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Empreendedorismo (ou quase)

por cincodiasuteis, em 16.09.14

Uma nova função no espaço público, uma ocupação para os reformados. 

A selfie é o assunto preferido das conversas e até das crónicas, mas não posso ignorar que ainda se pede a estranhos que passam

Não se importa de tirar uma fotografia aqui a mim e ao meu

 

Todos estão familiarizados com esta situação, que não diminuiu com as selfies; arrisco até dizer que hoje há mais gente a solicitar fotografias a estranhos - primeiro, porque, como é óbvio, temos mais meios para as tirar, e depois porque a selfie é outra coisa, é, aliás, a negação de um bom 

Não se importa de tirar aqui uma fotografia a mim e à minha

 

Mas nem sempre passa alguém a quem nos apeteça pedir isso; quem nunca hesitou antes de fazer o pedido, imaginando o homem a correr para longe com a nossa máquina na mão? Um clássico, diria. Proponho, então, que arranjemos alguém para estar na rua, junto dos nossos monumentos, por exemplo, pronto a tirar-nos uma fotografia. Precisamos de confiar na pessoa, e quem não precisa, quem gosta do risco, quem vê nessa situação uma possibilidade de descoberta, de amizade, de amor, esses enquanto não

Olha, desculpa, não te importas de tirar aqui uma 

continuariam a poder imaginar uma perseguição policial ou uma noite de paixão num jardim ali perto.

Isto serviria para criar emprego, então? Não diria tanto, não tenho vontade de ver assim; apenas uma boa ocupação para os nossos reformados (estou feito não-sei-quem com isto nossos reformados depois de já ter escrito os nossos monumentos), ainda que em muitos casos

 

Menina, é aqui que se carrega? Onde é que

 

E muitos daqueles que pedem para tirar uma fotografia são turistas; tenho observado que, além de casais ou grupos de amigos, há muitos grupos de amigas. (Tenho observado como quem passa e observa, querida... Passo e observo, mas só observo porque passo. Percebes? Isto ajuda?) 

Jovens atraentes, com aquela languidez branca que poucas portuguesas têm - incrivelmente, tu, morena, portuguesa, também consegues tê-la, e ainda lhe acrescentas uma encantadora fragilidade, combinação que me desarma (isto ajuda?); de resto os Diapasão que me perdoem -, prontas para tirar fotografias que, mais tarde, as recordem de Lisboa, junto dos Jerónimos (ou da parede mais suja da cidade). 

O que ningém esperava é que muitas destas raparigas não quisessem ser incomodadas, isto é, subtilmente assediadas (pelo menos não antes das três da tarde). Daí o reformado decente. Estas raparigas, estrangeiras ou não, para não serem chateadas, poderiam esperar por um rapaz sério, fiel, comprometido, como eu, ou, ainda que menos fiável, por outra rapariga - mas porquê esperar?1

Fica a ideia. E até eu, obviamente não dotado de uma languidez branca, se precisar que me tirem uma fotografia no próximo passeio por Lisboa, vou chamar pelo reformado

 

Chefe, será que podia tirar aqui

 

A pergunta que preenche toda a superfície intracraniana do Homem deste século. A pergunta do século. 

 

  

António Trindade Vieira

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Há dias um fiador ameaçou empurrá-lo para um abismo; ele temeu apenas uma certa inversão do espaço. O Eduardo, no fundo, vê o céu como um grande buraco.

Desde miúdo invejava a coragem dos pássaros, não tanto a aderência da aranha que, no tecto do seu quarto, coçava o pêlo nas pequenas protuberâncias do reboco. Ela bem que o fitava, empenhada em causar-lhe inveja – há animal mais petulante? –, mas ele reduzia a vaidade da aranha a uma questão de perspectiva (ainda não podia compreender que a perspectiva é tudo); também não lhe invejava os muitos olhos, que a multiplicar por muitas dioptrias, exigiriam aos seus pais uns óculos bem caros, acima das possibilidades; uns óculos semelhantes às janelas redondas de um avião, ligadas por um arame.

O avião, um veículo perigoso, que se move em profundidade - nenhum transporte, para o Eduardo, podia competir com o metropolitano, onde há uma infraestrutura mínima que deveria abrigar toda a mobilidade humana: um chão e um tecto. “Primeiro o Homem teve de desbastar mato e planear o território, depois precisou de construir os carris... O que teve de fazer no céu para lá andar?” Colava a bochecha ao vidro, consciente de que a boca entreaberta dar-lhe-ia um quadro de água, e escrevia Laura até que aquela tela improvisada ficasse suja de hálito. Um véu semitransparente, com o nome dela recortado, tapava a sua cara, quando a escuridão dos túneis lhe dava um espelho. Passava por todas as estações, viajava em todas as linhas, precisamente por não ter de ir a lugar algum. Nunca se sentia tão no mundo como durante aquelas viagens; caso contrário, poder-se-ia dizer que se sentia em casa - havia naquele périplo um propósito religioso.

Desmaia sempre em igrejas; as abóbadas altas das catedrais como que lhe esvaziam a cabeça, com uma dor nas têmporas; e o céu numa planície leva-o mesmo ao vómito – a mãe impedira-o de vomitar com os olhos postos no azul; a mão na testa do pequeno Eduardo tentou lembrar-lhe de que não existe um esgoto celeste (pelo menos fora do domínio da teologia).

Como não cresceu muito na adolescência, assim de um dia para o outro, não chegou a temer não caber em casa – esse medo (ou uma sesta à sombra de uma macieira) poderia ter resolvido o problema. Em criança, evitava a rua, embora se sentisse bem, aliviado até, quando brincava no escorrega, depois do trauma que foi um balão soltar-se-lhe do pulso - ainda hoje se pergunta: para onde? Esquecia-se do balão no inverno, siderado pela beleza das ruas da Baixa cobertas de tecido.

 

Afiança que parte agora para Londres não devido ao fiador que o persegue. E a família acredita: só os dias de chuva lhe trazem alguma lucidez.

 

Este pequeno conto foi publicado na revista LER, na falecida (mal!) secção 15-25


António Trindade Vieira

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O véu dos livros

por cincodiasuteis, em 10.09.14

Parece-me que as pessoas mais preocupadas em deixar os seus livros impecáveis são aquelas que menos os amam.

 

No outro dia falava com alguém que desgostava o próprio pai por pouco desfrutar da extensa biblioteca que o velho havia feito crescer durante toda a vida com a confiança de que fosse essa a grande herança que cá deixaria aos filhos. Dizia ele, enquanto eu o ouvia com toda a temperança (coisa nova para mim!), que os livros do pai não tinham graça, eram pálidos, talvez anémicos... 

Um dos livros mais pálidos da minha estante é o vigoroso "Guerra e Paz". Os livros com má cara têm muito potencial - livros com olheiras, lábios ressequidos ou faces magras, e, quem diria?, lá dentro a vida toda.  


Assim fiquei a saber que para ele o primeiro critério de escolha de um livro é a beleza das capas. Além de repudiar o critério dele, como é óbvio, também discordei quanto à beleza das edições. Ele mostrou preferência  pelas capas berrantes - não no nobre sentido em que, na voz de Luís Piçarra, as camisolas do Sport Lisboa e Benfica são berrantes... - de um Luís Miguel Rocha, por exemplo. 

No outro dia vi um livro adornado com um véu de noiva... Que beleza! Se depender de mim ficará eternamente à espera no altar - e a verdade é que em muitas livrarias estes livros aparecem numa espécie de altar...

Escusado será dizer que esta pessoa não escreve nos livros, não os abre demasiado, não lhes permite rugas... 
(Não é escusado dizer que esta pessoa é uma das boas pessoas que conheci nos últimos tempos - esta é uma informação relevante.)

 

Na minha experiência as pessoas que estão mais preocupadas em deixar os seus livros impecáveis são aquelas que menos os amam.

 

Eu vou para a cama com os meus, leio-os enquanto me abrigo da chuva a pouco centímetros da chuva, ouço-os brigar uns com os outros na minha mochila sempre que corro para apanhar o comboio, risco-os, naturalmente, escrevo neles... 

 

Cada vez mais me apercebo de que as minhas melhores leituras são com um lápis na mão, a riscar, a sublinhar...

O Gonçalo M. Tavares disse numa entrevista: "Costumo dizer, a brincar, que sou alfabetizado pelo lápis." Identifico-me com essa necessidade do lápis. Ele até fala dos livros como animais de barriga aberta, pronto a serem dissecados por nós e pelos nossos bisturis - coisas violentas que, compreendam, não se fazem a uma bela noiva...

 

António Trindade Vieira

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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013. 

 

[Aqui estava um título]

Umas vezes a pergunta choraste muito? Choraste muito, mãe? Sei lá eu, Catarina. Sabes, sim. Deixa-me perguntar-te; é que eu não sei como é ela vem, não sei nada sobre ela... Outras vezes a sensação de um cortejo de viúvas sobre o peito, mulheres de preto a pisarem-lhe um chão de flores com veios de asfalto, o reverso da sua pele branca e tenra de menina de nove anos.         
  
Se um homem pensa no pai enquanto bate na mulher é um bruto; se pensa na mãe é um doente: perdeu a mão que tinha na testa – isso é uma enfermidade. Aconselho à mulher que se separe dele; não pode é contrariar que aquela testa parece um molde de dedos; e de certeza que passados uns anos: ele escolheu-me; não fales assim do teu avô porque ele escolheu-me e amou-me à maneira dele. Este senhor, ao atirar-se da ponte, contraria a leveza da morte que aí se aponta ao chão; contorce-se todo para encontrar por ali um olhar de comiseração, o alívio que já só consegue encontrar naquela queda. Mas ele bateu-te, avó! E tu, mãe, choraste muito quando ele morreu? Sei lá… Só me lembro que estava num exame e todos levantaram a cabeça. Quando ouvi o meu nome uma vaidade habitou-me os músculos, fui dominada pela fantasia: imagens agradáveis que me isolavam; a contornar as carteiras com folhas demasiado indiferentes umas às outras do que seria desejável, apáticas diante da angústia dos meus colegas, que era como um lençol branco á frente dos olhos de todos, o lençol branco da cama onde o meu pai estava. Quando saí da sala lembrei-me dele no hospital. Enquanto atravessava um corredor vi os cacifos com chaves partidas nos cadeados, todo o frenesim de borbulhas trancado lá dentro e todo o silêncio a provocar-me; eu sem saia, nem calças apertadas, sem perceber nada, mas a sentir-me provocada e incomodada com essa provocação, o que nunca acontecia. Alegrei-me outra vez: poderia também ser: “a mãe viu bem como a tua cabeça baloiçava ontem sobre o livro; chega para ti – vem para casa”. O telefone, escoltado por três adultos – naquele momento voltei a pensar “adultos”-, falou-me acerca de um movimento de olhos: o último.         


Invejava aquela história; também queria ter dentro de si um pai dentro de uma caixa de madeira a acomodar-se num berço de terra adornado de flores. Choraste muito ou não? Pai e morte – queria saber mais.        
           
As roupas do defunto não devem ocupar um guarda-fato; as recordações não devem ficar numa pequena arca debaixo da cama. Dê-lhes ar – sinistro não é a camisa do seu homem agora compor o tronco de um neto; cuidado é com a multiplicação dos caixões dentro de casa.   
  

a) De vez em quando acordava com a casa toda debruçada sobre si, a examinar-lhe o corpo.

b) Lá no norte afundava as mãos na terra e ficava assim durante horas, à espera de sentir um bocado de alma.

c) Convencia-se de que certa porção de ar era a morte; aproximava-se com cuidado para não a afugentar e com um livro aberto entre um bater de palmas, aprisionava-a nas páginas como se se tratasse de um insecto; nunca mais abria o livro. Assim o “Amor de Perdição” lá de casa está por ler: cheio de mortes.

             
Também sabia pouco sobre pais. A partir de desenhos com uma gema no alto do papel, um triangulo a encimar um quadrado, um pau de gelado espetado numa nuvem e famílias de micado a levitar, desconfia-se de como estas crianças sofrem na escola. As batas brancas deviam saber que os miúdos têm menos pais na cabeça que fisgas nos bolsos; no recreio não há conversas intimidantes sobre divórcios ou orfandade, não há filas de homens de meia-idade com braçadeiras, prontos a mergulhar na poça de água à boca do escorrega; o leite anémico cujo pacote tem um recreio desenhado sabe mal em todas as bocas – o paladar não depende dos beijinhos que cada uma delas deu de manhã. Em casa é que de vez em quando um pai ou lá o que era aquilo: a surpresa da cara esfolada com carinho; em cima da mesa das revistas e do comando da televisão apareciam chaves, uma carteira sisuda – afinal o gado não tem mau cheiro, mami – e uma coisa que se parecia com o invólucro de um baralho de cartas a acolher umas guloseimas para adultos que se esfumavam nuns lábios sempre que os lábios da mãe não estavam ocupados; e também a presença de uns braços que davam para pentear com as escovas das bonecas oferecidas por umas mãos que às vezes também davam para pentear. O pai era um fenómeno sazonal – nem tanto.

Guardava as roupas dele numa pequena arca, que não era um caixão de lembranças: nenhum outro peluche ficava bem naquelas roupas; ainda tentou vesti-los: resultou uma savana de colcha onde todos os bichos estavam aconchegados com casaquinhos de malha; um hipopótamo humilhado numas calças à boca-de-sino, um urso travestido por uma aba de grilo e um nenuco com umas calças de mulher na orelha – a Barbie ficava debaixo da almofada, a esconder a sua nudez. Nenhuma das peças de roupa, agora na pequena arca, assentava mal ao seu cãozinho de orelhas pretas, um peluche elegante, que andava para todo o lado a baloiçar na sua mão – a vigiar-lhe a curiosidade do tacto. Leu que não devia acumular caixões dentro de casa, mas esperava ainda pela certidão de óbito do seu cãozinho de orelhas pretas para dar futuro ao guarda-roupa. Assustava-se com a ideia de ele estar numa cave: ele e outros peluches, enfileirados pelo raptor numa prateleira de refugo, a esforçaram-se para conservar uma azeitona entre as pálpebras, a temer que uma navalha lhes provocasse uma hemorragia de esponja.

 

António Trindade Vieira

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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013.
Atenção: há por aqui frases tuas - convém dizer aos outros.

 

II

Sinto que adoeci10 de ti, da tua mãe e da tua avó. Apenas sinto, porque este vírus não é da vossa natureza (vós necessariamente outra matéria) – noventa por cento da sua substância tem, até agora, uma natureza feminina, sim, mas instável, menos física do que alguma vez nos podemos sentir: são três mulheres, uma só ou todas aquelas que conheci na vida? E a certo momento é possível que o vírus engorde e também contenha homens; todos à volta de um núcleo exíguo e mal definido, calculado pelo total de mim menos todas as vozes que me vieram integrar. Adoecemos desta massa de ecos porque precisamos da cura. Que gozo seria fazer uma cirurgia a mim próprio sempre que me sentisse invadido e ocupado! Desventrar-me para me curar diante dos meus olhos bem abertos. Ignoramos o estado em que ficamos depois deste triunfo da cura, e de imediato abrimos em simultâneo novas janelas dentro de nós.            
  
É esquizofrenia e eu confronto o senhor doutor; é esquizofrenia, não é, senhor doutor? Como quase tudo não é literatura, um dia também adoeci de ti – tu, matéria que desejo e admiro, que lês isto e que me fazes adoecer melhor de mim. O prognóstico do meu caso melhorou bastante, não melhorou, senhor doutor? Para nos lembrar que o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura. O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura. O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura… Doutor? Já não gosto dessa canção. Pare de cantar, estou aqui à sua frente, não reparou? Sabe, nos últimos tempos, uma voz, adoro-te, adoro-te, a voz que ganha corpo, eu vi-o, tenho a certeza, depois da voz, a mão, ele deu-me a mão e depois, adoro-te mais e eu feliz e as vozes, todas dele, a nascerem e toda a gente à minha volta, ah, isso é amor, é amor, de certeza, não te preocupes, isso é só amor; e eu: não, não, é esquizofrenia - sabendo eles da minha doença e desvalorizando a minha cura; todo o amor é esquizofrenia - no final só sobram vozes sem…12 Ouça-a! O que é quem? Catarina, Catarina! Senhor doutor, pare de cantar! Eu quero perceber alguma coisa.  

 

10 Se me vir em apuros no mar para salvar isto do desbotamento e acabar num hospital, ficam aqui duas informações úteis ao senhor doutor. Ingiro 50 gramas de sertralinaa todos os dias para controlar uma ansiedade generalizada e uns ataques de pânico que me inspiraram isto e pouco mais (o que prova que a sanidade mental e física faz melhor aos bons textos do que à fama):       

   “O café cheio. Embora alguma mobilidade de vidro nas mãos, um caminho. Sem corpo para parar, a consciência de que sempre um caminho só depois de ir contra a alguém. Sorte: copo menos de meio vazio e menos de meio cheio - a crítica só fala de depuração e eu ainda com isto de menos de meio cheio e também com isto da crítica. Aquele bigode recortado e colado ali - só podia! Aquele bigode com a geometria que faltava no caminho que há sempre. Muito calmo, pesava na boca sofrida, que socorria-se dos olhos com os cantos dos lábios, como as mãos da amante nas suas costas antes de ter o bigode colado ali - esse tirano do rosto, único foco da minha atenção. Um copo de água, se faz favor. Sai um copinho de água! - ordenou o bigode, autónomo, de certeza; mais pelo -inho, até, mas de certeza que foi o bigode a ordenar. Um segundo e o copinho de água em cima do balcão. Tanta agitação na água que pedi para me acalmar - bolhinhas umas contra as outras ignoravam também que há sempre um caminho.”      

E sou também um indivíduo deficiente em G6PDHb – “Saiu-te a fava, Catarina” é só uma das muitas piadas que se podem fazer a partir de uma história que fica bem em qualquer jantar de família.            
Entretanto alguém que me explique o orgulho que temos em padecer de algo que só não nos matou por milagre.          
     

a Na Wkipédia: “O cloridrato de sertralina é um medicamento utilizado no tratamento da depressão. O mecanismo de ação é a inibição da recaptação da serotonina.”

b De novo na Wikipédia, porque a preguiça não me permite mais. (Confessar ou exibir um defeito atenua-o aos olhos dos outros? Sim, com algumas exceções. Na literatura acredito que um leitor exigente já não se deixa impressionar por um “porque a preguiça não me permite mais”, mas esta autoconsciência do autor não tem de ser sempre um mecanismo irónico.) “A deficiência em Glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma doença hereditária recessiva ligada ao cromossomo X que, frequentemente, desencadeia uma anemia hemolítica. (…) O consumo de favas, ou feijão de fava, leva o portador a desenvolver uma crise hemolítica; esta crise hemolítica antes era chamada de favismo.”

 

12 Tu, meu amor, Catarina Barroso, em “Esquizofrenia – os braços não crescem junto ao corpo.” Escrito num período em que eu queria escrever como o Lobo Antunes (agora luto contra ele; não é assim, Bloom?); numa só tentativa fizeste o texto definitivo das nossas imitações de Lobo Antunes. Também foi publicado originalmente no blogue “Mizocephalo” - http://mizocephalo.blogspot.pt/2013/01/esquizofrenia-os-bracos-nao-crescem.html

 

António Trindade Vieira

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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013.
Atenção: há por aqui frases tuas - convém dizer aos outros. 

O que há num nome?

  
Depois de três e uma preposição, a importância de ter o último. Ele reconheceu isso e assumiu o seu lugar no fim da linha, onde tantas vezes as letras parecem querer fugir – escondem-se numa translineação improvisada, levantam voo para fora da folha (aí as palavras podem não ser à vontade – descobre afinal que a folha de papel não é um símbolo de pureza; nenhuma folha sim) ou apequenam-se para caber lá, quase ilegíveis

   
Se fosse um nome usaria os limites de um formulário para se acobardar; mas é um homem, e o nosso espaço também está preparado para os cobardes, assim como para os corajosos – nem sempre com nomes diferentes. Mas em ti a robustez do apelido distingue-se por se confundir com a tua força... O que há num nome, afinal? Durante tempo a mais ele foi para ti só um nome – é só um homem.

O nome a cair e também os pratos, que acolhiam restos arrumados como se fosse o primeiro encontro, e a garrafa engravatada, cheia de gotículas no vidro provocadas pelo susto daquela voz a romper o restaurante: a mãe vai saber! Se és pai, não podes ser amante. Eu sei que o nosso nome já anda por aí a gatinhar. Mais um tempo e ele com os pés sei lá onde… Como se cada reprodução do nome o tornasse mais fino e quebradiço (os nomes são materiais que sofrem uma espécie de erosão – estão a acompanhar?), menos valiosos (a antroponímia é um ramo da economia, meninos!) E ele só de olhos na madeira da mesa que ficou à vista depois da vertigem de toalha que o empregado tentou ocultar por respeito ao senhor doutor, um cliente antigo cá da casa, um cliente com nome. Cheia de vergonha, a amante ficou com um pão entre os dedos, e os nervos construíram uma caverna de côdea que dava um belo esconderijo para os dois arrefecerem as faces; os olhos dela sempre no chão onde apareceu uma vela que não estava na mesa, ao gosto do autor; a mesma vela que naquele quarto, num dos primeiros encontros, ele insistia para que ela apagasse só com o indicador e o polegar – o segredo é não ter medo, meu amor. Faz como eu. Acreditem que esta mulher é só o que é; pudesse eu apagar esta paixão como a chama daquela vela; muito seguro, esmagá-la até ter nada entre os dois dedos. E posso, meus queridos!

A certa altura da vida uma mulher lembra-se de que ainda lhe falta chorar, como se a informassem de um inesperado subsídio. Lá para dentro da madrugada até a noite repousa; a escuridão envolve-se nas suas pernas como um gato preguiçoso que lhe retarda o caminhar; acende uma luz e deixa de se ver. (Escreves às escuras com medo de que ele te veja.) Naquele dia era mais cedo – lembrou-se de que ainda tinha de ser mãe durante um bocadinho; tarde demais: nem se apercebera de que regressava numa estrada com bermas, lugares para parar. Não esperava encontrar aquela escuridão, que lhe pareceu diferente: com sons e vozes – podemos dizer que uma escuridão é diferente com sons? Uma música torna-se outra à luz? Era diferente, mais completa, sem os habituais pontos vermelhos que a tingem de uma aparente quietude – mal ela sabe: os olhos das bestas que dormem naquela floresta de móveis. Tudo começa no bico de uma cegonha. Aquela zona ficou sem eletricidade. Do quarto ao lado esta história da cegonha não ensina nada. Não há gato cósmico hoje, minha querida. Podemos cantar. Olha, faz assim como se estivesses a esmagar a chama – tem de ser rápido! Boa noite. É lá agora irresponsabilidade… Ela não se queima se fizer como eu. Não entrou no quarto ao lado. Como a mãe era sempre avó, ela não tinha de ser mãe durante aquele bocadinho. Moedas e notas numa gaveta que abria num disparo; piis e encontrões de metal. Era um pacote de leite, mais um chocolate… Avó, deixa-me fazer as duas coisas, o pedido e a conta. Ojala mis sueños se hicieran realidad, se hicieran realidad porque tengo u-un monton. Espreitou para o quarto ao lado: aquela brincadeira dava-lhe uma visão intermitente das duas a cantar, a contrariarem o que ela ensinara à filha – luz, escuro, luz, escuro não, que fundes a lâmpada. Ojala mis sueños se hicieran realidade. Para isso diz assim baixinho: Pater noster qui es in caelis ou Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum. Elas estavam bem;entrou noutro quarto ao lado e percebeu que o ar, mesmo no escuro, não se perdia entre duas janelas quando espirrou menos que o borraceiro de perfume que horas antes apontou ao seu pulso; deitou-se no embalo do atchim e o cheiro daquela almofada lembrou-lhe de chorar – eu sei que o nosso nome já anda por aí a gatinhar. Mais um tempo e ele com os pés sei lá onde…    
  
Minha querida, calça os sapatos; olha que te constipas!
Era um pacote de leite, mais um chocolate e este nome
:
P-A-I tem três letras, é barato.

 

António Trindade Vieira

 

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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013. 

 

 

A biografia segundo o apaixonado1



A ti, que me vais tirando palavras –
fazendo um homem.

 

  

 

Agora homem - com a mania de que era poeta - apaixona-se por ela.

Catarina Barroso

 


I


Sinto as tuas mãos dentro das minhas, aprisionadas na minha pele, brancas antes do osso; esta sensação de que as minhas mãos são só os uniformes sujos que as tuas usam para trabalhar, arrancar do papel palavras minhas, também só os uniformes sujos das tuas palavras, que se sabem conservar mais sem serem: quando te chegam aparentam uma gestação completa: estão melhor inacabadas. Descobre afinal que a folha de papel não é um símbolo de pureza; nenhuma folha sim. Tantas vezes o desejo de entrar dentro de ti; agora o desejo de te tirar cá de dentro para te devolver suja de pensamentos, memórias e emoções – tu necessariamente outra matéria. Não tenhas medo desta minha incapacidade de fugir ao corpo, mesmo quando tudo se passa sem incomodar a disposição da sala.        

– A tua cara de susto, em choque, quando corri na tua direcção, não para te empurrar, como pensaste, mas na esperança de me fundir a ti, depois de três passos de balanço, entrando no teu corpo como num portal, rasgando um véu líquido de todas as cores2, à ficção científica, com o desejo de ser nós em corpo e para sempre.      

Não tenhas medo; é de novo outra coisa. Se não nos soubesse imensos, não faria isto: temia esvaziar-me de ti. Continua comigo sem medo de nos perder.

 

1 O título era “Nasceste-me”, mas não quero ser citado nas redes sociais.

2 Nuno Costa Santos, escritor e argumentista português, não aprovou esta passagem; para ele está no limite do kitsch. Para atenuar o problema acrescentei “à ficção científica” (não me peças que te explique esta má solução).

 
António Trindade Vieira

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Neste reino há uma só causa

por cincodiasuteis, em 02.09.14

O sangue derramado no palácio era inversamente proporcional ao sangue derramado nas ruas.


Depois de fazer amor, e antes mesmo de se limpar, o rei solicitava um mensageiro.
O orgasmo precipitava-o para a guerra.


É evidente que o seu exército tivera mais trabalho nos primeiros tempos de casamento. Depois de alguns anos de paz, o rei desceu ao quarto de uma das criadas - o país vizinho estranhou mais do que a rainha.


Após o gemido serviçal, uma sirene.

Para ocultar da sua esposa esta aventura, recuou com a ordem – possuir o arsenal mais temido do continente ajudava o rei, tanto a coreografar os passos da diplomacia, como a manter o casamento.               


Todos sabiam que nada daquilo era uma súbita mudança de estratégia; as decisões sobre a política externa do reino tinham causas mais secretas...
Hoje diz-se que Emílio, um fiel escudeiro, tinha uma teoria para o comportamento do rei. De facto, se tivesse escrito o livro que chegou a planear, hoje saberíamos mais sobre este estranho (?) caso; infelizmente a sua intensa vida sexual não o permitiu atirar-se a esse empreendimento. 

 

 

António Trindade Vieira

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Ela e o romancista

por cincodiasuteis, em 01.09.14

No fundo do meu ambiente de trabalho deixei de ter uma fotografia tua para passar a ter uma fotografia do gigante escritor russo Liev Tólstoi (a minha mais recente paixão, que, ainda esta semana, merecerá uma crónica).

Na universidade, quando entrevistei o Ricardo Araújo Pereira, ele disse-nos qualquer coisa assim: as pessoas que manifestam publicamente a sua intenção de escrever um romance não querem mais do que um adiantamento de prestígio.

Eu quero muito escrever um romance. Estou à vontade, assumo sem rodeios, talvez porque já tenha pedido o meu adiantamento de prestígio, precisamente quando entrevistei o Ricardo Araújo Pereira na universidade - aliás, continuo a pedi-lo sempre que falo nisso. 

Eu quero escrever romances. Adoro poesia, mas quem tenho no fundo do meu ambiente de trabalho é o Tólstoi. É irónico, pois tu, que foste trocada, és toda mais poesia, até no que escreves, aqueles blocos de palavras que só ao longe (na parede de um oftalmologista) parecem prosa! 

Os poemas que escrevo não os levo muito a sério; raramente me angustiam.

Fica, então, aqui, nesta crónica, uns versos do futuro romancista (se Deus quiser):

A essência rodeada de corpo,
mais até do que o teu corpo,
é o que Lhe peço de ti. 

E algumas vezes não vejo,
entre versos que não são,
a tua carne viva.

É um sopro que apaga os versos 
a humidade e o calor.

O sopro também é não - 
ser absoluto sim e não.

Algures na eternidade amei-te - 
assim te falo, Catarina, do meu valioso presente.

António Vieira Trindade

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Estrela, 8 de Janeiro de 1996

por cincodiasuteis, em 15.08.14

A água ferve à hora do nosso chá.

A rolha de plástico do saco de água quente lembra-me a chupeta do nosso bebé, ainda que maior e mais tosca, ideal para a boca dele agora, boca de onde ouvi que dispensava o luto por ti, nem ao menos um castanho ou um verdinho escuro. 

A rolha é de um plástico que apetece morder como o tapete da banheira; só a coloco no saco de água quente depois de entrar no quarto - antes fico no corredor a olhar para a tua fotografia até o vidro da moldura ficar todo embaciado.

 

Debaixo da malha sinto o relevo das flores na borracha, flores parecidas com as que ontem te deixei, com pena minha também de plástico, mas, como tu bem sabes, sofro muito das pernas para andar constantemente a caminho do cemitério.

Este casaquinho que fiz ao saco de água quente lembra-me aquele da nossa bebé, mas sem mangas e em castanho e verdinho escuro, ideal para o tronco dela agora, que está todo escanelado, em vez daquele vermelho desrespeitoso para com a tua memória.

Mesmo que o saco de água quente tenha agora um casaquinho mais novo que o teu pijama roto e de infante, preferia quando os meus pés frios se aqueciam com o frio dos teus.

Amanhã conto-te outro ritual de viuvez: o tapete cheio de boquinhas de plástico alinhadas, prontas a gritar de saudade, caladas pela porcelana escorregadia, esse tapete sempre na banheira desde o dia em que te desgraçaste todo, meu teimoso.


Este é um diário de viuvez aconselhado pelo Senhor Doutor. Foi escrito no bloco da coruja que tu trouxeste lá da fábrica. Nem sei quem escreveu; a certa altura a caneta por sua conta.


Alice

 

António Trindade Vieira

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