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O Cibuca

por cincodiasuteis, em 28.07.14

O Cibuca é um cão. Não quero um daqueles textos cuja maior força está no desenlace que, numa frase tão curta como a primeira desta crónica, surpreende o leitor – ao longo das linhas o narrador sugere que fala de uma pessoa muito especial para si, mas o texto acaba por desaguar num objecto, num animal ou numa pessoa pouco óbvia (uma tia-avó, por exemplo). O Cibuca é um cão – e esse é o seu forte.

Quando passo por um ginásio percebo por que razão se diz que alguns daqueles homens insuflados podem tornar-se simples objectos para algumas mulheres; até eu já pensei em usar alguns – nunca um uso sexual; leiam com juízo. Mas desde que o Cibuca está cá em casa nunca mais tive essas ideias. O Cibuca é atlético; tem nome de estrela de râguebi e um olhar terno, profundo como uma lata de cerveja; patas grandes, ideais para abraços que nunca correspondem ao término de uma conversa sobre o sentido da vida, porque se revelam eles mesmo o sentido da vida do Cibuca.

 

Nunca mais pensei em levar um homem insuflado para casa porque tenho o Cibuca. (Tantas seriam as graças se o assunto fosse menos sério… Leiam com juízo e aproveitem: não é todos os dias que este cronista abre a porta de sua casa, e muito menos são os dias em que abre a porta da casota.)

Leio um livro; o Cibuca rói um osso. Exijo a atenção da minha namorada; o Cibuca tem o rabo de um dos felinos cá de casa na boca. Suo com o trabalho de cortar um texto; o Cibuca sepulta no jardim um dos seus brinquedos. Reclamo da televisão; o Cibuca olha-a tão bem sem a ver... Ele não se compadece com a minha melancolia; lembra-me de que há uma virilidade mínima (um vigor, se preferirem) e de que não há uma alegria máxima, um nível de alegria a partir do qual a lucidez não permite chegar - admito que não ligaria nenhuma se fosse uma pessoa a lembrar-me destas coisas, mas como poderia ignorar se se trata de um cão?

É uma benção. O Cibuca chegou ao mesmo tempo que o Evangelho; não acredito que tenha sido por acaso.

Tive a minha dose de cães melancólicos, taciturnos, que só ladravam ao fim do dia, escrevendo no vento da noite o diário das suas angústias. O Cibuca é um cão – e esse é o seu forte. Talvez o texto alternativo a este, escrito pela minha namorada, fizesse mais justiça ao Cibuca; mas mostrar-vos o Cibuca escrito por ela seria mostrar demasiado a casa (ou a casota). Ainda assim: “é o meu menino e ninguém mo tira.” Não diria melhor.

 

António Trindade Vieira

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