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Gratidão

por cincodiasuteis, em 30.09.14

Um amigo queixava-se no outro dia da sua falta de gratidão; ele quer ser grato, mas não se sente capaz.

Se pelo menos conseguisse ser grato... 

De onde vem essa necessidade? Não são muitos a sentir o mesmo, desconfio, mas parece-me, ainda assim, uma necessidade interessante, sobre a qual valerá a pena falar aqui.

Conheço muito bem o desabafo - sinto muitas vezes o mesmo. Temos conforto e oportunidades, mas não temos vontade, alegria no coração... (Sim, a expressão é mesmo esta; não deixem de ler.)

Há um sentimento de culpa com ou sem gratidão; o que a gratidão faz é tornar essa culpa positiva, ou seja, aponta-nos mais facilmente o caminho da diligência.
A gratidão traz responsabilidade, mas também traz energia para responder a essa responsabilidade - experimentem e verão que ela faz algo no corpo.

(De novo: as expressões são mesmo estas; não deixem de ler. Sei que neste momento o leitor já se sentiu incomodado com o tom de autoajuda. A propósito, haverá uma boa literatura de autoajuda? Ou melhor: entre muita tralha não se encontrarão também alguns ensinamentos certos? Estamos demasiado mergulhados no cinismo para pensar claramente sobre isso. Pensar, pensar muito, pensar bem, é o que proponho. O mal é este: ou as pessoas aceitam qualquer ajuda ou não aceitam ajuda nenhuma - eu basto-me.)

Também queremos agradecer quando chegamos à conclusão de que talvez seja melhor reduzir o apetite. Tenho isto, mas não me preenche; tenho isto. mas não me basta; tenho isto, mas não me deixa suficientemente motivado. A gratidão treina-nos a saciedade. 

E não conseguimos agradecer porquê? Não sei. Não é uma capacidade comum a todos. Mesmo com esforço, com vontade, muitos não chegam lá. Como a fé? 
Uma pergunta que pode ajudar na resposta: agradecer a quem? Aos nossos pais? Ao Estado? Ao Sport Lisboa e Benfica? Também, também, mas, no limite, não lhes podemos agradecer o tempo que temos, a vida. E a natureza, essa, não tem ouvidos.

(Sim, a resposta é essa em que estão a pensar; não fujam, não deixem de me ler.)

 

António Trindade Vieira 

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