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O mar visto ao longe era o padrão da barraca.

O senhor João, lá dentro, com a camisola às riscas azuis do avesso, procurava as pernas que melhor tinham engrossado durante o ano, mas só via peles deixadas ao sol por senhoras que foram trabalhar com os botões à mostra.

O seu rádio tocava vozes e risinhos de meninas em fato de banho; desejava desde o botão vermelho para baixo que um dia todas elas regressassem à praia de barco.

Umas pernas no ponto entraram com um puxão; logo seduzidas por uma areia mais fria, que os dedos dos pés apertavam com força, deixaram-se ficar. Meteu-as à vontade e saiu para fazer chá.

À volta, muitos miúdos deitados nas peles das mães; só um em pé, rodeado de esculturas de animais.

- Faz-me um buraco para a caneca no topo da praia. 

- Vai demorar... Não quer antes a minha sopa de tartaruga, senhor João?

- Temos areia e sol: os antigos até levariam a mal se não esperássemos. Calça as meias e faz-me esse favor.

Espetados entre velas, os chapéus haviam perfurado sapos – sabia-o o Marinho, que, por isso, fez um buraco pouco fundo.

De volta com o chá, espreitou o pano da barraca com costuras: o senhor João a contemplar o chocolate no fruto; o cone em equilíbrio perfeito na sua irmã. Chocado, deixou cair a caneca antes de estilhaços fugazes, feitos de água e de um silêncio que, por abalar com susto, o Marinho já nem sequer ouviu. Melhor assim: o senhor João não gostaria de ser interrompido enquanto provava o paraíso.

No lado B, mais vozes e risinhos.

 

António Trindade Vieira

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