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Galveias

por cincodiasuteis, em 25.09.14

Gosto de passar algum tempo da minha vida em bibliotecas. Gosto muito de bibliotecas, como também gosto de algumas livrarias ou da pequena estante do meu médico; naturalmente uma boa biblioteca exerce sobre mim um fascínio maior, mas qualquer estante com livros desacelera-me o passo, nem que esteja cheia de maus livros, aliás, principalmente se for esse o caso. As lombadas hipnotizam-me - e, acreditem, preferia não escrever este tipo de frases... 

Nas bibliotecas públicas também me interessam as pessoas. (Os livros camuflam bem um observador, que passa por leitor. Também me acontece nos transportes públicos; e a certa altura dois escudos, sendo que, cada vez mais, um deles tem um casaquinho ridículo - não o meu, claro.) 


Costumo andar pelas bibliotecas públicas de Lisboa; posso garantir que são de Babel quanto ao número de pessoas que me hipnotizam mais do que lombadas. 

Sobre a mesa tinha a revista Time Out, um livro de contos da Flannery O'Connor (um espanto, já agora), uma garrafa de água de um litro e meio (quis, nesse dia, começar a beber essa quantidade de água, diz que a recomendada diariamente, mas concluí que muita água dá-me conta do sistema nervoso, o que, segundo as minhas pesquisas no Google, não é disparatado) e um caderno que comprei convencido de que seria ali que escreveria o meu "livro branco", o que não me aconteceu - e não me façam perguntas. 

À minha frente sentou-se um homem com um folheto na mão - "O que é a batalha do Armagedom?" -, dado, suponho por uma Testemunha de Jeová. Pousou-o na mesa juntamente com um livro de anatomia; um livro cheio de imagens de ossos rodeados de um bando de setinhas a apontar nomes, todos eles percorridos pelo sujo e gretado dedo indicador do homem. 

Estava mal vestido. Os seus olhos tinham para dar aos meus um forte aglomerado de finos vasos sanguíneos que lhes ocupava a superfície branca; além disso eram olhos que se retorciam sempre que havia algum barulho - e depois disso voltavam ao convívio dos meus um pouco mais dilatados (e talvez mais vermelhos).


No livro, ossos, ossos e mais ossos. 

 

Eu sustivera a respiração, embora estivesse a gostar (com medo) daquele quadro, ao qual acrescentei, na minha imaginação, um massacre, litros de sangue a salpicar a brancura dos ossos do livro.
Fiquei chateado porque perdera uma boa oportunidade de ver; o que deveria ter feito era uma observação mais tranquila.

Então fui à casa-de-banho comer um pêssego, porque de certeza que me acabaria por sujar com o sumo da fruta e precisava de água (ainda estava convencido de que a da garrafa ia ajudar-me a reduzir volume abdominal).
É uma bela casa-de-banho, com espaço, com luz.
Mas se, entretanto, alguém lá entrasse? 

Algum de vocês, por acaso, está a pensar escrever uma crónica sobre um tipo que come pêssegos na casa-de-banho da vossa biblioteca? Nem tu, estranho homem dos ossos?  

 

António Trindade Vieira

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