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Pim, PAN, Pum

por cincodiasuteis, em 28.07.14

É mais difícil encontrar sentido no Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) do que encontrar a cabeça de um Cão de Água Português no meio daquela amálgama de pêlo. Isto porque, ao contrário do PAN, o Cão de Água Português tem cabeça. Mesmo para os mais cépticos. O PAN é um daqueles partidos urbanos que não fazem qualquer sentido. O PAN defende uma causa. Não tem uma ideologia. Se o PAN chegasse ao Governo, possivelmente, o Orçamento de Estado seria uma página do Word em branco para não usar papel e o hino nacional passaria a ser o “Fungagá da Bicharada” do Avô Cantigas.

 

Eu aprecio bastante o nome do partido. Em primeiro lugar, porque há uma distinção entre animais e natureza como se os primeiros não fizessem parte da segunda. Por outro lado, o nome dos partidos costuma ser uma coisa específica: Partido Social-Democrata (para os Sociais-Democratas), Partido Socialista (supostamente para os Socialistas) ou Partido Comunista Português (para os Comunistas). Este nome deixa de fora, logo à partida, todos aqueles que são contra os animais e/ou contra a natureza. Há alguém que se assuma contra a fauna ou contra a flora?

 

Não pensem que eu escrevi esta crónica sem fazer trabalho de pesquisa. Fiz o esforço de conter a respiração e entrei no site do PAN. A primeira coisa que me chamou à atenção é a lista de personalidades que os apoiam e que consta logo na entrada do site. Parece que estamos a jogar ao “descubra o intruso”. A lista é encabeçada por personalidades como Dalai Lama e Maneka Gandhi e é rematada com outras personalidades como o Heitor Lourenço, a Marluce ou a Ágata. Isto é mais ou menos o mesmo do que fazer um festival de música e juntar Queen e Rolling Stones com o Trio Odemira e o Augusto Canário. Depois consultei os membros do partido e fiquei desiludido por ver que não é um partido liderado por alguém chamado António Borrego, José Coelho ou Rita Barata. Meus amigos, a isto eu chamo falta de visão política.

Este partido sempre esteve longe de chegar a qualquer lugar de governação. No entanto, segue o exemplo dos outros partidos. À direita do site têm o NIB para quem quiser doar dinheiro. Ainda não chegaram a lado nenhum e já nos estão a pedir dinheiro. No caso do PAN, eles não nos meteriam a mão nos bolsos. Meter-nos-iam a mão na bolsa marsupial.

 

Espero que não me interpretem mal. Eu sou a favor da discussão e da pluralidade de ideias. Não me parece, no entanto, razoável que um partido com uma visão tão limitada apenas a um assunto devesse sequer ser um partido. Já há associações. Mantenham-se nela e integrem outros partidos onde debatam esta causa e outras. A política deve ser para quem tem interesse em política. Não deve ser para quem almeja a moldagem das vidas alheias.

 

Mais importante ainda! - a política também deve ser para aqueles que podem ser ofendidos. No caso do PAN, chamar-lhes cães, bois, porcos ou burros ia ser levado como elogio e isso ia dificultar a vida a muita gente. 

 

Francisco Mendes

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Ficções

por cincodiasuteis, em 28.07.14

Li num sítio qualquer que correr mata mais do que ser sedentário; são estudos que se fazem e não servem para nada. O que mata realmente é não fazer e por isso corro. Correr é um templo do pensamento onde trespassas a vida das pessoas com a tua imaginação – escutas, observas, absorves. Quando corro torno-me meticuloso: escolho os melhores alvos para a minha imaginação e quando os alcanço retenho-me nas palavras que dizem. Então debruço o pensamento sobre um casal jovem que jura e promete amor, numa ponte: “Mas eu de ti gosto por amor.” O meu corpo segue apressado com essas palavras na cabeça. O resto corre com a imaginação:

 

Aqueles putos são um mundo a passar.

 

Estão ali no embalo do primeiro beijo a encontrarem um sítio para acontecer. Abraçam-se apoiados na margem do alcatrão de carros a passar, que lhes dá a banda sonora. Sabem tudo sobre a poesia, a natureza e a sociedade, sabem o que é o bem e o mal, e as palavras - parece-me – são deles e só deles. Sabem tudo e por isso são uma espécie em vias de extinção: sabem tudo até morrerem de não saber nada. Mas isso não é pensamento deles; por enquanto dão beijinhos e soletram palavras pegajosas que se desfazem em longos:"ohhhh, tão romântico." Dizem tudo de peito cheio; um para o outro são assim

 

- Se te amo?

 

- Sim, se me amas...

 

- Porque é que perguntas isso?

 

- Porque gostas de mim por amor, mas gostas de outras.

 

- Sim, mas por amizade. Qual é o stress?

 

- O stress é que gostas de outras e não devias.

 

- Nem por amizade posso gostar?

 

- Não, nem por amizade nem por ódio.

 

- Então só posso ter sentimentos por ti?

 

- Sim.

 

- Está bem.

 

Prendem os sentimentos com correntes apalavradas, mas o que é que eles sabem? Sabem que nesta ponte há um berço de pequenas certezas, sabem que para sempre é mais bonito do que dia sim, dia não. Não sentem o peso das palavras e isso torna-os queridos, adoráveis. Ficam adoráveis naquela ponte onde um carro passa, um homem corre e um miúdo pequeno anda de bicicleta com rodinhas; e eles no "amo-te, amo-te, amo-te". Aquele casal de putos pára aos beijos, pára nas palavras, pára na paixão, sem saberem que são anteriores ao amor. Param queridos naquilo que amanhã é um beijo, depois de amanhã um soluço e no ano seguinte uma recordação. O mundo passa por eles a cada beijo, a cada jura, "a cada trago teu" e eles tornam-se queridos a proteger o seu amor. Mas depois disso tudo vem a parte chata: a parte que a paixão não acompanha, aquela parte que o homem que corre já não apanha.  

 

Pedro Ramalhete

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O ânus da questão

por cincodiasuteis, em 25.07.14

Dizem os humoristas portugueses que há dois assuntos sobre os quais têm dificuldade em falar: futebol e religião. Sobre religião falaremos noutro dia (embora no meu caso, futebol e religião sejam a mesma coisa).

 

O Sporting finalmente conseguiu lançar a Sporting TV. Infelizmente não a lançou pela janela. Lançou-a mesmo nas grelhas de canais dos dois principais operadores cá do burgo. A piada está no facto de ver alguns daqueles que criticavam o facto de o Benfica ter um canal agora estarem entusiasmados por também terem um. Diz-se que quem desdenha quer comprar, mas neste caso nem é verdade. Não há subscrição.

No outro dia, parei uns (poucos) minutos no canal. Estavam a fazer uma entrevista ao Carlos Lopes. A entrevistadora estava com um vestido verde alface, tornando-se, assim, a personalidade mais ecológica da televisão portuguesa. Seguida bem de perto pela Maria José Valério. Para além disso, os braços do Carlos Lopes desapareciam do plano sempre que ele mexia os braços. Ainda mudei para o canal seguinte para ver se eles estavam lá, mas não. Ainda consequências de Chernobyl, provavelmente.

 

No dia do lançamento do canal, o presidente do Sporting disse que não iriam, nem queriam transmitir jogos. No dia seguinte, a Benfica TV estava a transmitir o jogo do Sporting. A piada está feita. Esta é uma das características que me faz não gostar do Bruno de Carvalho. As piadas estão sempre feitas depois de ele falar. Lembro, aliás, aquela brilhante declaração em que Bruno Carvalho deu a entender que o Benfica e o Porto eram duas nádegas frente a frente e que do meio só saía vento malcheiroso. O meio que ele diz chamar-se, “na gíria”, ânus. Na gíria, diz ele. Eu nunca votaria num candidato que não sabe que ânus não é gíria. Mas isso sou eu que levo o ânus muito a sério.

 

O Sporting não tem um pavilhão próprio para as modalidades, mas tem um canal de televisão cuja ambição ninguém sabe qual é (só se sabe qual não é). É como ter uma sala de aulas cheia de computadores de ponta ligados à internet, mas chover lá dentro. Não sei se o canal vai dar receitas – serão poucas ainda assim. Só do contraído mercado de publicidade -, mas sei que é uma prioridade estranha. Mas que seja assim. O Bruno de Carvalho que nos continue a dar música. Afinal de contas, depois dos 5 violinos, alguém no Sporting tinha que o fazer. É aqui que está o ónus da questão. Ou o ânus. Como preferirem.

 

Francisco Mendes

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Kimye, um capítulo na vida do Rei

por cincodiasuteis, em 25.07.14

Pouco se falou de Yeezus, a explosão do ego de Kanye West.

 

Foi sombrio, impulsivo, afirmativo – digo eu -, mas para os demais pareceu ser só um álbum e dos desnecessários; menosprezou e reduziu-se a qualidade de West a um videoclip do mais azeiteiro e vulgar que há (Bound 2) e muita gente não foi capaz de ir para lá da aridez que é o primeiro contacto com o álbum. Compreensível na medida em que Kanye assumiu Kim Kardashian como a sua musa e que este Yeezus "vai ser para ver aos olhos dela." Pode-se dizer que por ser assim se torna num álbum superficial, desinteressante e oco, mas Yeezus é tudo isso e muito mais: é o menino profeta de um hip-hop por vir e é uma fusão entre artista e musa, num cenário de feira das vaidades (I Am a God). 

 

Se por um lado a musa podia ser melhor, por outro o álbum parece perto da perfeição, sendo que não vai demorar muito até percebermos que a obra fica e a musa vai. Ame-se pois a obra! O que interessa no Mr. West não é o que diz, nem com quem dorme, mas sim a sua inesgotável pujança artística – o Power de um Monster sagrado (massajemos-lhe o ego com frases destas, à la Assunção Esteves).  Venham musas, mentores, discípulos que o Kanye dá-lhes sempre quinze a zero e se não acreditam venham ler esta frase em Setembro quando ouvirem o sétimo álbum do rei (mais uma obra-prima, esperamos).

 

Mas o que é que existe entre obras-primas? A silly season - ela está no meio de nós. Portanto, enquanto Setembro não chega vai-se falando de coisas que não interessam nem ao menino Yeezus, e então já se fala numa separação. Aquele casamento, na verdade, parece mais show off do que matrimónio e segundo consta, chegados ao quinquagésimo oitavo dia após a união (ontem), já se diz que Kanye evita o contacto com a conjugue. É normal? Claro que é: a tesão foi-se toda naquele álbum, mas menos mal: fez-se arte.

 

Muito se vai falar deste divórcio e Kim + Kanye não é mais = a Kimye, mas não baixemos os braços: teremos sempre Setembro!

 

Pedro Ramalhete

 

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O meu almoço - ou uma crise conjugal

por cincodiasuteis, em 25.07.14

Era uma mesa para uma pessoa; enquanto esperava que a limpassem, pus-me a ler António Lobo Antunes. Demoraram mais do que o normal. Na toalha de papel eu não escrevi as migalhas, nem a chávena de café. 


os meus olhos como o ocaso de um incêndio, o meu irmão ficou sem casa, não conheço as circunstâncias, não sei contextualizar, resolver um só problema já é difícil, o meu irmão vem cá para casa, a minha mulher nunca usa a sanita a seguir, o cheiro a lixívia perturba mais os olhos e a boca do que perturba o nariz, curioso, não é?, farto de ouvir é curioso, farto de ouvir distância aqui ao pé, não aguento mais este cheiro, parece que a minha voz resulta de uma fricção que também me produz lume na goela, os meus olhos como o ocaso de um incêndio, tudo por causa de tanta lixívia, noutra casa o meu irmão defecou por engano no bidé, ainda hoje nos rimos disso, uma história para animar jantares de família, se, mas, de qualquer forma, não são coisas que se esquecem, não é por aí, a minha mulher lava as mãos cinquenta vezes ao dia, toda a superfície da casa conhece muito pano, não temos relações sexuais desde que me recusei a tanto procedimento, preliminares com frascos e algodão, não há pele que se distinga do mármore, onde comem um comem dois, ele tem o meu sangue, vi-o a trocar a sanita pelo bidé, eu partilhei o drama, não é qualquer um, não é um estranho, não são coisas que se esquecem, claro que hoje nos rimos disso, mas na altura éramos crianças, ela nem me ouve, todas as paredes insistem em ser brancas a um palmo do meu nariz, insolentes, espero um telefonema, só consigo aguardar em boomerang, o que me cansa, do sofá à mesa do telefone, espero um toque, uma vibração, fui-me habituando a que o murmúrio de uma máquina precedesse sempre cada movimento do quotidiano, e também lá um fogão murmurou, jantávamos em casa da minha tia, o garfo do meu irmão tocava a comida com preguiça e desdém, como os nossos lápis-de-cor tocavam aqueles livros cujos bonecos perderam a pigmentação entre contornos pretos, enquanto a cara dele se tonalizava toda de comida de hospital, para mim ele era mais um desses bonecos do livro, por sorte não lhe enfiei um lápis num olho, ele é meu irmão, é certo que nunca houve um churrasco numa casa, minha ou dele, nunca houve piscina nem miúdos, uma ocasião qualquer para contar esta história engraçada, mas ele é meu irmão, tenho esta obrigação, onde come um comem dois, ouves-me?, lá ganhou coragem, a voz pediu licença às outras, ergueu-se da nuvem de ruído que ao contrário dos insectos ninguém sacudia, a minha tia apontou-lhe o caminho da casa de banho, já podias ter dito, rapaz, ele seguiu com os olhos que não eram mais do que dois dos nossos berlindes encaixados sobre o nariz, ser inteligente num corpo não é ser olho à vontade, correu cego para a casa-de-banho, para que serve aquela porcelana?, algum dia um acidente, está-se a ver, tão perto e sem utilidade, não são coisas que se esquecem, eu partilhei o drama, claro que hoje nos rimos disso, é uma boa história para animar jantares de família, se, mas na altura éramos crianças, é meu irmão, abre-se o sofá, cá nos arranjamos, onde dorme um dormem dois, não, no chão, o chão cura, faz bem à espinha, diz ela enquanto devora esferovite, a minha mulher devora esferovite, ela devora esferovite, ela devora esferovite… lisboa, 25 de Julho de 2014 Eduardo Pinto Silva? Eduardo Silva... 

 

Era uma mesa para uma pessoa; sobre a toalha de papel, além daquilo que é costume, as migalhas e a chávena de café, quis deixar a conta; assim assegurei que, para quem viesse a seguir, eu não seria mais do que um simples homem que pediu um bitoque. 

 

António Trindade Vieira

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Lobotomia

por cincodiasuteis, em 24.07.14

Quero dedicar esta crónica a todos aqueles que amam verdadeiramente as crónicas. Aqueles que seguem as transmissões televisivas de futebol certamente que já entenderam onde é que isto vai desembocar. Para os mais leigos na matéria, estou a adaptar uma das frases mais ditas por Luís Freitas Lobo durante as transmissões televisivas do Mundial de Futebol. É verdade que Luís Freitas Lobo criou um estilo. É ele. Não há ali nenhuma personagem. Ele, tal como o próprio afirma, “ama verdadeiramente o futebol” e não tem pejo em mostrar esse entusiasmo na linguagem repleta de metáforas, alegorias, comparações, descrições, personificações, hipérboles ou muitas outras figuras de estilo. São tantas, aliás, que só as edições Europa-América é que poderiam resumir o estilo loboniano.

 

Já estávamos habituados a ouvir frases como: “aí vai Nico Gaitán. O jogador que faz do espaço de uma cabine telefónica um latifúndio”. No entanto, no Mundial de Futebol esteve particularmente inspirado ou não carregasse dentro de si o entusiasmo em forma de tensão arterial elevada que a maior competição de futebol do Mundo proporciona a quem “ama o futebol acima de todas as coisas”, como o próprio o diz. A minha crítica não vai ao estilo dele. Vai ao exagero. Quando há demasiada emoção, falta racionalidade. Isso aconteceu demasiadas vezes. Ao ponto de eu estar mais atento à forma como ele dizia as coisas do que ao jogo propriamente dito.

 

Luís Freitas Lobo gosta tanto de futebol que não consegue dizer mal de nenhum jogador. Em que circunstância for. Mesmo que haja uma entrada violenta. Ele consegue dizer que é para cartão vermelho, mas mais tarde ou mais cedo vai acabar por desculpar o jogador dizendo que “não teria intenção” ou “as condições do campo estão difíceis”. Afinal de contas, são eles que alimentam este amor lunático de um dos mais conhecidos comentadores de futebol portugueses. Isto passa-se também quando avalia a capacidade de um jogador. São todos acima da média, o que faz com que a média no futebol seja a coisa mais estranha da Matemática. Se Luís Freitas Lobo controlasse as entradas no Ensino Superior, toda a gente estaria acima da média. Mesmo em Medicina. Se por alguma razão o jogo está a ser aborrecido para o mais comum dos mortais, eis que ele nos diz que ao nível táctico está a ser perfeito. Isto porque o nível táctico é como Nossa Senhora de Fátima: só alguns é que a viram, mas já todos ouvimos falar.

 

Apesar de tudo, poucos são aqueles que conhecem tantos jogadores como este senhor. Ele conhece jogadores do Sri Lanka ao Burkina Faso. É um apaixonado por aquilo que faz e ninguém pode ser condenado por meter paixão no seu trabalho. No entanto, deixo aqui a receita para que seja na dose certa, pois ele está a falar para pessoas que não sentem, nem pensam o futebol com a intensidade com que ele o faz. Para eles, se cair em exageros, passa só por ave rara. De resto, impecável.

 

Quero agradecer aos meus pais por eu ter nascido e ter tido o privilégio de escrever esta crónica.

 

Francisco Mendes

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Homem do Lixo

por cincodiasuteis, em 24.07.14

Não se parece importar. Olham-no de baixo a cima, dizem-lhe coisas irreproduzíveis, enxotam-no como um animal. A vida que lhe negaram fê-lo ter o nome que tem, mas agora não é menos feliz por isso. Não traz amigos, nem vem de camião verde e é, nos dias que correm, o mais legítimo homem do lixo.

 

O coro das velhotas, ao vê-lo passar, diz que foi a crise que o tirou do caminho.

 

As mães preocupadas culpam as drogas.

 

Na verdade, o Homem do Lixo é assim por idolatrar pequenas transcendências; enfeita-se com os nossos desperdícios e enamora a surpresa que lhe é um saco de plástico cheio. Porém, não se pense que come o que lá deixas, nem que veste o que já não te serve. O Homem do Lixo alimenta-se da caridade, portanto o que o faz andar de caixote em caixote é a estética – também ele procura um entretém fácil. Geralmente, quando o oiço a passar também eu me perco naquela busca: “será que vai mexer no saco que lá deixei? E se mexer o que é que há no meu desperdício que o possa fazer feliz?” Eu não sei, mas ele costuma encontrar. Há sempre algo que o prende e não desilude. E era bom que maior parte da vida das pessoas fosse assim, mas há sempre uma desilusão, uma pequena falha que seja e nós esmorecemos. É aí que ele se distingue de nós: não se agarra a males maiores porque vê o lado bom das coisas pequenas e aceita o mais acessório e descartável, e nesta trascendência esquece-se de que à sua volta há uma sociedade triste.

 

São cada vez mais: de todas as idades, géneros e humores. Durante muito tempo pensei que eram drogados, desistentes ou párias deste portugal. Agora gosto de acreditar que são pessoas de outra fibra. Que não é uma fibra normal, nem anormal: é uma fibra vadia. Amanhã vai chegar a hora da recolha e o  Homem do Lixo - venham-me com as desculpas que quiserem - vai continuar a ser último herói urbano.

 

Pedro Ramalhete

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O mimo e o pregador

por cincodiasuteis, em 24.07.14

1. “As palavras valem pouco; os gestos são mais importantes.”

Gosto de reparar neste lugar-comum. É importante falar da distância entre aquilo que é prometido e aquilo que é feito (não é uma preocupação menor); mas, quando se diz isto, costuma haver, além desta última, outra ideia na cabeça das pessoas: as palavras são inacção; e é muito curioso dar por ela no Facebook, onde há tanta partilha de sentenças, como aquela que dá o mote a este texto, em molduras floridas e cintilantes. Lá tudo é palavra (no sentido largo de palavra).
Partilha-se uma frase no Facebook; é uma palavra ou um gesto? O cronista pode ser acusado de preguiça por levantar uma questão sem propor uma resposta, mas ser coerente pode dar ainda menos trabalho. 


“De que valem as palavras? Os gestos são mais importantes!”


É a teoria e é a prática – uma divisão de que as pessoas gostam e da qual eu sempre desconfiei, principalmente porque passado um tempo confunde-se teoria/prática com inacção/acção. De onde vem a ideia tola de que as palavras são inacção ou uma fina camada de acção que esconde a necessidade de uma acção maior?

A palavra tornou-se inimiga da diligência.
“Uma imagem vale mais que mil palavras.”
Entretanto um provérbio deturpado. Mais confusão: um mimo parece-lhes melhor do que um pregador. Confiam no mimo – ele está a fazer…

2. Tirem os olhos do computador e olhem para o céu, para o verso mais bonito de sempre. “No princípio era o Verbo.” (João 1:1).
Porque não há a palavra de Deus nas aulas de Semiologia? Aliás, porque não há a palavra de Deus na universidade?

 

António Trindade Vieira

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A voz

por cincodiasuteis, em 23.07.14

1. Os monumentos da cidade estavam diferentes. Falou-se numa pintura - e há olhos que ainda hoje vêem assim, alguns mandatos depois. 
Os monumentos da cidade estavam diferentes, sim, disso ninguém duvidava, mas o engenheiro da autarquia não percebia o porquê.
"Acho que há uma chuva que faz isto aos edifícios; é uma chuva rara. Deixemos, no entanto, que eles pensem no nosso cuidado."

O engenheiro tinha razão numa coisa: não era uma nova pintura, nem o seu oposto, um desgaste da velha pintura. Era uma espécie de véu que não se via, mas dava-se por ele.

Os mais esotéricos, ou simplesmente sonhadores, sentiam este fenómeno em todas as coisas: nas árvores, nos pássaros ou, principalmente, nos estranhos. 

Sabe-se hoje que não foi trabalho da autarquia, nem um fenómeno meteorológico; houve manipulação, claro, e os dias de chuva ou de sol passaram a sentir-se de maneira diferente, mas o gatilho foi outro: alguém começara a cantar. 

 

2. Uma das cadeiras do curso tinha o nome da cantora, o que entusiasmou muito os alunos.
Na primeira aula, o professor, diante de um desenho do corpo humano, apontava para o diafragma com um ar sério; a turma reagiu com surpresa. Ele continuava a apontar e a falar; mas nem rosário de penas, nem nada. Os alunos acabaram a aula a conter o riso; já no corredor, então riram e riram agarrados à barriga... 

 

3. Ouve-se a voz mais forte e deixa-se de ouvir as outras - essas, sem alternativa, metem os papéis para ecos. 

Ouve-se aquela voz e queremos passar a ouvi-la no lugar do chilrear dos pássaros ou do som que faz um mármore à chuva.
Digno de enfurecer Deus, caso não tivesse sido Deus.

Este é um texto sobre Amália Rodrigues. 

 

António Trindade Vieira

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Depois de começar para onde ir?

por cincodiasuteis, em 23.07.14

Gosto muito de pensar no início de um texto, gosto que ele escorregue na língua de quem o lê, mas para que assim seja é preciso revolver a cabeça de uma ponta à outra, em busca daquilo que o texto será. É trabalhoso, implica olharmos para o que nos rodeia, para aquilo que nos preenche ou chateia e, sobretudo, olhar para as pessoas. Fazer um início é pensar incessantemente, é procurar com sede. Vou pensando: se calhar escrevo sobre o Benfica ou sobre a Ucrânia, se calhar faço uma meta crónica ou se calhar vou ao correio da manhã buscar uma merda qualquer.

Penso, penso, penso e não sei mais se existo, mas quem existe – naquele mundinho exposto pelo CM - e me faz pensar é o “Defecador em Série.” E por isso decido veicular o meu pensamento para aí – fico sempre pelo útil. A expressão por si só intriga-me: o que é um defecador em série? Acima de tudo é um homem - não muito bonito, diga-se. Mas é um homem que defeca muito ou um homem que defeca para lezar terceiros? Talvez as duas, com um nome desses é sensato que assim seja. Mas intriga-me mais existir uma pessoa com estofo para borrar a sua imagem e a propriedade dos demais de forma tão declarada. Não há pudor algum aqui, estamos a falar, claramente, de um terrorista, um devasso, um merdas que até pode ter bom coração, mas chegou àquela fase da vida em que caga no quintal dos vizinhos. Eu até imagino um encontro inesperado entre o “Defecador” e um amigo de infância há muito ausente; pergunta-lhe o amigo:

- Então, rapaz, como vai essa vida? O que fazes dela?
- Defeco em série.
- Mas.. em série ou não, toda a gente defeca, não é verdade?
- Sim, mas eu defeco para espalhar o pânico.

E ficamos por aqui, o resto fica à vossa descrição. O interessante está por escrever, porque de facto acabei por me perder do ponto de partida, e como me perco na escrita, perco na fala e no raciocínio. A minha escrita tem sido basicamente a minha vida: quero-me Joyce, mas acabo por abraçar estes defecadores. Tudo isto para dizer que gosto de inícios, de os pensar e trabalhar. Um bom início de um texto é o caminho que fazemos de mãos dadas com o mundo e com as nossas referências. Um início é o que o Roland diz - tudo isto para te citar, Barthes: “Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás – é o começo da escrita.”

 

Pedro Ramalhete

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