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O meu almoço - ou uma crise conjugal

por cincodiasuteis, em 25.07.14

Era uma mesa para uma pessoa; enquanto esperava que a limpassem, pus-me a ler António Lobo Antunes. Demoraram mais do que o normal. Na toalha de papel eu não escrevi as migalhas, nem a chávena de café. 


os meus olhos como o ocaso de um incêndio, o meu irmão ficou sem casa, não conheço as circunstâncias, não sei contextualizar, resolver um só problema já é difícil, o meu irmão vem cá para casa, a minha mulher nunca usa a sanita a seguir, o cheiro a lixívia perturba mais os olhos e a boca do que perturba o nariz, curioso, não é?, farto de ouvir é curioso, farto de ouvir distância aqui ao pé, não aguento mais este cheiro, parece que a minha voz resulta de uma fricção que também me produz lume na goela, os meus olhos como o ocaso de um incêndio, tudo por causa de tanta lixívia, noutra casa o meu irmão defecou por engano no bidé, ainda hoje nos rimos disso, uma história para animar jantares de família, se, mas, de qualquer forma, não são coisas que se esquecem, não é por aí, a minha mulher lava as mãos cinquenta vezes ao dia, toda a superfície da casa conhece muito pano, não temos relações sexuais desde que me recusei a tanto procedimento, preliminares com frascos e algodão, não há pele que se distinga do mármore, onde comem um comem dois, ele tem o meu sangue, vi-o a trocar a sanita pelo bidé, eu partilhei o drama, não é qualquer um, não é um estranho, não são coisas que se esquecem, claro que hoje nos rimos disso, mas na altura éramos crianças, ela nem me ouve, todas as paredes insistem em ser brancas a um palmo do meu nariz, insolentes, espero um telefonema, só consigo aguardar em boomerang, o que me cansa, do sofá à mesa do telefone, espero um toque, uma vibração, fui-me habituando a que o murmúrio de uma máquina precedesse sempre cada movimento do quotidiano, e também lá um fogão murmurou, jantávamos em casa da minha tia, o garfo do meu irmão tocava a comida com preguiça e desdém, como os nossos lápis-de-cor tocavam aqueles livros cujos bonecos perderam a pigmentação entre contornos pretos, enquanto a cara dele se tonalizava toda de comida de hospital, para mim ele era mais um desses bonecos do livro, por sorte não lhe enfiei um lápis num olho, ele é meu irmão, é certo que nunca houve um churrasco numa casa, minha ou dele, nunca houve piscina nem miúdos, uma ocasião qualquer para contar esta história engraçada, mas ele é meu irmão, tenho esta obrigação, onde come um comem dois, ouves-me?, lá ganhou coragem, a voz pediu licença às outras, ergueu-se da nuvem de ruído que ao contrário dos insectos ninguém sacudia, a minha tia apontou-lhe o caminho da casa de banho, já podias ter dito, rapaz, ele seguiu com os olhos que não eram mais do que dois dos nossos berlindes encaixados sobre o nariz, ser inteligente num corpo não é ser olho à vontade, correu cego para a casa-de-banho, para que serve aquela porcelana?, algum dia um acidente, está-se a ver, tão perto e sem utilidade, não são coisas que se esquecem, eu partilhei o drama, claro que hoje nos rimos disso, é uma boa história para animar jantares de família, se, mas na altura éramos crianças, é meu irmão, abre-se o sofá, cá nos arranjamos, onde dorme um dormem dois, não, no chão, o chão cura, faz bem à espinha, diz ela enquanto devora esferovite, a minha mulher devora esferovite, ela devora esferovite, ela devora esferovite… lisboa, 25 de Julho de 2014 Eduardo Pinto Silva? Eduardo Silva... 

 

Era uma mesa para uma pessoa; sobre a toalha de papel, além daquilo que é costume, as migalhas e a chávena de café, quis deixar a conta; assim assegurei que, para quem viesse a seguir, eu não seria mais do que um simples homem que pediu um bitoque. 

 

António Trindade Vieira

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