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Muge em Festa, um retrato

por cincodiasuteis, em 13.08.14

Numa altura em que a televisão usa ininterruptamente e com orgulho as festas populares para entreter o emigrante e o tuga, eu próprio procurei, neste fim de semana, aventurar-me numa experiência do género, em Muge.

 

Muge é uma vila ribatejana onde para lá chegar é preciso aceitar que a cidade acaba. Rodeada por planícies longínquas e recheada por ruas a lembrar uma América interior, monta-se a festa no Rossio - esta zona peca pela demasiada poeira que se levanta à medida que o pé aquece. Na gastronomia: há pampilhos, o doce cujos recheio e massa se desfazem na boca apaixonadamente; as bifanas do Silas, que se não fosse pelo preço exorbitante seria a bifana mais extravagante e arriscada – pela positiva – que se faz nas redondezas de Lisboa; o pão com chouriço é o habitué destas festas, assim como o churro, a fartura e o algodão doce e nenhum deles falhou; a cerveja chega com o cheirinho dos grelhados e funcionam sem desiludir, mesmo que falte aquele toque divinal do Fernando (a tasca que serve as melhores cervejas da região).

 

Em termos de show: depois de um domingo entediante com a actuação balofa dos Chaves D’Ouro (parecia mais uma lição de marketing do que um concerto pimba) e de um fogo de artificio extenso e bocejante, chegou a segunda-feira das Cavalhadas e de Sergio Rossi. As Cavalhadas duraram tempo a mais e aborreceram as três ou quarto pessoas que assistiam, mas pela tradição o meu povo faz tudo. Para quem não sabe: Sergio Rossi é irmão de Romana, sobrinho de uma das Doce, aos treze anos já estudava música e desde muito cedo compõe, escreve e interpreta as suas músicas e com este percurso todo já tem quatro álbuns editados - informação dada em pleno concerto. O espectáculo deste "Delfim do Pimba" devia ter sido maior do que foi, devia ter arrebatado os corações poucos exigentes das ribatejanas solteiras e nem para isso serviu. Rossi espalha-se ao comprido porque prefere imitar a criar: reduz-se a uma cópia ranhosa dos artistas de sertanejo, deixa-se dominar pela veia azeiteira em vez de lhe dar frescura e novidade e, como se não bastasse, é cheio de si. Eu tenho muito pouca paciência para estes artistas que se têm em muito boa conta, quando no fundo desvalorizam o seu próprio repertório, ao tocar três vezes a mesma música durante o show, e assassinam clássicos sem arrependimento - que raio foi aquela versão de Sempre que Brilha o Sol?   

 

Numa breve nota, quero dar os parabéns à associação de festas de Muge de 2014 pela coragem e empenho para contornar a situação frágil que a comissão de 2012 deixou. Só lhes peço que em futuras festas, poupem o público a discursos enrolados, extensos e politicamente populistas, onde as palavras se confundem com a ira. 

 

No computo geral, destaco: a hospitalidade das boas pessoas, a beleza natural da vila e a sua disposição arquitectónica que pisca o olho à organização singela e minimalista do estado novo. Pela negativa: achei tudo demasiado pimba e demasiado morno. Faltou um artista que soubesse puxar pelo público e um trabalho visual mais ambicioso.  Cinco estrelas em dez.

 

Pedro Ramalhete

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