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Estrela, 8 de Janeiro de 1996

por cincodiasuteis, em 15.08.14

A água ferve à hora do nosso chá.

A rolha de plástico do saco de água quente lembra-me a chupeta do nosso bebé, ainda que maior e mais tosca, ideal para a boca dele agora, boca de onde ouvi que dispensava o luto por ti, nem ao menos um castanho ou um verdinho escuro. 

A rolha é de um plástico que apetece morder como o tapete da banheira; só a coloco no saco de água quente depois de entrar no quarto - antes fico no corredor a olhar para a tua fotografia até o vidro da moldura ficar todo embaciado.

 

Debaixo da malha sinto o relevo das flores na borracha, flores parecidas com as que ontem te deixei, com pena minha também de plástico, mas, como tu bem sabes, sofro muito das pernas para andar constantemente a caminho do cemitério.

Este casaquinho que fiz ao saco de água quente lembra-me aquele da nossa bebé, mas sem mangas e em castanho e verdinho escuro, ideal para o tronco dela agora, que está todo escanelado, em vez daquele vermelho desrespeitoso para com a tua memória.

Mesmo que o saco de água quente tenha agora um casaquinho mais novo que o teu pijama roto e de infante, preferia quando os meus pés frios se aqueciam com o frio dos teus.

Amanhã conto-te outro ritual de viuvez: o tapete cheio de boquinhas de plástico alinhadas, prontas a gritar de saudade, caladas pela porcelana escorregadia, esse tapete sempre na banheira desde o dia em que te desgraçaste todo, meu teimoso.


Este é um diário de viuvez aconselhado pelo Senhor Doutor. Foi escrito no bloco da coruja que tu trouxeste lá da fábrica. Nem sei quem escreveu; a certa altura a caneta por sua conta.


Alice

 

António Trindade Vieira

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Gostar Postumamente

por cincodiasuteis, em 15.08.14

As redes sociais, com o Facebook à cabeça, vieram dar mais visibilidade a um fenómeno intrínseco à natureza humana: ter pena e gostar da desgraça. Já toda a gente se apercebeu, certamente, da quantidade de pessoas que subitamente se tornam fãs de alguém que morreu. A quantidade de Rest In Peace, nalguns casos, é inversamente proporcional ao apreço que as pessoas tinham pelo trabalho do defunto.

 

Este não é um fenómeno novo. Já acontecia. É da natureza humana. Se assim não fosse, não havia espaço para o sensacionalismo, por exemplo. É até natural que assim seja. O ser humano é feito de emoções. Ainda assim, é mais do que emoções. Tem também ao seu dispor (ou deveria ter) a racionalidade para equilibrar os momentos em que estamos a sentir demais. Ter pena da morte de alguém seja pelas circunstâncias, pela idade ou pela morte em si é legítimo. Gostar a título póstumo é inútil.

 

No caso do Facebook, os imensos Rest in Peace aborrecem um pouco em determinadas circunstâncias, mas não há nada a fazer para além de desligar a rede social ou esperar que passe. Há muita gente que leva esses dias a queixar-se, mas acreditem em mim: vai acabar por passar.

Aquilo que me parece ultrapassar o limite do bom senso é fazer like em páginas de pessoas que faleceram recentemente. É verdade que até podiam ser fãs antes e simplesmente não ter feito like, mas isso torna o caso ainda mais sério. Foi preciso um ídolo morrer para lembrar alguém de que é fã.

 

O objectivo de fazer like numa página de alguém é receber conteúdo dessa pessoa. Se querem continuar em contacto, proponho que apaguem as luzes e acendam velas e entrem no Mundo das sessões espíritas (“ai que mórbido!”. Pois. Fazer like em mortos é que é revigorante).

Proponho que o Facebook crie um método para evitar que isto aconteça. Dou duas opções:

 

a)      Na altura da inscrição, o formulário conter a pergunta “gosta de mortos?”. Se a resposta for afirmativa, então não era possível inscrever-se;

b)      Onde diz “esqueceu-se da palavra-passe?” também dizer “perdeu a cabeça?”. Pode haver pessoas que reconheçam e carreguem lá. Essas pessoas também eram banidas. Este botão poderia servir para outras circunstâncias também.

 

Eu já fiz a minha parte. Expus o problema e propus soluções. Agora é a vossa vez. Podem começar por parar com isso, por exemplo.

 

Nota: encontrei o site de uma funerária que nos reencaminha para o Facebook. Lá, eles publicam fotos das pessoas que faleceram e pedem às pessoas para deixar condolências. Algo como “se queres que descanse em paz faz gosto; se queres que arda no Inferno, comenta”.

 

Francisco Mendes

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Ciúme

por cincodiasuteis, em 14.08.14

Imagino-te com outro num café.

Tu e ele, muito nervosos, a medirem-se, a fingirem um charme, a construírem um trincheira contra o desencanto.

Qualquer palavra, um dedo encostado aos lábios.
Qualquer palavra, um puxão para baixo naquela camisola macia de que tanto gosto.

Até a última migalha húmida desfazer-se, as boquinhas sempre fechadas, com uma mão à frente - a tensão dos dedos disfarçada por uma pose de meio mortos. O pensamento nestes gestos calculados e os olhos numa atenção sem ouvidos. Antes disto, até, os pedidos; atenção à gula e à grosseria! Só bolos a combinar com o casaco e a saia.

Nada pode falhar: as melhores piadas, os melhores comentários, as melhores referências...

No fim, já visivelmente cansados, dirigem-se ao carro dele. Sentas-te com uma coluna de co-piloto e uma cara que desencorajaria qualquer piloto.

Ele liga o rádio.
Na rádio, eu - a ler esta história.

Tu sais do carro à pressa, vens ter comigo e cais nos meus braços. Sinto-me aliviado porque a tua boca só sabe a trança.

 

António Trindade Vieira

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Crónica Dodot

por cincodiasuteis, em 14.08.14

Há quem diga que as minhas crónicas são sempre a criticar e a falar mal. Dizem que algumas delas até chegam a ser um pouco agressivas. Eu sou uma pessoa que ouve e, como tal, esta vai ser diferente. Esta crónica vai ser mais suave e cheirosa do que o rabinho de um bebé limpo por uma toalhita. Senhoras e senhores, apresento-vos a crónica Dodot.

 

Em minha defesa posso alegar sempre que é uma consequência do meu estilo. É mais fácil fazer humor com coisas erradas do que com coisas certas (para algumas pessoas também é mais fácil fazer amor com coisas erradas. Foi só esta. Prometo que me vou controlar). Tentem contar uma piada em que todos saiam bem na fotografia e vão ver como é difícil.

 

Isto não quer dizer que o meu intuito seja o de fazer rir as pessoas com as minhas crónicas. Quer apenas dizer que gosto de meter o dedo na ferida usando o sarcasmo e a ironia. Bem sei que “meter o dedo na ferida” pode ser, por outro lado, uma forma de tortura, mas apenas no sentido literal. Vulgarmente, temos a ideia de que os torturadores o fazem com a intenção de conseguir confissões. Aqui, eu dou-vos as minhas confissões sem hóstias, nem Ave Marias. O copo de vinho bebo-o antes. Posso ser acusado de tortura por isso?

 

Não sou também o senhor da razão. Nem o pretendo ser. Algumas das coisas que defendo já foram defendidas por outros. Não descobri a pólvora. Não se descobre uma coisa que já foi descoberta. Mas digam-me lá: não dá jeito encontrar a pólvora, quando precisamos de alvejar alguém? Não é tão brilhante como uma descoberta, mas dá-lhe uma utilidade.

 

Os temas que escolho são variados. Na verdade, o único raciocínio que faço para escolher determinado tema é apenas o de se tenho algo para dizer sobre o assunto. É por isso que falo de coisas que vão desde a actualidade até a coisas em que eu reparo e penso na minha vida.

Na verdade, a única coisa que pretendo é divertir-me a escrever e, de caminho, aproveitar para ganhar alguma disciplina. A disciplina que me obrigue a escrever todos os dias. E isso tenho conseguido.

 

Estão a ver? Nesta até defendi uma pessoa – eu. Agora que já limpei o meu rabinho com uma toalhita, declaro-me inocente.

 

Francisco Mendes

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Nunca serei escritor! Era, claro, "ininterruptamente", e não "interruptamente", o seu antónimo. Corrigi o erro, mas de certeza que alguém lera o texto antes disso; outra pessoa que deixaria de acreditar no meu potencial (já escrevi sobre isso aqui).

Enquanto me preocupava com esse erro grosseiro, duas mulheres, acompanhadas de duas crianças, conversavam à minha frente.

- Tens de ir lá ver aquilo!
- E ela não se importa?
- Vais comigo. Não há problema nenhum. Chegas lá e ela mostra-te. É lindo!

 

Falavam de um piercing num mamilo.

As crianças não paravam de gritar em crioulo cabo-verdiano; como mal as entendia, a minha atenção estava toda naquela mama ausente cujo mamilo havia conhecido um gracioso metal, assim se embelezando para sempre.    

- Mas porque é que vocês fazem isso? 
- Perguntam-me várias vezes. Ninguém vê, é verdade, mas eu fiz para mim, para me sentir melhor.

Ainda assim mantive a pergunta: porquê? Aquilo interessou-me.
No meu colo estava o livro Anna Karenina, aberto nas páginas finais. Será que um brinco na mama livraria Anna da desgraça? Não me parece que fosse desagradar a Vronsky; mas o mais importante é que faria muito por ela!

As duas mulheres acabaram por mudar de lugar. Num banco mais à frente, longe do meu olhar, teriam outro à-vontade; talvez até mostrassem uma à outra as suas mais recônditas peças de joalharia. Será que viram na minha cara a nova Anna Karenina? Uma mulher cheia de encantos, agora com mais um, este longe da vista da sociedade russa, mas escondido no seu peito, a fazer coisas por si. 

Quando pensava de novo nos meus deslizes ortográficos (gralhas, afinal trata-se de um leitor de Tolstói), as crianças voltaram para perto de mim numa coreografia de dedos indicadores. Sentaram-se à minha frente: uma mais destemida, outra mais comprometida, ambas, contudo, a dirigirem-me caretas, a falarem-me num tom de reprimenda - a graça, para elas, é que eu não podia entender crioulo cabo-verdiano -, antes de começarem a rir muito, agarradas à barriga.  
Percebi rapidamente que se divertiam à minha custa. Deixei-me estar, sem esboçar reacção, forçando até uma certa passividade; depois tirei o caderno e comecei a escrever este texto, enquanto elas continuavam a fazer troça de mim. Mas agora, com o caderno, também eu me divertia à custa delas e das mulheres que as acompanhavam. Divertimentos diferentes: elas não podiam saber. Não me senti particularmente adulto - senti-me escritor.

 

António Trindade Vieira

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Ó Elvas, ó Elvas! Badajoz à Vista

por cincodiasuteis, em 13.08.14

Em Portugal, há dois tipos de patriotismo. O patriotismo normal – aquele em que tudo é motivo para soltar um urro forte em homenagem à pátria – e um fenómeno a que eu decidi chamar “neo-patriotismo”. O neo-patriotismo é o patriotismo daqueles que passam a vida a queixar-se de Portugal e dos portugueses, mas que têm imenso orgulho em ser portugueses quando há uma alma lusitana bem-sucedida lá fora.

 

Eu não sou nenhuma das duas. Não me interpretem mal: não sou antipatriota. Não gosto de que o nosso país seja enxovalhado. Mesmo que seja em futebol. Pela Alemanha, pelos Estados Unidos ou pelo Ruanda. Simplesmente, não fico extremamente feliz por um português conseguir este ou aquele feito. Nem uso a nacionalidade, em caso de empate, para decidir quem tem mais mérito em determinada área. Também não gostei de Os Lusíadas (e até acho um crime que se desconheça o Camões lírico em comparação com este livro).

 

O neo-patriota não gosta de determinado jogador ou treinador, porque joga na equipa rival à sua. No dia em que é transferido para uma equipa do estrangeiro, o neo-patriota afina a garganta e entoa cânticos ao seu novo herói. Da mesma forma que ouve toda a música portuguesa que teve algum destaque de alguma entidade estrangeira. Se houver neo-patriotas na Coreia do Sul, ainda hoje ouvem o Gangnam Style em loop.

Recentemente, no caso do BES, a preocupação do neo-patriota é a imagem que o país passa lá para fora. Não vale a pena pensar em quem vai pagar. É mais importante magicar sobre o que é que os iluminados estrangeiros pensam sobre Portugal.

 

O caso que mais estranheza me causou aconteceu quando o Governo aconselhou os jovens portugueses a emigrar. Os neo-patriotas viram isso como um atentado à pátria e um reflexo do estado decadente do país. Se eu fosse neo-patriota, veria isso como a auto-estrada sem portagem para cair no goto dos restantes neo-patriotas.

 

Posto isto, informo todos aqueles que se identificaram como neo-patriotas que escrevi este texto em Badajoz, enquanto esperava por caramelos, portanto calma com as críticas que isto está bom. Agora já se faz tarde. Vou fazer a mala e voltar para Elvas. Até já!

 

Francisco Mendes

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Muge em Festa, um retrato

por cincodiasuteis, em 13.08.14

Numa altura em que a televisão usa ininterruptamente e com orgulho as festas populares para entreter o emigrante e o tuga, eu próprio procurei, neste fim de semana, aventurar-me numa experiência do género, em Muge.

 

Muge é uma vila ribatejana onde para lá chegar é preciso aceitar que a cidade acaba. Rodeada por planícies longínquas e recheada por ruas a lembrar uma América interior, monta-se a festa no Rossio - esta zona peca pela demasiada poeira que se levanta à medida que o pé aquece. Na gastronomia: há pampilhos, o doce cujos recheio e massa se desfazem na boca apaixonadamente; as bifanas do Silas, que se não fosse pelo preço exorbitante seria a bifana mais extravagante e arriscada – pela positiva – que se faz nas redondezas de Lisboa; o pão com chouriço é o habitué destas festas, assim como o churro, a fartura e o algodão doce e nenhum deles falhou; a cerveja chega com o cheirinho dos grelhados e funcionam sem desiludir, mesmo que falte aquele toque divinal do Fernando (a tasca que serve as melhores cervejas da região).

 

Em termos de show: depois de um domingo entediante com a actuação balofa dos Chaves D’Ouro (parecia mais uma lição de marketing do que um concerto pimba) e de um fogo de artificio extenso e bocejante, chegou a segunda-feira das Cavalhadas e de Sergio Rossi. As Cavalhadas duraram tempo a mais e aborreceram as três ou quarto pessoas que assistiam, mas pela tradição o meu povo faz tudo. Para quem não sabe: Sergio Rossi é irmão de Romana, sobrinho de uma das Doce, aos treze anos já estudava música e desde muito cedo compõe, escreve e interpreta as suas músicas e com este percurso todo já tem quatro álbuns editados - informação dada em pleno concerto. O espectáculo deste "Delfim do Pimba" devia ter sido maior do que foi, devia ter arrebatado os corações poucos exigentes das ribatejanas solteiras e nem para isso serviu. Rossi espalha-se ao comprido porque prefere imitar a criar: reduz-se a uma cópia ranhosa dos artistas de sertanejo, deixa-se dominar pela veia azeiteira em vez de lhe dar frescura e novidade e, como se não bastasse, é cheio de si. Eu tenho muito pouca paciência para estes artistas que se têm em muito boa conta, quando no fundo desvalorizam o seu próprio repertório, ao tocar três vezes a mesma música durante o show, e assassinam clássicos sem arrependimento - que raio foi aquela versão de Sempre que Brilha o Sol?   

 

Numa breve nota, quero dar os parabéns à associação de festas de Muge de 2014 pela coragem e empenho para contornar a situação frágil que a comissão de 2012 deixou. Só lhes peço que em futuras festas, poupem o público a discursos enrolados, extensos e politicamente populistas, onde as palavras se confundem com a ira. 

 

No computo geral, destaco: a hospitalidade das boas pessoas, a beleza natural da vila e a sua disposição arquitectónica que pisca o olho à organização singela e minimalista do estado novo. Pela negativa: achei tudo demasiado pimba e demasiado morno. Faltou um artista que soubesse puxar pelo público e um trabalho visual mais ambicioso.  Cinco estrelas em dez.

 

Pedro Ramalhete

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"Três Cores: Azul", Krzysztof Kieślowski

por cincodiasuteis, em 12.08.14

O quarto do Tomás tinha um nome: não era, portanto, "o quarto do Tomás".

As quatro paredes, mas também o papel que forrava os móveis, as pedras do candeeiro, o cortinado semitransparente, o peluche dominante, uma pintura de uma criança um pouco distante, de costas, sentada num baloiço (um quadro adulto) - tudo isto tinha apenas uma cor.

Numa viagem de carro Tomás e os seus pais viram um arco-íris.

- É fácil ver o arco-íris nesta estrada, porque não há nada aqui que nos impeça de o ver.

O pai de Tomás, obcecado pela ideia de que acontecem coisas atrás dos edifícios, esquecera-se de explicar ao filho que um arco-íris é um fenómeno pouco comum.


Aquele arco-íris entusiasmara o Tomás, mas também os seus pais, que o incentivaram a escrever num papel as sete cores - crescer num quarto monocromático em nada havia perturbado a sua aprendizagem das cores.

Pelo caminho deixavam um risco que enegrecia mais o asfalto. 

Os pais soletravam cada uma; ele já tinha escrito seis - vermelho, laranja, anil (esta ocupou um bom tempo de viagem), amarelo, verde e violeta.

Passaram ao lado de um celeiro que interrompeu o descampado e lembrou-os da cor que faltava, mas Tomás já não teve tempo para a escrever. Pouco mais à frente o carro despistou-se, indo contra uma árvore de outra cor - uma árvore que, aparentemente, nem impedia o pai do Tomás de ver coisas. 


O novo quarto de Tomás, que se assemelhava ao arco-íris que vira com os pais, era antes habitado por uma família de ratos, o que obrigou um adulto, na altura ainda um estranho, a deixar um pó azul perto de um buraco na parede, junto ao chão.
Nunca uma cor causara a Tomás uma impressão tão forte como a daquele veneno.


Passados uns anos, Tomás, já adulto, teve uma crise de nervos.
Na clínica onde recuperou ouvia-se sempre a mesma música, ininterruptamente - era esse, aliás, o segredo da terapia. 

 

António Trindade Vieira

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Tertúlia Cor-de-Rosa

por cincodiasuteis, em 12.08.14

No outro dia estava a ver o jornal da SIC, quando, a meio, passam um excerto de uma entrevista à mãe do Cristiano Ronaldo, a Dona Dolores do fato-de-treino. Era uma entrevista feita pela Júlia Pinheiro e que ia passar no programa da manhã do dia seguinte. Vamos ignorar a parte de que publicidade e jornalismo devem ser opostos e centrarmo-nos no conteúdo do excerto. Eu gosto de me dedicar aos grandes temas.

 

Dona Dolores confessou que sempre quis ter um filho que fosse jogador de futebol e que já o Hugo tinha tentado (suponho que deva ser irmão mais velho do Cristiano Ronaldo), mas que lhe tinham cortado as asas. Afinal de contas, ainda temos que agradecer ao Ronaldo, porque, se ainda não fosse ele, provavelmente a Dona Dolores iria continuar a ter filhos até conseguir. É uma questão de probabilidades. Arriscávamo-nos a que a dinastia Aveiro fosse pior do que a dinastia Carreira. Não se esqueçam de que por cada jogador como o Cristiano Ronaldo sai uma cantora como a Ronalda (é, desde logo, um belo nome artístico. Dizem que os homens dão todos um nome ao seu pénis. Fica aqui uma sugestão de nome para as partes íntimas femininas).

 

No livro que lançou recentemente, a Dona Dolores diz que ponderou abortar Cristiano Ronaldo. Eu não consigo imaginar como seria a minha vida agora. Nem eu, nem o Belmiro de Azevedo que, certamente, não saberia o que fazer às bandeiras todas de Portugal que o Continente não iria conseguir vender.

 

Do resto do excerto, destaco o facto de Dolores Aveiro ter dito que, quando o filho joga mal, ela lhe diz que ele “não jogou nada à bola”. Que era aquilo que todas as mães deviam fazer. Se assim fosse, a avó do Passos Coelho há muito que já tinha dado com o jornal no lombo do pai do Primeiro-Ministro.

 

Esta peça é a segunda em que vejo a Júlia Pinheiro a aparecer no jornal da SIC no espaço de um mês. Se isto não é silly season, então não sei o que será. Eu, pelo menos, gosto de pensar que isto não passaria no resto do ano. Ainda falta algum tempo até acabar Agosto. Se o Donaltim não aparecer, será uma desilusão.

 

Francisco Mendes

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Robin

por cincodiasuteis, em 12.08.14

Isso de morrer é diário. Acabamos todos por sentir a perda e todos os dias alguém tem de passar por isso. Ontem foi a vez da minha geração perder alguém muito querido ao seu imaginário infantil. O Robin Williams morreu a chorar.

 

Era um actor exagerado, espampanante e se o realizador não fosse bom havia a tendência de dissolver o filme naquela histeria toda. Nunca me deixei deslumbrar por ele, mas havia qualquer coisa de magnético, comovente e enternecedor nos filmes dele – e por mérito do próprio lá nos envolvíamos naquelas personagens. Sabiam entreter aquelas personas de Williams, que pareciam trabalhadas para ser uma constante transversal a todos os seus filmes: espelhava valores familiares, proclamava o heroísmo através da trapalhice e a irreverência era performativa e fazia rir estupidamente porque é chato o contrário. Agora sabemos que aqueles olhos falavam de tristeza. Sempre me deu a ideia de que ele era um miúdo que envelheceu sem crescer e isso só pode ser maldade da ironia: três filmes em que entrou abordam esse tema: no Jack  de Francis Ford Coppola é um miúdo cujo corpo cresce sem parar, em  Hook, a deprimente aventura de Steven Spielberg, faz de Peter Pan e em Jumanji de Joe Johnston é um rapaz que perdeu a oportunidade de crescer porque fica preso num jogo de tabuleiro. Não precisou de crescer, teve o seu tempo e marcou quem teve de marcar. Eu só o conheci a fazer piadas e essa foi a receita nos seus filmes e na sua vida: rir, rir, rir até gastar os olhos.    

 

O que mais mexia comigo era o Jumanji, o mais divertido o The Birdcage e o meu preferido o The Fisher King. A melhor homenagem que lhe posso fazer é recomendar estes três filmes, porque quem não os viu não teve infância. 

 

Pedro Ramalhete

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