brincava no escorrega, depois do trauma que foi um balão soltar-se-lhe do pulso - ainda hoje se pergunta: para onde? Esquecia-se do balão no inverno, siderado pela beleza das ruas da Baixa cobertas de tecido.

 

Afiança que parte agora para Londres não devido ao fiador que o persegue. E a família acredita: só os dias de chuva lhe trazem alguma lucidez.

 

Este pequeno conto foi publicado na revista LER, na falecida (mal!) secção 15-25


António Trindade Vieira

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