Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A Casinha de Bonecas da Sofia

por cincodiasuteis, em 29.07.14

Outro dia apanhei-me a rever o Marie Antoniette da Sofia Coppola; hoje voltei à banda-sonora do filme e acredito que não há nada mais fabuloso do que entrar numa Versalhes cor de rosa ao som de The Strokes, Gang of Four, The Cure ou New Order. O filme é isso: uma aproximação ao passado através dos sonhos de uma geração de estrelas pop, que olham o passado com uma saudosa intensidade; aliás, isto devia ter sido a epígrafe do filme:

 

“-  O que é que queres ser quando fores grande?

 

- Rainha.”

 

Abre-se logo espampanante naquela longa enumeração de calçados, extravagâncias e doçaria ao som de I Want Candy (Bow Wow Wow) – a declaração de intenções do filme. Coppola parece que faz questão de que seja tudo feminino, urgente, cor-de-rosa, amoroso, pop e distorcido; arrisco-me a dizer que este filme é o regresso da Sofia aos seus sonhos de adolescente. Ela mexe na história, remexe  na música (até teve de pedir ao amigo Kevin Shields que desse outra roupagem à popalhada dos Bow Wow Wow), dá outro significado aos mitos e quer que o antigo seja o novo e fez assim o seu melhor filme adolescente. Kirsten Dunst é a cara (e que cara!) deste sonho de menina e mostra-se: avassaladora, nada contida, frágil na sua pontinha de sexualidade e atrevimento e sempre à flor da pele. Até a música está ali para acontecer à flor da pele; ela habita no filme não por lógica, mas porque fica fixe assim. É um filme que tem lá dentro uma realizadora e todas as suas fantasias e isso é de valor numa altura em que a banalidade e a falta de compromisso realizador/filme invadem os cinemas todas as semanas. 

 

A Sofia é aquilo que o seu universo diz: ora histérico, ora melancómico faz-nos o gosto aos olhos com as pequenas coisas bem enfeitadas. A realizadora quis tirar a Maria Antonieta da guilhotina para lhe dar um videoclip - e acreditem que ela nasceu para isto -, tanto que o filme não acaba em sangue, mas sim num cenário destruído pelo All Cats are Grey dos The Cure. Prefiro o Lost in Translation e o The Virgin Suicides (dois filmes de uma vida), mas este é eterno por ser daqueles filmes que informalmente tem tudo no sítio. É para ser visto à flor da pele, como os sonhos. 

 

Pedro Ramalhete

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt