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Estranhos

por cincodiasuteis, em 31.07.14

Barrou o pão de modo a que aquela refeição fosse uma experiência com picos de prazer; na vida, por outro lado, cedo tomou consciência do tamanho da porção e preferiu uma degustação demorada, sem sobressaltos. Reprimiu a vontade de lamber a pequena faca que usava para barrar. Nesse momento as suas rugas, como cordas, amarraram-lhe uma expressão feia que ameaçava tomar-lhe conta da cara. Enrolou a sandes num pedaço de papel de prata que passava a ferro a cada utilização. Ainda havia um resto de café daquele que fizera no último feriado; levou-o numa chávena com uma espécie de friso chinês desenhado em seu redor, onde pétalas brancas salpicavam a louça de uma baça transparência. A chávena e a sandes estavam prontas no tabuleiro; faltava apenas a taça de champanhe de vidro quadriculado que acolhia uma orquídea de plástico.

- Vale a pena andar a gastar dinheiro em flores? Não vale, Dona Idalina. Vale a pena gastar o nosso tempo a fazer pudins? E sopa? Nenhum destes plásticos me sabe a plástico. Estou-lhe a dizer.

Atravessou a rua - quando era rapariga nova, lembra-se, alargava os passos para pisar apenas o branco da passadeira; na verdade, quando era rapariga nova não havia passadeiras, mas lembrar-se (ou esquecer-se) do que nunca houve talvez fosse a fórmula da sua companhia. Entrou no centro comercial.

A velha procurou uma mesa e uma cadeira livres, entre algumas que pareciam ter saído do pátio de uma casa de chá, trepadeiras de ferro que se enlaçaram na forma de mobília, ali ocupadas por alguns jovens com um bem cimentado estilo de futebolistas frustrados 

- Come atum para ganhares massa, mano. A sério!

e outras, essas sim, mais ajustadas a um centro comercial, de um contraplacado sem graça, mais coerentes também com os seus ocupantes: um engravatado e umas senhoras a fazerem boquinha, que, ao ritmo do desabotoar da refeição, comentavam peças jornalísticas sobre, por esta ordem, novos empregos cuja denominação tem origem anglo-saxónica, melhores destinos de férias em tempo de crise e as posições sexuais que queimam mais calorias.

- Não me digas que experimentaste isso com o teu amigo web marketeer lá naquela pensão da Arrábida?

Toda esta gente estava multiplicada em muitos corpos que ocupavam todo o espaço. Cansou-se de esperar à procura. Os seus membros tremiam cada vez mais; felizmente o café só ocupava metade da chávena, tonalizando duas vezes as pétalas chinesas.

- Não faças isso à faca. A tua língua não deve tocar num utensílio que nós ainda vamos utilizar. Gulosa! Se cortasses a língua seria bem feito. Viste? Não tenho pena nenhuma.

Subitamente a velha no chão. Talvez as pernas tenham tropeçado na sombra do tabuleiro, que parecia avolumar-se a seus pés. A taça de champanhe com a orquídea de plástico, a chávena chinesa com o resto de café, a sandes cuidadosamente enrolada no papel de prata passado a ferro - tudo no chão.
Claro que uma senhora de uniforme socorreu o chão de imediato. Claro que as outras pessoas se levantaram, no fim da meia hora que o patrão, generoso, lhes concedeu para almoçar. Claro que depois apareceu um lugar vazio.

 

António Trindade Vieira

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