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Morremos Todos, James Garner

por cincodiasuteis, em 21.07.14

Uma rua estreita com árvores nas duas margens é o melhor sítio para se colocar uma esplanada, e acho de louvar que os restaurantes, cafés ou snack bares pensem assim.  Um bom momento de leitura ou um bom tango da caneta no papel tem de ficar grato a uma esplanada contemplativa. Depois parte de nós estender a contemplação ao domínio e ficarmos com essas esplanadas para nós.

Ontem não estava um grande dia ou, pelo menos, não estava um dia aceitável de verão; o vento arrepiava-me como um beijo no pescoço, o céu estava numa guerra sem lei entre o cinzento e o azul, a temperatura descia humidamente pelo meu corpo e acho que – para o bem da minha leitura - não chegou a chover. Digo que ontem não foi um bom dia para o verão, mas foi um bom dia para aquela esplanada na rua estreita com àrvores dos dois lados, mesmo  ao pé da minha avenida. E foi um bom dia para ela porquê?  Porque dias destes vestem bem uma esplanada que já é bonita por si só: acolhem a morte do James Garner e torcem para que a Emma Bovary  queira alguma coisa connosco – esplanadas corajosas.

Esplanadas destas recordam-se na retrospectiva de final de ano onde fazemos a lista das pessoas que morreram e dos feitos que elas fizeram por nós e é nessa altura que distinguimos os santos das pessoas que realmente interessam.  Ontem naquela esplanada, “morreu o James Garner”, disse-me a minha companhia em tom de saudade. Em tom de saudade essa companhia disse-me uma vez que tinha morrido o Mandela, o Garcia Marquez e o Paul Newman. Todos os dias numa esplanada morrem os sonhos, o dia e a noite.  A paisagem fica e no fim morremos todos, James Garner. 

 

Pedro Ramalhete

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