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Depois de começar para onde ir?

por cincodiasuteis, em 23.07.14

Gosto muito de pensar no início de um texto, gosto que ele escorregue na língua de quem o lê, mas para que assim seja é preciso revolver a cabeça de uma ponta à outra, em busca daquilo que o texto será. É trabalhoso, implica olharmos para o que nos rodeia, para aquilo que nos preenche ou chateia e, sobretudo, olhar para as pessoas. Fazer um início é pensar incessantemente, é procurar com sede. Vou pensando: se calhar escrevo sobre o Benfica ou sobre a Ucrânia, se calhar faço uma meta crónica ou se calhar vou ao correio da manhã buscar uma merda qualquer.

Penso, penso, penso e não sei mais se existo, mas quem existe – naquele mundinho exposto pelo CM - e me faz pensar é o “Defecador em Série.” E por isso decido veicular o meu pensamento para aí – fico sempre pelo útil. A expressão por si só intriga-me: o que é um defecador em série? Acima de tudo é um homem - não muito bonito, diga-se. Mas é um homem que defeca muito ou um homem que defeca para lezar terceiros? Talvez as duas, com um nome desses é sensato que assim seja. Mas intriga-me mais existir uma pessoa com estofo para borrar a sua imagem e a propriedade dos demais de forma tão declarada. Não há pudor algum aqui, estamos a falar, claramente, de um terrorista, um devasso, um merdas que até pode ter bom coração, mas chegou àquela fase da vida em que caga no quintal dos vizinhos. Eu até imagino um encontro inesperado entre o “Defecador” e um amigo de infância há muito ausente; pergunta-lhe o amigo:

- Então, rapaz, como vai essa vida? O que fazes dela?
- Defeco em série.
- Mas.. em série ou não, toda a gente defeca, não é verdade?
- Sim, mas eu defeco para espalhar o pânico.

E ficamos por aqui, o resto fica à vossa descrição. O interessante está por escrever, porque de facto acabei por me perder do ponto de partida, e como me perco na escrita, perco na fala e no raciocínio. A minha escrita tem sido basicamente a minha vida: quero-me Joyce, mas acabo por abraçar estes defecadores. Tudo isto para dizer que gosto de inícios, de os pensar e trabalhar. Um bom início de um texto é o caminho que fazemos de mãos dadas com o mundo e com as nossas referências. Um início é o que o Roland diz - tudo isto para te citar, Barthes: “Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás – é o começo da escrita.”

 

Pedro Ramalhete

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