Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Lobotomia

por cincodiasuteis, em 24.07.14

Quero dedicar esta crónica a todos aqueles que amam verdadeiramente as crónicas. Aqueles que seguem as transmissões televisivas de futebol certamente que já entenderam onde é que isto vai desembocar. Para os mais leigos na matéria, estou a adaptar uma das frases mais ditas por Luís Freitas Lobo durante as transmissões televisivas do Mundial de Futebol. É verdade que Luís Freitas Lobo criou um estilo. É ele. Não há ali nenhuma personagem. Ele, tal como o próprio afirma, “ama verdadeiramente o futebol” e não tem pejo em mostrar esse entusiasmo na linguagem repleta de metáforas, alegorias, comparações, descrições, personificações, hipérboles ou muitas outras figuras de estilo. São tantas, aliás, que só as edições Europa-América é que poderiam resumir o estilo loboniano.

 

Já estávamos habituados a ouvir frases como: “aí vai Nico Gaitán. O jogador que faz do espaço de uma cabine telefónica um latifúndio”. No entanto, no Mundial de Futebol esteve particularmente inspirado ou não carregasse dentro de si o entusiasmo em forma de tensão arterial elevada que a maior competição de futebol do Mundo proporciona a quem “ama o futebol acima de todas as coisas”, como o próprio o diz. A minha crítica não vai ao estilo dele. Vai ao exagero. Quando há demasiada emoção, falta racionalidade. Isso aconteceu demasiadas vezes. Ao ponto de eu estar mais atento à forma como ele dizia as coisas do que ao jogo propriamente dito.

 

Luís Freitas Lobo gosta tanto de futebol que não consegue dizer mal de nenhum jogador. Em que circunstância for. Mesmo que haja uma entrada violenta. Ele consegue dizer que é para cartão vermelho, mas mais tarde ou mais cedo vai acabar por desculpar o jogador dizendo que “não teria intenção” ou “as condições do campo estão difíceis”. Afinal de contas, são eles que alimentam este amor lunático de um dos mais conhecidos comentadores de futebol portugueses. Isto passa-se também quando avalia a capacidade de um jogador. São todos acima da média, o que faz com que a média no futebol seja a coisa mais estranha da Matemática. Se Luís Freitas Lobo controlasse as entradas no Ensino Superior, toda a gente estaria acima da média. Mesmo em Medicina. Se por alguma razão o jogo está a ser aborrecido para o mais comum dos mortais, eis que ele nos diz que ao nível táctico está a ser perfeito. Isto porque o nível táctico é como Nossa Senhora de Fátima: só alguns é que a viram, mas já todos ouvimos falar.

 

Apesar de tudo, poucos são aqueles que conhecem tantos jogadores como este senhor. Ele conhece jogadores do Sri Lanka ao Burkina Faso. É um apaixonado por aquilo que faz e ninguém pode ser condenado por meter paixão no seu trabalho. No entanto, deixo aqui a receita para que seja na dose certa, pois ele está a falar para pessoas que não sentem, nem pensam o futebol com a intensidade com que ele o faz. Para eles, se cair em exageros, passa só por ave rara. De resto, impecável.

 

Quero agradecer aos meus pais por eu ter nascido e ter tido o privilégio de escrever esta crónica.

 

Francisco Mendes

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt