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Nunca serei escritor! Era, claro, "ininterruptamente", e não "interruptamente", o seu antónimo. Corrigi o erro, mas de certeza que alguém lera o texto antes disso; outra pessoa que deixaria de acreditar no meu potencial (já escrevi sobre isso aqui).

Enquanto me preocupava com esse erro grosseiro, duas mulheres, acompanhadas de duas crianças, conversavam à minha frente.

- Tens de ir lá ver aquilo!
- E ela não se importa?
- Vais comigo. Não há problema nenhum. Chegas lá e ela mostra-te. É lindo!

 

Falavam de um piercing num mamilo.

As crianças não paravam de gritar em crioulo cabo-verdiano; como mal as entendia, a minha atenção estava toda naquela mama ausente cujo mamilo havia conhecido um gracioso metal, assim se embelezando para sempre.    

- Mas porque é que vocês fazem isso? 
- Perguntam-me várias vezes. Ninguém vê, é verdade, mas eu fiz para mim, para me sentir melhor.

Ainda assim mantive a pergunta: porquê? Aquilo interessou-me.
No meu colo estava o livro Anna Karenina, aberto nas páginas finais. Será que um brinco na mama livraria Anna da desgraça? Não me parece que fosse desagradar a Vronsky; mas o mais importante é que faria muito por ela!

As duas mulheres acabaram por mudar de lugar. Num banco mais à frente, longe do meu olhar, teriam outro à-vontade; talvez até mostrassem uma à outra as suas mais recônditas peças de joalharia. Será que viram na minha cara a nova Anna Karenina? Uma mulher cheia de encantos, agora com mais um, este longe da vista da sociedade russa, mas escondido no seu peito, a fazer coisas por si. 

Quando pensava de novo nos meus deslizes ortográficos (gralhas, afinal trata-se de um leitor de Tolstói), as crianças voltaram para perto de mim numa coreografia de dedos indicadores. Sentaram-se à minha frente: uma mais destemida, outra mais comprometida, ambas, contudo, a dirigirem-me caretas, a falarem-me num tom de reprimenda - a graça, para elas, é que eu não podia entender crioulo cabo-verdiano -, antes de começarem a rir muito, agarradas à barriga.  
Percebi rapidamente que se divertiam à minha custa. Deixei-me estar, sem esboçar reacção, forçando até uma certa passividade; depois tirei o caderno e comecei a escrever este texto, enquanto elas continuavam a fazer troça de mim. Mas agora, com o caderno, também eu me divertia à custa delas e das mulheres que as acompanhavam. Divertimentos diferentes: elas não podiam saber. Não me senti particularmente adulto - senti-me escritor.

 

António Trindade Vieira

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