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Ao Deus Dará

por cincodiasuteis, em 30.07.14

A Irmã Mercedes gostava de ensinar. Naquela aula, chamou um a um ao quadro; queria que escrevessem nomes bíblicos. Na turma, estranhou-se o pedido, mas rapidamente se levantou um burburinho, entre a canalha, para que se fizesse o desafio com fulgor. A professora pegou na lista de alunos e deu início ao desafio: primeiro levantou-se o Abel, depois a Carlota, o Fausto, a Júlia e o Miguel. Por esta altura, já tínhamos uns quantos nomes apontados no quadro; desde João, passando por Paulo até Mateus e um Pedro quase imperceptível no limite inferior esquerdo da ardósia. A Irmã continuou a chamada e os alunos atendiam joviais ao teste. Chegou a vez do Xavier, que ao olhar para o quadro percebeu que tinha a tarefa dificultada. “Já estão os nomes mais fáceis e os difíceis eu não os conheço”, disse o rapaz ao ouvido da professora. Entre uma pancadinha nas costas e um sorriso enternecedor ela aconselhou-o a pensar bem, a não ter medo de errar – “Não é crime, nem pecado puxar pela cabeça. Tens tempo...” O pequenito amedrontado e ainda sem saber o que escrever, encontrou no abecedário uma forma de se orientar. Pensou um pouco, alinhou uma letra com outra e assim, no canto superior direito, escreveu: Deus. Os colegas riram-se, a freira corou.

 

***

Acho difícil haver um deus.

 

É verdade que até ao sexto ano frequentei um colégio assumidamente católico e que todos os valores que a minha família me passou não andavam muito longe daquilo que Jesus Cristo pregou. Ensinaram-me a doutrina, mas eu estou certo do que digo: acho dificíl haver um deus. Porquê? Não sei, está me no espírito. É da minha fé duvidar que Ele existe e não será por falta ou excesso de provas, mas sim porque não há necessidade. É isso: eu não necessito de deus!

 

Espanhola, divertida, contagiante. A Irmã Mercedes existiu mesmo e era a freira mais porreira da escola. Era a única que fazia com que as aulas não fossem uma seca e por isso olhávamos para ela como “a freira diferente” – curiosamente era a professora de Religião e Moral. Os pais diziam em coro que ela era “toda pr’a frentex”, mas foi apenas privilégio dos alunos saber que ela não acreditava na vida depois da morte; e era tão certa disto, que nos dizia - quando Deus desviava o olhar - que depois desta vida voltamos ao vazio de onde viemos. Era assustadora a certeza dela nesta declaração e nós ouvimo-la  muitas vezes. Quando via a Irmã Mercedes nos corredores, de guitarra na mão, a cantar ao seu Deus sentia alegria pelo seu louvor e por isso temi pela Irmã, como temo por todos que caminham de volta à escuridão. Assustei-me pela morte inevitável daquele cantar e talvez por isso não precise de Deus. 

 

Pedro Ramalhete

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