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O Terrorismo das Palavras

por cincodiasuteis, em 26.09.14

Uma coisa particularmente irritante para mim é o choque cultural. Confesso que sou daquelas pessoas que tem dificuldade em adaptar-se a outras culturas, mas não é por achar que os outros são inferiores. É um defeito meu. Por isso mesmo, incomoda-me bastante as pessoas que julgam outras culturas à luz do seu pensamento. Principalmente quando a luz do seu pensamento está fundida.

 

A propósito da decapitação do turista francês às mãos de membros do Estado Islâmico, ouvi uma peça num noticiário que terminava com a seguinte expressão: “palavra de terrorista”. Se eu acho piada às decapitações? Obviamente que não. Se eu estou a favor da causa do Estado Islâmico? Obviamente que não. Se eu temo o Estado Islâmico? Obviamente que sim.

 

Façamos, no entanto, o raciocínio de outra forma. Alguém consegue imaginar uma peça de um noticiário em Portugal sobre as guerras dos norte-americanos terminar com um “palavra de torturador”, por exemplo? Certamente que não. O que legitima então que se termine uma peça com um “palavra de terrorista”?

 

Chamar extremista a determinadas pessoas e enquadrar isso com um “nós contra eles” é um tiro no pé. Há sempre dois extremos (tirando no futebol. Depende da táctica). Se um é oposto ao outro, isso faz de nós também extremistas. Assumir que estes grupos do Médio-Oriente são os únicos vilões da história é não olhar para dentro de casa e perceber o que gerou tanto ódio em algumas das pessoas que acabam por sucumbir ao chamamento do terror.

 

Aquilo que se tem passado com o Estado Islâmico parece-me algo de absolutamente abominável e que espero que venha a ser travado. Ainda assim, pede-se que haja cuidado na forma como as coisas são tratadas, pois coisas abomináveis não têm origem apenas nos fusos horários mais opostos ao nosso. Limpemos o cotão dos nossos umbigos antes de cuspirmos moral para cima dos outros.

 

Francisco Mendes

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