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É para amanhã

por cincodiasuteis, em 07.08.14

Este texto não é já para ser lido. Este texto não é para ser lido já. 

Como tudo aquilo que escrevo, este texto também é para amanhã. Não me apontem o dedo, polícias da modéstia, que, tenho reparado, é um dos grandes valores deste tempo; não pensem que vejo qualidades artísticas, muito menos vanguarda, nestas modestas crónicas, mesmo sendo tão poucas vezes crónicas (bem, se calhar são mais crónicas do que eu penso; se sim, boa). Não falo de um amanhã de décadas, de séculos, mas do amanhã, dia de sair outro texto, melhor dia para ler este. 

Esperem, então, por amanhã - um pedido que se estende a todos os meus futuros textos. 


Não consigo parar: corto frases inteiras, substituo palavras, corrijo pontuação, enquanto o texto já está aí para ser lido, publicado, até publicitado nas redes sociais... Que angústia! Por exemplo, há os erros gramaticais que me escapam, pelos quais só dou depois, isto é, tarde demais, quando o professor já (outra vez o "já"? Confirma-se: utilizo a pesquisa do Word e conto quatro "já", o que me desagrada) leu e, muito bem, censurou fortemente os meus deslizes - se ainda perde tempo a ler-me, depois de tantas desilusões gramaticais (ortografia e tudo), algumas delas por minutos! Sim, por um, dois minutos - tenho a certeza! (Um texto muito exclamativo, não?) Chego a pensar em mandar mensagem - (talvez use demasiado o travessão...) muito o meu estilo:

Professor, não sei se leu o meu último texto, se calhar não leu, como é natural - por que razão perderia tempo com isso? Só o publiquei há dez minutos, também... Mas se o leu, primeiro tenho de lhe agradecer o tempo que gastou, e depois peço desculpa por ter ignorado aquela regência... Eu conheço a regra; (um ponto e virgula numa mensagem no chat é algo que me acontece) foi a pressa, garanto. Os textos têm de estar prontos no dia, mas são, como bem sabe, textos para amanhã - não da mesma maneira que "Finnegans Wake" é um texto para amanhã, percebe? (Este professor existe - não sei se esta é melhor maneira de dizer que ele, como dizer?, existe.)

 

Palavras que têm de dar o lugar a outras - a maior obsessão. Mais do que tentar detectar as vezes em que me distraio da gramática, a procura da palavra certa é o que me faz reler o texto mais de vinte vezes, bem mais, depois de ser publicado. A O poema (também há as simpes gralhas como esta; quem a caçou foi a minha namorada - "a namorada só tem capacidade para encontrar simples gralhas, é isso?") é uma pequena companhia onde todos os membros, todas as palavras, são insubstituíveis; não escrevo poemas, mas gosto que a poesia seja a professora da minha prosa.

Quando publiquei o primeiro texto neste blogue ele não estava assim, mas está melhor assim, depois de horas e horas a trabalhá-lo, horas e horas em que ele escapou ao risco - em vão.


Agora sinto-me como o sorridente autarca que corta a fita de um pavilhão gimnodesportivo ainda em obras. Aceitam um canapé? 

Este texto não está bom! Não o leiam já! Não o leiam já!


A obrigação de publicar diariamente precipita o processo, levando-me a alterar um texto que já é público. Sendo assim seria possível dar pelas más decisões antes de publicar, se tivesse mais tempo? Não me parece; é como se mudasse a lente com a publicação, e a escrita, para mim, é estar algum tempo diante um texto, constantemente a mudar a graduação através da qual o trabalhamos. Muitas vezes um erro de ortografia é causado por uma cabeça mergulhada no texto. Não se pode abdicar do mergulho, como não se pode esquecer de subir ao miradouro.

E se fosse um jornal, onde não tivesses a possibilidade de alterar?
Tive a ilusão de que, neste espaço, podia escrever como um padeiro faz pãezinhos. Faço, entrego e amanhã há mais, amanhã corrige-se o sal. Não consigo; quero entrar pela casa das pessoas, levar o pão comigo, garantir-lhes que ele vai voltar melhor, tirar-lhes as torradas da ideia... 

E, sim, há sempre uma altura em que descansamos minimamente, nem que até lá o texto de uma página fique reduzido a uma frase que nem estava nessa página inicial. 

Leiam este texto agora; é capaz de estar bom, afinal.


António Trindade Vieira 

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