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Moda, Média e Mediana

por cincodiasuteis, em 23.07.14

Eu não percebo nada de moda. Ou melhor: o meu conhecimento da moda é um vácuo. Nada ao pé do que eu sei sobre o assunto ainda é alguma coisa. Eu só tenho três pensamentos no que à moda diz respeito. O primeiro é o de que não devemos fazer combinações com verde e castanho a menos que seja dia da árvore; o segundo é o de que as t-shirts pretas não fazem sentido. O preto atrai o calor, portanto só deveria ser usado em roupa de Inverno. A menos que venha com ar condicionado incorporado; o terceiro é o de que qualquer pessoa pode entender de moda. É precisamente sobre este terceiro que me quero debruçar um pouco mais aprofundadamente.

 

Toda a gente pode entender de moda como toda a gente pode entender de qualquer assunto? Não. Não se trata de uma daquelas afirmações que sugerem que se pesquise, que se veja, que se experimente e, a partir daí, se forme conhecimento. Toda a gente pode entender de moda sem fazer nada. Por duas razões: por um lado, por mais bizarro que determinado visual possa ser, alguém no Mundo vai achar piada. Isto é tão certo como ver uma bola no meio da estrada e contar os segundos para ver uma criança ou um cão a atravessar atrás dela. Não se pode dizer de modo absoluto que uma coisa está mal feita ao contrário do que acontece na maioria das outras áreas. Por outro lado, basta falar como um crítico de moda. E não me refiro a nenhuma espécie de linguagem corporal. Refiro-me mesmo à linguagem. Basta usar expressões em inglês como look, outfit, skinny, casual (dito em inglês), trashy, clean ou em francês como toillete, avant-garde, haute couture, démodé ou Eduardo Beauté. Todas estas palavras têm sinónimos em língua portuguesa, mas usá-las em estrangeiro dá um ar diferente ao assunto. É um pouco como aquilo que acontece com as pessoas que deixaram de correr e começaram a fazer running. Fugir é para cobardes, correr é para habitués (tomei-lhe o gosto), jogging é para ricos e running é para quem quer perder peso.

 

Apesar de não fazer parte do meu leque de interesses, eu não tenho nada contra a moda. Incomoda-me apenas que em galas como os Óscares se fale tanto dos vencedores como da forma como eles iam bem ou mal vestidos. Em vez de escrutinarem minuciosamente a forma como chegaram ao prémio, escrutinam de forma minuciosa a forma como atravessaram a passadeira e subiram ao palco. Este hábito está tão enraizado que basta passar os olhos pelas redes sociais para ver como é disso que as pessoas falam na noite destas cerimónias. A moda vista por quem comenta fotos da red carpet. Já não é uma moda. É uma média daquelas bem medianas. Très chic!

 

Francisco Mendes

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Sempre bom é o novo, o eterno e o chato

por cincodiasuteis, em 22.07.14

Oiço Kate Tempest com a certeza de que chegámos à nova grande cena: poesia a um ritmo torrencial embebida por um hip-hop onde a letra se sobrepõe ao beat, o que acaba por ser um sentimento transversal a todo o circuito urbano – parece-me a mim que já não existe beat sem o dom da palavra. Tempest tem nas letras a sua existência, a arma de arremesso contra a apatia de uma geração dominada pela máquina e contra a inquietude do coração. Luta tanto contra esta apatia como quem fuzila; as palavras vão e vêm tão indiscriminadamente que as personagens acontecem à velocidade da luz, acontecem até não serem mais do que perguntas. E é isso que me interessa num álbum de hip-hop moderno; interessa-me um Pete, uma Becky ou um Marshall como pontos de interrogação - mais do que como estandartes de uma intervenção ou de uma revolução por vir -, num cenário de constante mudança onde a pergunta é mais definadora do que a resposta. O álbum não se chama Everybody Down à toa; o título sugere decisões, indecisões, inconstâncias, ansiedades e nós ficamos neste tão irónico impasse: ou nos baixamos ou erguemos os braços para apanhar as balas. É assim, com a Kate, que se começam a construir os arquétipos do que somos hoje em dia.

Do outro lado da nova grande cena existe o bigger than life ou, se quiserem, aquilo que está em nós e para além de nós, ao que parece desde sempre: Arcade Fire. Esses oiço com a certeza de que são a minha melhor banda, o meu melhor concerto, a minha melhor música. É presunção dizer que o que eles fazem é da família do que eu penso, mas dá-me algum conforto que assim seja. Não há melhor afirmação de uma obra musical pop como Reflektor, o maior álbum deles – se é o melhor ou não isso fica para outra discussão. Dividido em duas partes: uma primeira abstracta e dançante onde vamos tacteando um universo que urge em existir e uma segunda parte que faz amor romântico com o épico – a tal parte onde encontramos esse colosso Afterlife. Em concerto personificam o seu próprio universo: tudo é épico e tudo é cor; o trabalho cénico, a encenação e o Win a cantar para a Régine é só a maneira de eles serem.

Às vezes sinto necessidade de pedir desculpa ao mundo por não ter paciência para o Eddie Vedder nem para o que ele diz, nem muito menos para as bandas sonoras banais que ele faz para filmes menores. Seria um pedido de desculpa que absolvia o hater que há em mim, mas de falta de absolvição está o mundo cheio. Prefiro a redenção por caminhos mais electrizantes, menos concretos e que transcendam o simples comentário político. O fixe na música não é sermos a pomba da paz ou a incoveniência que agrada aos não-abnegados. O fixe na música é podermos dançar o que somos com total noção do mundo. O fixe na música, verdade seja dita, é podermos todos gostar do que quisermos, mas para mim Pearl Jam e isso? Uma seca!

Perdoem-me, mas eu sou assim: prefiro a sugestão à intervenção.

 

Pedro Ramalhete

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“Vira à esquerda… A outra esquerda!”

por cincodiasuteis, em 22.07.14

Há um discurso muito popular e fácil que é o de criticar os Governos que se sucedem em Portugal. Eu consigo compreendê-lo. Não me recordo de nenhum que tenha feito um trabalho brilhante recentemente. No entanto, há coisas que é preciso analisar mais profundamente. Mais do que a qualidade escassa dos Governos, preocupa-me a qualidade escassa das oposições. A razão é simples: o futuro Governo está na oposição, por um lado. Por outro lado, é preciso uma boa oposição face a Governos maus. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a abstenção é um castigo maior para a oposição do que para o Governo. Preferir não votar a votar em alguém da oposição significa uma de duas coisas: ou as pessoas não acreditam que a oposição valha os votos, ou são completamente indiferentes à política, o que, a meu ver, é responsabilidade maior de quem está na oposição do que quem está no Governo (ainda mais quando os Governos são maus e, desta forma, a tarefa está bastante facilitada).

 

O maior problema da oposição em Portugal é a divisão constante a que frequentemente se sujeita. O caso mais recente é o da guerra interna pela liderança do PS. Com a lavagem de roupa suja que vai dentro do partido, quando for escolhido o líder, como esperam que as pessoas olhem para ele? Quantos inimigos vai ter logo à nascença? É como demolir uma casa aos poucos no Verão e esperar que não chova no interior da habitação durante o Inverno. Dir-me-ão que a isto se chama política. Pois bem, é óbvio que a política traz sempre a luta do poder consigo agarrada, mas não deveria passar a ideia de fragmentação para fora. É a diferença entre ter classe ou não ter. É como arranjar rixas na rua e achar que é um general de guerra. Não é a guerra do PS- é a rixa do Partido Socialista.

 

Mais à esquerda, há as mil e uma zangas, fragmentações e desuniões que fazem com que a esquerda portuguesa seja a coisa mais esquizofrénica que existe. Por um lado, não tem estabilidade existencial. Por outro lado, empurra com a barriga a responsabilidade de assumir qualquer responsabilidade. No fundo, são como aqueles treinadores de bancada que dizem como é que a equipa devia estar a jogar, chamam nomes ao árbitro e no final ainda se chateiam com o vizinho do lado mesmo que seja da mesma equipa.

 

É este o cenário que, apesar de ir votar sempre, me faz nunca saber em quem votar. Não há ninguém que verdadeiramente me agrade tirando o branco (com minúscula para não haver confusões). Pode ser que um dia a esquerda aspire a mais do que aspira hoje em dia. Não é difícil. Basta aspirar a alguma coisa. Pode ser que um dia não haja aquela sensação de falar na esquerda portuguesa como uma pessoa pouco lúcida a dar indicações a um taxista: “Vire à esquerda. Não…Não é essa esquerda. A outra esquerda!”.  

 

Francisco Mendes

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Números (outra ficção para adiar a crónica)

por cincodiasuteis, em 22.07.14

Lá fora havia biscoitos, café e conversas com espacinhos para preencher.

- Muitos daqueles que aqui estão queixam-se da falta de tempo para escrever os seus bons livros.

Então o orador perguntou as idades dos poucos escritores que ainda estavam na sala; durante alguns segundos o seu corpo inquietou a plateia - se ele estava só a pensar, para quê aquele corpo?

Lá fora havia biscoitos, café e conversas com espacinhos para preencher - importa lembrar.

- Em média vocês já viveram 15 000 dias.

Na sala o burburinho aumentou.

Números depois, concluiu:
- Todos os números estão à mesma distância do infinito: o 3 está à mesma distância do infinito que o 10 000. Por isso acredito em Deus e não me surpreendo com a minha maldade.

Os poetas e os filósofos mexeram-se nas cadeiras.
Lá fora havia biscoitos...

António Trindade Vieira

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Morremos Todos, James Garner

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Uma rua estreita com árvores nas duas margens é o melhor sítio para se colocar uma esplanada, e acho de louvar que os restaurantes, cafés ou snack bares pensem assim.  Um bom momento de leitura ou um bom tango da caneta no papel tem de ficar grato a uma esplanada contemplativa. Depois parte de nós estender a contemplação ao domínio e ficarmos com essas esplanadas para nós.

Ontem não estava um grande dia ou, pelo menos, não estava um dia aceitável de verão; o vento arrepiava-me como um beijo no pescoço, o céu estava numa guerra sem lei entre o cinzento e o azul, a temperatura descia humidamente pelo meu corpo e acho que – para o bem da minha leitura - não chegou a chover. Digo que ontem não foi um bom dia para o verão, mas foi um bom dia para aquela esplanada na rua estreita com àrvores dos dois lados, mesmo  ao pé da minha avenida. E foi um bom dia para ela porquê?  Porque dias destes vestem bem uma esplanada que já é bonita por si só: acolhem a morte do James Garner e torcem para que a Emma Bovary  queira alguma coisa connosco – esplanadas corajosas.

Esplanadas destas recordam-se na retrospectiva de final de ano onde fazemos a lista das pessoas que morreram e dos feitos que elas fizeram por nós e é nessa altura que distinguimos os santos das pessoas que realmente interessam.  Ontem naquela esplanada, “morreu o James Garner”, disse-me a minha companhia em tom de saudade. Em tom de saudade essa companhia disse-me uma vez que tinha morrido o Mandela, o Garcia Marquez e o Paul Newman. Todos os dias numa esplanada morrem os sonhos, o dia e a noite.  A paisagem fica e no fim morremos todos, James Garner. 

 

Pedro Ramalhete

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Do latim genius

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Para já, nesta primeira crónica, uma pequena1 ficção: 


Camões inventou uma etimologia para a palavra génio, só porque lhe dava jeito para um poema. Os sábios que o leram, percebendo que a origem da palavra fora sabotada, chamaram muitos nomes ao poeta, todos eles acompanhados pela devida etimologia – “seu parvo, que vem do latim parvulu, isto é, insignificante!". E que classe! Nem a impetuosidade do discurso feriu cada origem etimológica! É curioso verificar, contudo, que nenhum deles lhe chamou “génio”, e não porque não soubessem que vem do latim genius.
O resto da história já se sabe: é a História a favorecer os intrujões.

Esta ficção é pequena por ter poucas linhas. Também há ficções que são pequenas por serem más - “não é lá grande ficção” - ou por serem mais factuais do que outras. Nos meus textos podem esperar estas três manifestações de pequenez; aliás, se toda a minha vida tem sido rica em pequenez, porque não partilhar isso com os outros? (Uma resposta possível: prometi não abusar do meu humor auto-depreciativo; cheguei à triste conclusão de que se trata de um mau humor auto-depreciativo.)
 
Pensando melhor (pensando melhor é dispensável escrever "pensando melhor" se aquilo que estou a fazer é escrever; na minha experiência escrever é pensar melhor), não me agrada a ideia de uma gota de ficção que torne o líquido factual que temos no recipiente-texto logo todo outra coisa, logo todo ficção, como se “ficção” pudesse ser definida como “o que não é 100% realidade”, “o que não é 100% líquido A” - devido ao seu grande potencial para contaminar, bastaria uma gota de B num copo de A para que aquele líquido deixasse de ser A e passasse a ser B; e, atenção, também vice-versa.a 

Quero antes ter a arte de descobrir, e de vos fazer descobrir, um terceiro líquido que se forma dessa mistura, um líquido C; e, no caminho, talvez até chegue à conclusão de que é o único ao meu alcance. 

Ainda não sei bem como vou escrever neste espaço. 

              
Apesar de não ser lá grande coisa, o que define a pequenez desta ficção é mesmo o número de palavras, e a prova disso é a necessidade desta longa nota de rodapé, que vos mostra uma cabeça pouca certa do que é uma crónica – e o desafio aqui é escrever crónicas.                

      a Como aconteceu com outras escritas, também comecei a perceber melhor a escrita jornalística com a ajuda destes líquidos e recipientes. Penso muitas vezes assim, como se estivesse numa lição de ciências de um programa infantil - não passa de um mero exercício mental, como é evidente.

(Lembrei-me agora de uma técnica de jornalismo televisivo, que me foi ensinada pela senhora professora premiada, a técnica do pirex com água, onde as fotos flutuam bem, elegantes e chocantes, bonitas e perturbantes, principalmente se se tratarem das fotos do filho falecido da pessoa A, que, por estar na televisão, tem pelo menos uma gota de B, ou seja, talvez até 
já se tenha tornado na pessoa C - e isso não nos leva a perguntar de que forma C sofre com a morte do filho de A, mas deveria levar, pois seria uma pergunta interessante.) 

Tente agora ensinar estes meus aparentes delírios ao seu filho e vai ver que ele ganhará logo o gosto pela escrita (ou então, mais provável, revelará alguma sensatez e afogará alguns dos seus melhores livros num balde com água - não vão eles abrir-lhe os olhos!) 

António Trindade Vieira

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O dom de ser Dom

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Confesso que acho bastante piada à forma como a Monarquia é tratada em Portugal. Quer pela ilusão dos monárquicos – quase como se vivessem numa bolha de actimel-, quer pelo olhar arcaico com que é olhada pelos republicanos – como se não houvesse muitas Monarquias em países considerados desenvolvidos ou como se o projecto republicano em Portugal fosse ou tivesse sido alguma vez um sucesso. Não me entendam mal. Não sou republicano, nem tenho pilosidade suficiente no bigode que me permita rodar as pontas para cima. Acho graça é às pessoas que têm a maior das descrenças quando se fala na República isoladamente, mas depois soltam uma gargalhada de desprezo assim que se fala na Monarquia como se a alternativa fosse outra.

A parte de que eu mais gosto é de ainda se falar de Monarquia em Portugal e lermos e ouvirmos expressões como “a casa real portuguesa”. Podia ser um mero exercício estilístico, mas não é. O Duque de Bragança (do famoso Ducado brigantino) faz uma tradicional mensagem de Natal aos seus súbditos (provavelmente chamam-se Tico e Teco), a “casa real portuguesa” ofende-se quando não é convidada para os casamentos reais (daquelas casas reais que existem mesmo) e chega a haver disputas em relação ao trono (não estou a falar de nenhuma sanita) como em qualquer boa monarquia: afinal de contas, quem é o verdadeiro sucessor ao trono da Monarquia portuguesa: D.Duarte de Bragança ou D. Nuno da Câmara Pereira?

A verdadeira ironia está no facto de haver um Príncipe em Portugal. Falo-vos do Príncipe do Ilhéu da Pontinha – um Principado situado a 70 metros do Funchal com 178 metros quadrados de área. Também ele é ridículo. Ainda assim, está mais perto de ser rei do que qualquer um dos outros.

A gota de água foi a recente visita dos novos Reis de Espanha a Portugal. D. Felipe VI (V de Portugal) e a sua mulher visitaram o nosso país e foram levados para o Palácio de Queluz pelo nosso Presidente da República, D. Cavaco Silva de Boliqueime. A justificação era a de que este era um local importante na História da Monarquia portuguesa. Se calhar, sou eu o único que acha ridículo que um republicano assumido receba um monárquico assumido num sítio importante para os monárquicos de um país republicano. Quase que dá a ideia de que está com nostalgia. Tendo em conta que o Cavaco Silva só é Presidente da República porque deitaram abaixo a Monarquia antes, isto foi algo como um amante ser apanhado pelo marido da mulher com quem estava e pararem para falar da mobília. Sem ressentimentos. Talvez da próxima vez, a visita de Felipe VI (V de Portugal) inclua uma paragem no Terreiro do Paço. Fica a ideia. 

 

Francisco Mendes

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