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Empreendedorismo (ou quase)

por cincodiasuteis, em 16.09.14

Uma nova função no espaço público, uma ocupação para os reformados. 

A selfie é o assunto preferido das conversas e até das crónicas, mas não posso ignorar que ainda se pede a estranhos que passam

Não se importa de tirar uma fotografia aqui a mim e ao meu

 

Todos estão familiarizados com esta situação, que não diminuiu com as selfies; arrisco até dizer que hoje há mais gente a solicitar fotografias a estranhos - primeiro, porque, como é óbvio, temos mais meios para as tirar, e depois porque a selfie é outra coisa, é, aliás, a negação de um bom 

Não se importa de tirar aqui uma fotografia a mim e à minha

 

Mas nem sempre passa alguém a quem nos apeteça pedir isso; quem nunca hesitou antes de fazer o pedido, imaginando o homem a correr para longe com a nossa máquina na mão? Um clássico, diria. Proponho, então, que arranjemos alguém para estar na rua, junto dos nossos monumentos, por exemplo, pronto a tirar-nos uma fotografia. Precisamos de confiar na pessoa, e quem não precisa, quem gosta do risco, quem vê nessa situação uma possibilidade de descoberta, de amizade, de amor, esses enquanto não

Olha, desculpa, não te importas de tirar aqui uma 

continuariam a poder imaginar uma perseguição policial ou uma noite de paixão num jardim ali perto.

Isto serviria para criar emprego, então? Não diria tanto, não tenho vontade de ver assim; apenas uma boa ocupação para os nossos reformados (estou feito não-sei-quem com isto nossos reformados depois de já ter escrito os nossos monumentos), ainda que em muitos casos

 

Menina, é aqui que se carrega? Onde é que

 

E muitos daqueles que pedem para tirar uma fotografia são turistas; tenho observado que, além de casais ou grupos de amigos, há muitos grupos de amigas. (Tenho observado como quem passa e observa, querida... Passo e observo, mas só observo porque passo. Percebes? Isto ajuda?) 

Jovens atraentes, com aquela languidez branca que poucas portuguesas têm - incrivelmente, tu, morena, portuguesa, também consegues tê-la, e ainda lhe acrescentas uma encantadora fragilidade, combinação que me desarma (isto ajuda?); de resto os Diapasão que me perdoem -, prontas para tirar fotografias que, mais tarde, as recordem de Lisboa, junto dos Jerónimos (ou da parede mais suja da cidade). 

O que ningém esperava é que muitas destas raparigas não quisessem ser incomodadas, isto é, subtilmente assediadas (pelo menos não antes das três da tarde). Daí o reformado decente. Estas raparigas, estrangeiras ou não, para não serem chateadas, poderiam esperar por um rapaz sério, fiel, comprometido, como eu, ou, ainda que menos fiável, por outra rapariga - mas porquê esperar?1

Fica a ideia. E até eu, obviamente não dotado de uma languidez branca, se precisar que me tirem uma fotografia no próximo passeio por Lisboa, vou chamar pelo reformado

 

Chefe, será que podia tirar aqui

 

A pergunta que preenche toda a superfície intracraniana do Homem deste século. A pergunta do século. 

 

  

António Trindade Vieira

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