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Pingue-Pongue-Pungue

por cincodiasuteis, em 30.09.14

Campeões! Portugal é campeão europeu de Pingue-Pongue (bem sei que eles dizem que é Ténis de Mesa). É um feito histórico e muito bom para levantar o moral daqueles que dizem que os portugueses não são bons em nada. Ainda assim, eu já esperava este resultado. Para nós, tudo é chinês. Pelos vistos, até o Pingue-Pongue.

 

Nunca tinha visto era tanta gente entusiasmada com Pingue-Pongue. Eu não sabia, aliás, que o Pingue-Pongue podia despertar emoções tão fortes nas pessoas. Desde logo, à cabeça, com os comentadores portugueses do canal que transmitiu o jogo e que gritaram tanto que ainda hoje me dói a cabeça.

 

Esta vitória tem um simbolismo ainda maior pelo facto de ter sido frente à Alemanha e com Passos Coelho na bancada. Toda a gente deve estar recordada do Portugal – Alemanha em futebol e da Merkel a levantar-se sucessivamente a festejar os golos como se cada um deles fosse um corte do Governo português. Pois aqui está a vingança. É verdade que não chega para ir para o Marquês, nem para fazer muitas piadas políticas, mas também não convém irritar muitos os alemães, senão a taxa de desemprego aumenta.

 

Curioso é o facto de o Primeiro-Ministro estar a assistir ao jogo, enquanto se sabiam os resultados das Primárias do PS. Só é mesmo pena que Angela Merkel não estivesse ao lado de Passos Coelho para que, no final, os adeptos portugueses pudessem ter tido o prazer de gozar um pouco com ela. Ainda assim, eu percebo. Era demasiado arriscado. Se Merkel espirrasse, a bola devia sair disparada com tanta força que os jogadores portugueses nada poderiam fazer.

 

Em suma, foi bom. Conseguimos ser bem-sucedidos nalguma coisa com uma selecção portuguesa e não foi na única modalidade que enche as capas dos jornais. A festa foi bonita, mas, de certa forma, foi um déjà vu: Portugal, Alemanha e bolas pequenas. Acho que já vi esta história em algum lado. Não me peçam para explicar.

 

Francisco Mendes

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Gratidão

por cincodiasuteis, em 30.09.14

Um amigo queixava-se no outro dia da sua falta de gratidão; ele quer ser grato, mas não se sente capaz.

Se pelo menos conseguisse ser grato... 

De onde vem essa necessidade? Não são muitos a sentir o mesmo, desconfio, mas parece-me, ainda assim, uma necessidade interessante, sobre a qual valerá a pena falar aqui.

Conheço muito bem o desabafo - sinto muitas vezes o mesmo. Temos conforto e oportunidades, mas não temos vontade, alegria no coração... (Sim, a expressão é mesmo esta; não deixem de ler.)

Há um sentimento de culpa com ou sem gratidão; o que a gratidão faz é tornar essa culpa positiva, ou seja, aponta-nos mais facilmente o caminho da diligência.
A gratidão traz responsabilidade, mas também traz energia para responder a essa responsabilidade - experimentem e verão que ela faz algo no corpo.

(De novo: as expressões são mesmo estas; não deixem de ler. Sei que neste momento o leitor já se sentiu incomodado com o tom de autoajuda. A propósito, haverá uma boa literatura de autoajuda? Ou melhor: entre muita tralha não se encontrarão também alguns ensinamentos certos? Estamos demasiado mergulhados no cinismo para pensar claramente sobre isso. Pensar, pensar muito, pensar bem, é o que proponho. O mal é este: ou as pessoas aceitam qualquer ajuda ou não aceitam ajuda nenhuma - eu basto-me.)

Também queremos agradecer quando chegamos à conclusão de que talvez seja melhor reduzir o apetite. Tenho isto, mas não me preenche; tenho isto. mas não me basta; tenho isto, mas não me deixa suficientemente motivado. A gratidão treina-nos a saciedade. 

E não conseguimos agradecer porquê? Não sei. Não é uma capacidade comum a todos. Mesmo com esforço, com vontade, muitos não chegam lá. Como a fé? 
Uma pergunta que pode ajudar na resposta: agradecer a quem? Aos nossos pais? Ao Estado? Ao Sport Lisboa e Benfica? Também, também, mas, no limite, não lhes podemos agradecer o tempo que temos, a vida. E a natureza, essa, não tem ouvidos.

(Sim, a resposta é essa em que estão a pensar; não fujam, não deixem de me ler.)

 

António Trindade Vieira 

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Caixa Alfama

por cincodiasuteis, em 29.09.14
  1. O Festival Caixa Alfama aconteceu no fim-de-semana passado, dia 19 e 20 de Setembro. 

    Ha os concertos, sim, mas há um pouco mais: este Festival é um meio de conhecer a cidade pela atmosfera. Algumas coisas ficam de fora, mas há suficiente Lisboa no ar para que se fique com uma ideia. 

  2. Numa rua, a cima das nossas cabeças, conversas entre janelas:

    - Esta gente vai aonde?
    - Acho que é para ver aquela Gisela. Está ali no Magalhães Lima.

    E valeu a pena (Maria da Fé, exactamente) ouvir a Gisela João. A par de todas as euforias há quem desconfie, e muito, de Gisela João; para esses, proponho que façam o seguinte teste: enquanto ela canta fechem os olhos e tentem responder à pergunta: neste momento lembro-me mais do que vai acontecendo no meu peito ou daquilo que sobre ela se diz na imprensa? Não vale tapar os ouvidos, claro. 

  3. Ricardo Ribeiro, o meu fadista preferido da nova geração, surpreendeu o público com imitações mais do que competentes de alguns fadistas: Tony de Matos, João Braga, Rodrigo, até António Zambujo, que se lhe seguia no palco... Foi engraçado, muito divertido, sim, mas para mim foi mais do isso, para mim aquele momento de imitações foi mais uma prova de amor ao fado dada por Ricardo Ribeiro, e provas de amor com bom humor emocionam-me quase sempre; assim, quando toda a gente se ria, eu também me ria ao mesmo tempo que me esforçava para não me comover.

  4. Só comecei a gostar dos fadistas de que mais gosto depois de algum tempo, depois de um período de resistência em que chegava mesmo a dizer que eles me irritavam. Depois, por algum motivo, a música certa no momento certo, uma actuação ao vivo, acabou por acontecer fado no meu ouvido - por vezes o nosso ouvido é incapaz; como num bom livro, lembrando-me daquilo que Lobo Antunes diz, temos de entrar com a chave do fado e não com a nossa. Aconteceu com Ricardo Ribeiro, por exemplo, e voltou a acontecer agora com Carminho.

    O que foi aquilo? A certa altura já nem nos lembrávamos da tal atmosfera de Lisboa; era tudo a voz de Carminho, imensa, ressonante, superior...
    (Algumas pessoas dizem "eu nem sou de me comover assim, não sou de chorar"; eu, que sou de me comover, digo que nem sou de adjectivos, mas...)

    Olhem para o pescoço dela enquanto canta: sob a pele de Carminho correm os seus glóbulos feitos minúsculos portugueses inquietos.  

    Há um ano achava que Carminho era só uma beta que cantava bem o fado. Hoje digo a mim próprio: da próxima vez que pensares assim experimenta abrir a boca e deitar cá para fora aquela quantidade de alma. Mete-te no lugar, Toni.   

    Esperemos pelo seu próximo disco, quase, quase a sair, sabendo que Carminho é a voz feminina mais forte do fado. 

    Gosto de escrever o nome completo dos grandes.
    Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade. 
    Carminho é grande.

António Trindade Vieira

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O Jogo da Cadeira

por cincodiasuteis, em 29.09.14

António José Seguro demitiu-se, após a derrota nas Primárias do Partido Socialista. É um momento, de certa forma, triste para mim. A partir de agora, vou ter menos assuntos para escrever e isso deixa-me triste e indignado.

 

A verdade é que toda a campanha eleitoral ficou marcada por alguns escândalos dentro de um partido que se diz democrático. Pior ainda, no entanto, foi a lavagem de roupa suja que aconteceu em público. Os debates entre António José Seguro e António Costa tiveram momentos de nível muito baixo – daqueles muito próximos aos da Casa dos Segredos.

 

Uma coisa é certa: ninguém pode dizer que foi ao engano. Afinal de contas, se as eleições foram eleições Primárias, ninguém podia estar à espera de ver um debate de ideias elevado e maduro. Toda a gente sabe que quem diz é quem o é.

 

 O aviso ficou feito logo naquele episódio que aconteceu num comício em que Seguro interrompeu uma entrevista do (até aqui) autarca de Lisboa e tomou o seu lugar de entrevistado. Agora foi Costa que ficou com a cadeira de Seguro. Devia ser o jogo da cadeira.

 

Há uns tempo ouvi o Pedro Mexia dizer que António Costa era melhor porque sim, uma vez que a maioria das pessoas via nele maior capacidade, mas não o tinha justificado durante a campanha. Eu tenho uma visão ligeiramente diferente. Eu acho que os socialistas pensaram: “Depois de Seguro, António Costa. Porque não?”.

 

Os socialistas referem-se constantemente ao partido como uma família. Depois daquilo a que se assistiu, inclusivamente com confrontos entre defensores de Costa e Seguro (um pouco ao estilo absolutistas contra liberais), até podem ser uma família, mas são uma família bastante disfuncional. Não soubéssemos nós como funciona a política portuguesa e diria que eles nunca mais se falavam, mas algo me diz que amanhã já estão com palmadinhas nas costas novamente.

 

Conclusão de todos estes meses: António Costa tem tudo para ser o primeiro descendente de indianos a tornar-se Primeiro-Ministro em Portugal. No fundo, pode ser o nosso Obama. A bola está do lado dele agora. Vamos ver com que especiarias cozinha Coelho em lume brando.

 

Francisco Mendes

 

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O Terrorismo das Palavras

por cincodiasuteis, em 26.09.14

Uma coisa particularmente irritante para mim é o choque cultural. Confesso que sou daquelas pessoas que tem dificuldade em adaptar-se a outras culturas, mas não é por achar que os outros são inferiores. É um defeito meu. Por isso mesmo, incomoda-me bastante as pessoas que julgam outras culturas à luz do seu pensamento. Principalmente quando a luz do seu pensamento está fundida.

 

A propósito da decapitação do turista francês às mãos de membros do Estado Islâmico, ouvi uma peça num noticiário que terminava com a seguinte expressão: “palavra de terrorista”. Se eu acho piada às decapitações? Obviamente que não. Se eu estou a favor da causa do Estado Islâmico? Obviamente que não. Se eu temo o Estado Islâmico? Obviamente que sim.

 

Façamos, no entanto, o raciocínio de outra forma. Alguém consegue imaginar uma peça de um noticiário em Portugal sobre as guerras dos norte-americanos terminar com um “palavra de torturador”, por exemplo? Certamente que não. O que legitima então que se termine uma peça com um “palavra de terrorista”?

 

Chamar extremista a determinadas pessoas e enquadrar isso com um “nós contra eles” é um tiro no pé. Há sempre dois extremos (tirando no futebol. Depende da táctica). Se um é oposto ao outro, isso faz de nós também extremistas. Assumir que estes grupos do Médio-Oriente são os únicos vilões da história é não olhar para dentro de casa e perceber o que gerou tanto ódio em algumas das pessoas que acabam por sucumbir ao chamamento do terror.

 

Aquilo que se tem passado com o Estado Islâmico parece-me algo de absolutamente abominável e que espero que venha a ser travado. Ainda assim, pede-se que haja cuidado na forma como as coisas são tratadas, pois coisas abomináveis não têm origem apenas nos fusos horários mais opostos ao nosso. Limpemos o cotão dos nossos umbigos antes de cuspirmos moral para cima dos outros.

 

Francisco Mendes

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Galveias

por cincodiasuteis, em 25.09.14

Gosto de passar algum tempo da minha vida em bibliotecas. Gosto muito de bibliotecas, como também gosto de algumas livrarias ou da pequena estante do meu médico; naturalmente uma boa biblioteca exerce sobre mim um fascínio maior, mas qualquer estante com livros desacelera-me o passo, nem que esteja cheia de maus livros, aliás, principalmente se for esse o caso. As lombadas hipnotizam-me - e, acreditem, preferia não escrever este tipo de frases... 

Nas bibliotecas públicas também me interessam as pessoas. (Os livros camuflam bem um observador, que passa por leitor. Também me acontece nos transportes públicos; e a certa altura dois escudos, sendo que, cada vez mais, um deles tem um casaquinho ridículo - não o meu, claro.) 


Costumo andar pelas bibliotecas públicas de Lisboa; posso garantir que são de Babel quanto ao número de pessoas que me hipnotizam mais do que lombadas. 

Sobre a mesa tinha a revista Time Out, um livro de contos da Flannery O'Connor (um espanto, já agora), uma garrafa de água de um litro e meio (quis, nesse dia, começar a beber essa quantidade de água, diz que a recomendada diariamente, mas concluí que muita água dá-me conta do sistema nervoso, o que, segundo as minhas pesquisas no Google, não é disparatado) e um caderno que comprei convencido de que seria ali que escreveria o meu "livro branco", o que não me aconteceu - e não me façam perguntas. 

À minha frente sentou-se um homem com um folheto na mão - "O que é a batalha do Armagedom?" -, dado, suponho por uma Testemunha de Jeová. Pousou-o na mesa juntamente com um livro de anatomia; um livro cheio de imagens de ossos rodeados de um bando de setinhas a apontar nomes, todos eles percorridos pelo sujo e gretado dedo indicador do homem. 

Estava mal vestido. Os seus olhos tinham para dar aos meus um forte aglomerado de finos vasos sanguíneos que lhes ocupava a superfície branca; além disso eram olhos que se retorciam sempre que havia algum barulho - e depois disso voltavam ao convívio dos meus um pouco mais dilatados (e talvez mais vermelhos).


No livro, ossos, ossos e mais ossos. 

 

Eu sustivera a respiração, embora estivesse a gostar (com medo) daquele quadro, ao qual acrescentei, na minha imaginação, um massacre, litros de sangue a salpicar a brancura dos ossos do livro.
Fiquei chateado porque perdera uma boa oportunidade de ver; o que deveria ter feito era uma observação mais tranquila.

Então fui à casa-de-banho comer um pêssego, porque de certeza que me acabaria por sujar com o sumo da fruta e precisava de água (ainda estava convencido de que a da garrafa ia ajudar-me a reduzir volume abdominal).
É uma bela casa-de-banho, com espaço, com luz.
Mas se, entretanto, alguém lá entrasse? 

Algum de vocês, por acaso, está a pensar escrever uma crónica sobre um tipo que come pêssegos na casa-de-banho da vossa biblioteca? Nem tu, estranho homem dos ossos?  

 

António Trindade Vieira

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Escandinavite

por cincodiasuteis, em 25.09.14

Sempre que é preciso ter um país como referência há a tendência para que seja um país da Escandinávia. Olhando para as estatísticas, é inegável que são dos países mais desenvolvidos do Mundo, mas não é preciso venerar ao ponto de pensar que é lá que se vive a utopia.

 

Aquilo que me incomoda mais é achar que se pode importar tudo desses países. Para mim, é mais ou menos o mesmo do que pensar em deitar abaixo o pinhal de Leiria e plantar lá Sequoias. Se se dão tão bem na Amazónia, porque é que não se haveriam de dar bem também cá? Há até um exemplo do inverso e que eu prezo muito. O bacalhau dá-se tão mal na Noruega que temos que ser nós, os portugueses, a tratar dele.

 

Para mim, o facto é: os países escandinavos sabem gerir bem os países deles. Isto não significa que soubessem verdadeiramente gerir os países dos outros (isto vai mais além daquelas bocas que todos mandam no Parlamento Europeu sobre a política e os países dos outros). Quem não concorda comigo que peça aos noruegueses, aos finlandeses ou aos suecos que venham governar Portugal. Se os portugueses iam estar melhor assim, para quê a teimosia de meter portugueses a tramar portugueses?

 

Claro que há muita coisa que eles fazem melhor. Por exemplo, o Breivik foi tão profissional que não andou para aí a comprar pão e “bolitos”. Por cá, nós temos o Manuel Palito e aí é claro que se nota a diferença. Mais! Cá aplaude-se o trabalho do Manuel Palito. É esta falta de exigência que faz com que o crime em Portugal não se profissionalize. Se continuam a ir a concertos do Tony Carreira, como querem que o Samuel Úria venda mais?

 

Outro exemplo claro disto é dado pela Suécia. Cá, nós temos o cavalo lusitano. Já os suecos misturam-nos com as almôndegas. Para quê criar um cavalo bonito e corajoso, quando se pode criar um cavalo suculento? Cá, também fazemos muitas piadas com loiras e há o preconceito de que elas são menos inteligentes. Lá, elas povoam um país de iluminados.

 

Em suma, eu admito que os países escandinavos são muito desenvolvidos, mas que, quando falamos de pessoas, não há nenhuma exactidão matemática nas medidas. Há muitos factores externos a ter em conta. Nem tudo dá para importar. Da mesma forma que não faz sentido um campino passear pelas ruas de Oslo a cavalo com a sua tradicional vestimenta, também não faz sentido um Viking no rio Tejo. Pensem nisso. Eu estou calmo. Ou como dizem os açorianos: Estocolmo.

 

Francisco Mendes

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O Pedro e o Coelho

por cincodiasuteis, em 24.09.14

Já há muito tempo que um Primeiro-Ministro português não tinha uma polémica com a Justiça. Desde o Primeiro-Ministro anterior. Aliás, já há muito tempo que um elemento do Governo não tinha uma polémica com a Justiça. O último, se não me falha a memória, foi Miguel Relvas. Provavelmente, estamos perante um novo record nacional. Não sei se atinge os mínimos olímpicos, mas é de louvar, ainda assim.

 

A polémica reside no facto de, alegadamente (a palavra que toda a gente usa para não querer ter polémicas com a Justiça), Pedro Passos Coelho ter sido deputado em regime de exclusividade e, ao mesmo tempo, ter recebido dinheiro da empresa onde trabalhava na altura.

 

O Primeiro-Ministro esteve bem ao mostrar-se disponível para que investigassem (matem-me! Elogiei o Primeiro-Ministro!). Se isso vai ser feito de modo imparcial e sem qualquer tipo de pressão, não comento. Deixo para outros a caça às bruxas.

 

No caso de se confirmar esta situação, Passos Coelho incorreu, pelo menos, num crime fiscal. Ainda assim, pode já ter prescrito. Se for o caso, esperemos que tudo não dê em nada. Aquilo que está em causa é a integridade do homem que mais esforços tem pedido aos portugueses nos últimos anos. Tudo tem consequências – mesmo aquilo que já lá vai há algum tempo. Se Passos Coelho comesse um iogurte com o prazo de validade da altura em que, alegadamente, cometeu este crime fiscal, provavelmente teria consequências – o resultado seria semelhante ao resultado da sua Governação.

 

As gentes da esquerda é que já se começam a agitar. E este é outro dos problemas das oposições em Portugal. Agitam-se demasiado por tudo e por nada. Se se confirmar, para mim, é um caso que devia dar direito à demissão do Primeiro-Ministro ou à destituição do mesmo pelo Presidente da República. O problema é que na oposição tudo é motivo para que isto aconteça e, quando chega uma verdadeira razão, já ninguém liga àquilo que eles barafustam e tudo passa incólume.

 

No fundo, é um pouco como a história do Pedro e do lobo. Com a diferença de que nesta história as duas personagens estão aglutinadas numa só: o Pedro é também o Coelho (em vez de lobo). Mas aqui está à vontade. Na literatura não há regime de exclusividade.

 

Francisco Mendes

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Raios e Coriscos

por cincodiasuteis, em 23.09.14

Ontem, Lisboa pareceu Veneza durante largas horas devido ao temporal que se abateu sobre a capital (já viram que só os fenómenos meteorológicos é que se abatem sobre alguma coisa?). Algumas das imagens são absolutamente impressionantes e é incrível como é que tudo não passou de danos materiais, pois em alguns sítios, como a Praça de Espanha, a água chegava à cintura das pessoas. A parte central da rotunda era as Ilhas Canárias.

 

O que é mais engraçado é ver a Câmara de Lisboa responsabilizar o Instituto Português do Mar e da Atmosfera por não ter previsto a quantidade de chuva que caiu. De facto, isto é uma evolução. Nunca vi ninguém ligar para a Maya a reclamar por ela ter falhado uma previsão e, certamente, não é por não as falhar. Este é, de resto, um dos hábitos da política portuguesa: tudo de dedo em riste a dizer que a culpa é do outro.

 

Para aqueles que ainda viam no António Costa um Messias, eis que as cheias os desmentem. Alguém viu o Presidente da Câmara de Lisboa andar sobre a água ontem, enquanto chovia torrencialmente? Nem a Moisés chega. Ao menos podia ter desviado as águas. Ou então transformado a água em vinho e tinha a maioria absoluta garantida. O ponto positivo de tudo isto é que até houve um momento em que se replicou a Arca de Noé: era a Assembleia da República.

 

Na impossibilidade de colocar uma algália ao S. Pedro, se calhar era melhor a Câmara de Lisboa tentar arranjar alguma solução para o escoamento da cidade. Em último caso, podem sempre arranjar umas gôndolas para os lisboetas.

 

Se o tempo estava difícil para todos aqueles que estavam na rua ou no rés-do-chão, mais difícil ainda estava para o Oceanário. De certo modo, aquilo pode ser considerado concorrência desleal. Por exemplo, eu vi a minha vizinha gorda a sair do prédio e ontem parecia-me uma garoupa.

 

Nem tudo está mal, ainda assim. Costuma dizer-se que a prevenção dos incêndios não se faz no Verão. Mudamos para o Outono e nem uma fogueirazinha se aguentava. Parabéns a quem trabalhou arduamente para que isto acontecesse.

 

Se calhar, a prevenção das cheias também não se faz nos dias antes ao mau tempo aparecer. Se calhar, é melhor tratar disso enquanto está sol. Digo eu. Mas já todos percebemos que, em Portugal, as consequências dos fenómenos climatéricos são como a moda: cíclicos. Na colecção Outono/Inverno ficamos com a água até ao pescoço e todos lamentamos e na colecção Primavera/Verão somos cozidos em forno de lenha e todos lamentamos.

 

Francisco Mendes

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Dartacão e os Moscãoteiros

por cincodiasuteis, em 22.09.14

A polémica explica-se facilmente: houve um choque de egos entre Jorge Jesus e José Mourinho sobre quem conhecia um jogador do Benfica antes de ele assinar pela equipa portuguesa e José Mourinho “atacou” o português de Jorge Jesus.

 

Eu não sei se José Mourinho anda pelos balneários de mãos nos ouvidos e nunca se apercebeu da forma como os agentes desportivos (está na moda dizer isto, não é?) falam. Não vou analisar a polémica em si, porque não tem nada para analisar. O choque frontal entre dois egos tão grandes não deixa espaço para mais nada. Aquilo em que eu me quero de centrar é no excesso de Mourinhite nos meios de comunicação social em Portugal. Começa, desde logo, por dizerem que ele é o melhor do mundo de forma absoluta. Como se não houvesse margem para dúvidas. Para os mais distraídos, José Mourinho foi eleito o melhor do Mundo pela FIFA apenas uma vez. O cúmulo chegou quando, a propósito desta polémica, cheguei a ouvir comentadores dizerem em tom de elogio que José Mourinho nunca vira a cara a uma guerra. Como se isso fosse sinónimo de coragem e frontalidade. Por muito bom treinador que Mourinho possa ser, ainda está a alguma distância do Rei Midas – não transforma tudo aquilo que toca em ouro. Alguns chamam respostas ferozes que ditas por outras pessoas seriam apenas falta de educação.

 

Tempo agora para Jorge Jesus. É óbvio que ele devia tratar melhor a língua portuguesa. Ele não é pago para falar, mas é chamado a falar quase diariamente. Treinar o Benfica não está ao alcance de todos pelo que a responsabilidade é grande e quanto maior é a responsabilidade, maior é a exigência. Uma calinada dita por um trolha (com todo o respeito para os trolhas) tem menos repercussão do que uma dada por Jorge Jesus, da mesma forma que uma calinada dada por um Ministro é mais grave do que uma calinada de um treinador de futebol. Às vezes dá a ideia de que ele não quer corrigir para se manter fiel a si próprio. Como se aprender pudesse piorar a personalidade de alguém.

 

No entanto, isto não invalida que Jorge Jesus às vezes possa ter razão e determinados comentadores sejam tentados a fazer chacota pela forma como se ele se expressa revelando uma sobranceria própria de quem desconhece o nível cultural de quem segue diariamente um programa diferente de análise futebolística.

 

A prova de que as pessoas fazem chacota do modo como Jesus fala por ser Jorge Jesus é Cristiano Ronaldo. Quão diferente é a o mau tratamento que Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo dão à língua de Camões? Quão diferente é a chacota? Sair de Portugal dá dinheiro e estatuto. Não dá razão. Sejamos imparciais. Pelo menos quem é pago para o ser. Chame-se Dartacão, Athos, Porthos ou Aramis.

 

Francisco Mendes

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